Eduardo Alvarez
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Últimas opiniões enviadas

Eduardo Alvarez
1 semana atrás

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

A cena do tiro na mão da Vicky, seguida imediatamente pelo marido dizendo que ainda não entendia o que o professor de línguas dela estava fazendo com uma arma, foi impagável, ri alto madrugada adentro KKKKKKKKKKKKKKK

¡Spoiler Alert! A maior parte do conteúdo abaixo contém spoilers.

Que filme delicioso! É um mergulho na natureza plural e mutante do amor, nas suas contradições e ímpetos, possibilidades e impossibilidades. O amor é irracional, maluco, absurdo. É fome, desejo, vertigem, transformação. Não tem fundo, forma definida ou manual de instruções. Agora, o que o amor não é? Aquela coisa colorida onde tudo se encaixa. O nome disso é Lego!

Diferentemente de muitos comentários que criticam a narração, acho que a leveza e a sutileza desta, leia-se o contraste entre essa voz aparentemente segura e aquilo que permanece irresolvido nos personagens, dão grande espaço para toda a subjetividade que se esconde nas entrelinhas. Alguns diálogos, inteligentíssimos e pontuais, funcionam como sorrateiras críticas ao choque de culturas apresentado pelo filme: de um lado, a liberalidade e a sofisticação intelectual e artística atribuídas ao velho continente, defendidas, através de suas atitudes, por Juan e María; do outro, o pragmatismo, o conservadorismo e a busca por segurança estadunidenses representados por Vicky e Doug. Mas o curioso é que o próprio filme parece desconfiar dessa oposição fácil. A liberdade de Juan e María não os torna mais felizes ou emocionalmente resolvidos. Ao contrário, também os condena a ciúmes, instabilidade e sofrimento. Talvez a crítica esteja menos em escolher um lado do que em expor os limites de qualquer modelo de vida que pretenda transformar desejo em fórmula.

No fundo, o filme está cheio de personagens incapazes de compreender completamente a si mesmos. Parece que cada indivíduo carrega em si algum tipo de ausência, não encontrando no outro uma peça que os complete, mas uma possibilidade de si mesmos que não conseguiam acessar sozinhos. Vicky descobre desejos que sua vida planejada não contemplava; Cristina continua procurando porque ainda não encontrou aquilo que deseja, embora saiba muito bem o que não quer; Juan e María, apesar de toda a aparente liberdade, também permanecem presos às próprias contradições. Por fim, creio que todos queiram encontrar uma narrativa coerente para suas vidas, mas o filme insiste em mostrar que as pessoas são muito menos coerentes do que as histórias que contam sobre si mesmas.

E Barcelona não poderia ser apenas o cenário disso tudo. O próprio título parece colocá-la como um terceiro vértice dessa equação. A cidade é apresentada quase como uma personagem: exuberante, sensual, artística, pulsante. Não tem desejos próprios, obviamente, mas possui uma presença, uma personalidade visual e uma capacidade de transformar quem entra em seu espaço. Seus pontos turísticos, a arquitetura de Gaudí e Miró, as ruas, restaurantes, galerias, praias e paisagens não funcionam somente como cartões-postais, mas ajudam a construir uma atmosfera em que os personagens parecem temporariamente suspensos de suas vidas habituais. Dessa maneira, vejo Barcelona como uma espécie de parêntese existencial, um espaço de possibilidades onde Vicky e Cristina podem experimentar versões de si mesmas que talvez não encontrassem em casa. É significativo, portanto, que o retorno delas para Nova York encerre esse parêntese: Vicky volta para a vida que havia planejado, Cristina continua procurando. Barcelona fica para trás, mas aquilo que aconteceu nela não.

Eduardo Alvarez
1 semana atrás

¡Spoiler Alert!

Henry Hamlet... Não, péra. Henry Letham. Agora sim. Assim como o personagem criado por Shakespeare, Henry vive um intenso conflito e, de certa maneira, parece lutar contra os próprios limites entre sanidade e loucura. Preso entre realidade e imaginação, vida e morte, ele habita um mundo em que já não é possível confiar inteiramente naquilo que se vê. E é justamente aí que a referência a Hamlet, presente tanto no anagrama de seu nome quanto no ensaio de Athena, se torna muito mais do que um detalhe decorativo: o filme parece encontrar no personagem de Shakespeare uma espécie de reflexo para o estado mental de Henry.

