Um encontro casual vira um ménage à trois; o ménage à trois vira uma orgia. Nesta odisseia de realismo mágico em um quarto gay, Matias rememora seus encontros passados e considera seu futuro, enquanto conversa com uma figura fictícia da literatura brasileira.
Sou suspeito para comentar qualquer trabalho do Gustavo Vinagre, pois a minha veneração artística por ele é conhecida de todos. Mas, aqui, confesso ter alimentado alguns receios, antes de conferir a obra, em razão de eu ter traumas violentos envolvendo a toxicomania alheia. Temi que o tal do 'chemsex' fosse abordado de maneira apologética, no sentido de que o diretor não costuma refrear os atos de seus personagens. Como o co-diretor Vinícius Couto é também protagonista, ele adiciona um elemento de autoficção que se estende aos demais intérpretes, de modo que cada um, em maior ou menor grau, reconstituem experiências vivenciadas na conjuntura abordada, do sexo casual com consumo de substâncias químicas. E isto desemboca nalgo surpreendentemente admoestativo no desfecho, que possui também um caráter de autocrítica em relação ao filme que ainda estamos vendo. Gosto muito de como Igor Mo, a despeito de sua extrema beleza, sempre expõe a fragilidade emocional nos filmes que protagoniza: quando ele lê que "gosta do coração batendo forte", apaixonei-me ainda mais por ele, de modo que angustiei-me na seqüência dos tiques. É um filme que possui vários atravessamentos em relação a outra co-direção do Vinagre, DEUS TEM AIDS, que, além de me emocionar e incitar (mais que excitar), ensinou algo, no que tange à compreensão e à empatia por quem tornou-se viciado, no afã por buscar aquilo que o Capitalismo insiste em criminalizar, punir e/ou proibir. Obrigado por tudo isso, ufa! (WPC>)