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Data de lançamento
24 Set. 2005Duração
Sam Foster (Ewan mcGregor) é um psiquiatra que trabalha numa prestigiosa universidade americana. Certo dia um de seus jovens pacientes o procura para dizer que planeja cometer suicídio em breve. À medida que Sam estuda o caso, o rapaz começa a fazer estranhas e terríveis profecias que se realizam. Aterrorizado, Sam tenta ajudar seu paciente e impedir o suicídio de todas as maneiras, mas acaba se envolvendo numa misteriosa jornada da alma.
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O filme tem uma edição muito criativa, com transições integradas aos próprios elementos das cenas, contribuindo para desorientar o espectador. A isso se soma uma fotografia marcada por uma instabilidade cromática deliberada, alternando de maneira quase caótica entre tonalidades amareladas, esverdeadas e azuladas, reforçando a sensação de confusão e incerteza. Na parte sonora, se destaca um choro incessante de um bebê em boa parte das cenas. O início é intrigante, mas, à medida que a trama se desenvolve, as semelhanças temáticas e narrativas com Alucinações do Passado (Jacob's Ladder) ficam cada vez mais evidentes, tornando o desfecho relativamente previsível. Boa atuação de Ryan Gosling, especialmente na construção do estado de desorientação do personagem.
¡Spoiler Alert!
Henry Hamlet... Não, péra. Henry Letham. Agora sim. Assim como o personagem criado por Shakespeare, Henry vive um intenso conflito e, de certa maneira, parece lutar contra os próprios limites entre sanidade e loucura. Preso entre realidade e imaginação, vida e morte, ele habita um mundo em que já não é possível confiar inteiramente naquilo que se vê. E é justamente aí que a referência a Hamlet, presente tanto no anagrama de seu nome quanto no ensaio de Athena, se torna muito mais do que um detalhe decorativo: o filme parece encontrar no personagem de Shakespeare uma espécie de reflexo para o estado mental de Henry.
Athena aparece ensaiando uma passagem do Ato II, Cena II, em que Hamlet conversa com Rosencrantz sobre considerar a Dinamarca uma prisão, afirma que “não há nada bom ou mau, mas o pensamento o torna assim” e imagina que poderia estar “confinado numa casca de noz” e ainda assim se considerar rei de um espaço infinito, não fossem seus “maus sonhos”. É uma passagem curiosamente apropriada para Stay:
– Hamlet questiona a realidade a partir da percepção, enquanto Henry parece perder justamente a capacidade de separar uma coisa da outra. A Dinamarca não é objetivamente uma prisão; é a maneira como Hamlet a percebe que a transforma nisso. A mesma coisa pode ser mundo para um personagem e prisão para outro, isto é, a realidade externa permanece, mas sua significação é produzida pela consciência. E o final do filme ilustra essa ideia de forma bastante literal;
– Hamlet diz que poderia estar “confinado numa casca de noz” e, ainda assim, se considerar rei de um espaço infinito. Oras, esta é uma imagem bastante paradoxal: um espaço físico minúsculo pode conter uma experiência mental ilimitada. Henry está literalmente nessa situação. Acreditamos acompanhar uma narrativa espalhada por Nova York, hospitais, apartamentos, metrôs, universidades, restaurantes, bibliotecas e pontes. O mundo parece enorme, povoado por inúmeros personagens e acontecimentos. Retrospectivamente, porém, tudo isso acontece dentro de um espaço extremamente pequeno: os últimos instantes de Henry no local do acidente. Enquanto sua realidade física se reduz rapidamente, sua realidade mental se expande para compensá-la. É como se a metáfora de Shakespeare fosse transformada em mecanismo cinematográfico;
– E há uma ironia ainda mais profunda nos “maus sonhos”. Hamlet poderia dominar mentalmente um espaço infinito, não fosse o fato de que seus próprios sonhos interferem nessa experiência. O filme inteiro funciona como uma espécie de sonho ruim de Henry, mas não um sonho arbitrário: um sonho contaminado por aquilo que ele sente, lembra e percebe naquele momento. A investigação de Sam, a mãe de Henry, Athena, Tristan Rêveur (rêveur significa “sonhador” em francês), a tentativa de suicídio, os personagens repetidos e os espaços e transições impossíveis são maneiras pelas quais sua consciência reorganiza os elementos disponíveis. A fala de Hamlet, portanto, não está apenas tematizando o sonho; ela coloca em jogo uma questão que o longa transforma em sua própria estrutura: se a consciência é capaz de construir mundos, como podemos ter certeza de que o mundo que experimentamos não é também uma construção dela?
Daí a importância de Athena estar ensaiando essa passagem. Ela não está simplesmente recitando Shakespeare enquanto o filme desenvolve outra história. Stay coloca as palavras de Hamlet dentro da própria realidade imaginada por Henry. E há algo quase circular nisso: Henry cria um mundo no qual Athena interpreta Hamlet - ela posteriormente afirma ser Ophelia, mas na prática o interpreta -; e Hamlet, através de Athena, parece fornecer as palavras para descrever o mundo que Henry criou.
E talvez seja precisamente aí que a referência deixe de funcionar apenas como uma chave de leitura e passe a fazer parte da própria lógica do filme. Hamlet não está simplesmente dentro do mundo imaginado por Henry; as palavras de Hamlet parecem ajudar a explicar esse mundo por dentro. É muito mais sofisticado do que uma simples alusão... é como se a consciência de Henry tivesse produzido, sem necessariamente “saber” que estava fazendo isso, uma pequena peça de Shakespeare dentro do próprio sonho, e essa peça passasse a comentar a natureza desse sonho.
Vale a pena rever essa cena do ensaio, ou simplesmente buscar a transcrição do diálogo. Além de ser fácil de encontrar e ser bem curta, ela pode tornar a experiência do filme ainda mais interessante. E, para os muito curiosos, há outros trechos da peça que também dialogam fortemente com o que é desenvolvido em Stay, principalmente o monólogo existencial "Ser ou não ser, eis a questão"!
Bueno, espero que essa viagem toda também faça sentido para mais alguém. kkkkkkkk
entendi porra nenhuma, vai e volta no tempo
Esse filme me fez sentir um mal estar, parecido quando assisti o filme Amnésia
Achei bem lynchiano!