Athena aparece ensaiando uma passagem do Ato II, Cena II, em que Hamlet conversa com Rosencrantz sobre considerar a Dinamarca uma prisão, afirma que “não há nada bom ou mau, mas o pensamento o torna assim” e imagina que poderia estar “confinado numa casca de noz” e ainda assim se considerar rei de um espaço infinito, não fossem seus “maus sonhos”. É uma passagem curiosamente apropriada para Stay:

– Hamlet questiona a realidade a partir da percepção, enquanto Henry parece perder justamente a capacidade de separar uma coisa da outra. A Dinamarca não é objetivamente uma prisão; é a maneira como Hamlet a percebe que a transforma nisso. A mesma coisa pode ser mundo para um personagem e prisão para outro, isto é, a realidade externa permanece, mas sua significação é produzida pela consciência. E o final do filme ilustra essa ideia de forma bastante literal;

– Hamlet diz que poderia estar “confinado numa casca de noz” e, ainda assim, se considerar rei de um espaço infinito. Oras, esta é uma imagem bastante paradoxal: um espaço físico minúsculo pode conter uma experiência mental ilimitada. Henry está literalmente nessa situação. Acreditamos acompanhar uma narrativa espalhada por Nova York, hospitais, apartamentos, metrôs, universidades, restaurantes, bibliotecas e pontes. O mundo parece enorme, povoado por inúmeros personagens e acontecimentos. Retrospectivamente, porém, tudo isso acontece dentro de um espaço extremamente pequeno: os últimos instantes de Henry no local do acidente. Enquanto sua realidade física se reduz rapidamente, sua realidade mental se expande para compensá-la. É como se a metáfora de Shakespeare fosse transformada em mecanismo cinematográfico;

– E há uma ironia ainda mais profunda nos “maus sonhos”. Hamlet poderia dominar mentalmente um espaço infinito, não fosse o fato de que seus próprios sonhos interferem nessa experiência. O filme inteiro funciona como uma espécie de sonho ruim de Henry, mas não um sonho arbitrário: um sonho contaminado por aquilo que ele sente, lembra e percebe naquele momento. A investigação de Sam, a mãe de Henry, Athena, Tristan Rêveur (rêveur significa “sonhador” em francês), a tentativa de suicídio, os personagens repetidos e os espaços e transições impossíveis são maneiras pelas quais sua consciência reorganiza os elementos disponíveis. A fala de Hamlet, portanto, não está apenas tematizando o sonho; ela coloca em jogo uma questão que o longa transforma em sua própria estrutura: se a consciência é capaz de construir mundos, como podemos ter certeza de que o mundo que experimentamos não é também uma construção dela?

Daí a importância de Athena estar ensaiando essa passagem. Ela não está simplesmente recitando Shakespeare enquanto o filme desenvolve outra história. Stay coloca as palavras de Hamlet dentro da própria realidade imaginada por Henry. E há algo quase circular nisso: Henry cria um mundo no qual Athena interpreta Hamlet - ela posteriormente afirma ser Ophelia, mas na prática o interpreta -; e Hamlet, através de Athena, parece fornecer as palavras para descrever o mundo que Henry criou.

E talvez seja precisamente aí que a referência deixe de funcionar apenas como uma chave de leitura e passe a fazer parte da própria lógica do filme. Hamlet não está simplesmente dentro do mundo imaginado por Henry; as palavras de Hamlet parecem ajudar a explicar esse mundo por dentro. É muito mais sofisticado do que uma simples alusão... é como se a consciência de Henry tivesse produzido, sem necessariamente “saber” que estava fazendo isso, uma pequena peça de Shakespeare dentro do próprio sonho, e essa peça passasse a comentar a natureza desse sonho.

Vale a pena rever essa cena do ensaio, ou simplesmente buscar a transcrição do diálogo. Além de ser fácil de encontrar e ser bem curta, ela pode tornar a experiência do filme ainda mais interessante. E, para os muito curiosos, há outros trechos da peça que também dialogam fortemente com o que é desenvolvido em Stay, principalmente o monólogo existencial "Ser ou não ser, eis a questão"!

Bueno, espero que essa viagem toda também faça sentido para mais alguém. kkkkkkkk

Eduardo Alvarez
2 semanas atrás

Theodore: What are you doing?
Samantha: I'm just looking at the world. And writing a new piano piece.
Theodore: Oh yeah, can I hear it?
Samantha: Mm hm.

E então começa “Photograph”, do Arcade Fire com Owen Pallett.

A música parece existir naquele instante em que uma coisa deixa de ser presença e começa a se transformar em lembrança. Parece feita de coisas que não conseguem permanecer: luz sobre uma janela, uma voz que se distancia, um rosto que o tempo lentamente desfaz.

Descobri que eu amo piano. Um dos meus filmes favoritos!

editado
  • Filmow 4 dias atrás

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    Bons filmes!
    Equipe Filmow