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Acho que existe uma espécie de arrogância na tentativa humana de organizar completamente a realidade, como se os acontecimentos fossem peças que pudéssemos simplesmente reposicionar até obter o resultado desejado. Há quem prefira explicar essa nossa tendência de uma maneira mais pragmática, lembrando que se trata de um comportamento amplamente documentado pela psicologia cognitiva: nosso cérebro procura identificar padrões, estabelecer relações de causalidade e atribuir previsibilidade aos acontecimentos. Vale ressaltar, porém, que a realidade frequentemente depende de contingências que escapam à nossa compreensão e ao nosso controle, assim como, comicamente, o plano do protagonista acaba lhe escapulindo. A ironia cruel é que esse mundão não parece particularmente interessado em colaborar. A vida pode ser absurdamente imprevisível.
Talvez o que mais tenha me agradado seja justamente a capacidade de transitar entre o cômico e o grotesco sem que essa combinação pareça forçada. Existe uma espontaneidade bastante particular na maneira como os personagens lidam com situações absurdas (aliás, quem reparou que há uma pessoa na fila do açougue carregando uma bolsa com a inscrição 'Vegan', em letras verdes? Kkkkk), como se tudo aquilo fosse perfeitamente corriqueiro. A escolha pelo stop motion também contribui para essa experiência, conferindo uma materialidade quase tátil àquele universo tão peculiar. É o tipo de curta que consegue divertir enquanto provoca certo desconforto, e eu gosto muito disso!
P.S.: Vocês perceberam como a naturalidade das conversas no açougue parece quase mais perturbadora do que a violência propriamente dita? Para mim, esse é um dos grandes trunfos do curta: o absurdo não é tratado como absurdo por quem está dentro dele.
Uma obra tão curta, mas tão significativa!
Gostei muito como o anime usou o misticismo e o horror para desmascarar algumas facetas da psicologia humana, e de quebra ainda emplacou algumas lições de moral. Acho que a mais evidente e que permeia todos os episódios é a inversão do conceito de "monstro". As criaturas do Conde D (personagem foda, o catalisador das tragédias, o juiz poético da arrogância humana), sejam elas sereias, medusas, coelhos ou quimeras, são seres puros que apenas seguem suas próprias naturezas e as regras do contrato, enquanto que o verdadeiro terror e a subsequente tragédia nascem sempre da falha moral, da fraqueza psicológica ou do egoísmo dos clientes. No final das contas, a loja do Conde D não vende animais perigosos; ela vende um espelho amplificado dos vícios humanos.
Cá entre nós, vocês repararam que todas as vítimas da loja compartilham um traço comum: a recusa em aceitar a dor da realidade?
• No Episódio 1, os pais não aceitam a morte da filha e tentam substituir o luto por uma ilusão.
• No Episódio 2, o cantor não aceita a perda da esposa e, ao confundir amor com culpa, busca o controle absoluto sobre uma cópia idealizada.
• No Episódio 3, o ator não aceita o declínio de sua fama e se isola em um casulo de vaidade.
• No Episódio 4, Kelly e a família Stanford não aceitam as limitações da pureza para alcançar o topo do mundo.
Para mim, o anime mostra com isso que viver na ilusão para evitar o sofrimento real inevitavelmente cria uma baita armadilha autodestrutiva. A dor não processada pode acabar por nos apodrecer e transformar-se no monstro que nos devora...
Já o contrato que o Conde D impõe diante da aquisição dos animais é uma metáfora perfeita para as escolhas da vida, não acham? Isto é, temos o livre-arbítrio para agir, mas não podemos escapar das consequências de nossos atos. O anime enfatiza que tudo tem um preço. Se você quer o amor perfeito (nos termos do anime), a juventude eterna, o controle sobre o outro ou o poder absoluto, você terá que pagar com a sua sanidade, com a sua liberdade ou com a sua própria alma. As regras do Conde D são simples, mas a humanidade sempre falha em segui-las porque o desejo, o egoísmo e a arrogância humana sabotam nossa disciplina.
No fim, acho possível enxergar Pet Shop of Horrors funcionando como uma grande crítica ao antropocentrismo — a ideia de que o ser humano é o centro do universo e pode domar a natureza, os sentimentos e o destino a seu bel-prazer. O Conde D permanece lá, misterioso e eterno, fechando suas cortinas de incenso, nos lembrando de que a natureza sempre se reequilibra e que o maior perigo para o homem sempre será ele mesmo.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
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