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A partir do poderoso testemunho do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa, o filme “A Queda do Céu” acompanha o importante ritual fúnebre, Reahu, que mobiliza a comunidade de Watorikɨ num esforço coletivo para segurar o céu. O filme faz uma contundente crítica xamânica sobre aqueles chamados por Davi de povo da mercadoria, assim como sobre o garimpo ilegal e a mistura mortal de epidemias trazidas por forasteiros que os Yanomami chamam de epidemias “xawara”, e traz em primeiro plano a beleza da cosmologia Yanomami, dos espíritos xapiri e sua força geopolítica que nos convida a sonhar longe.
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É um cinema-manifesto. Necessário, urgente e visualmente avassalador. Ele transforma a teoria do livro em uma experiência que você sente no corpo.
Virou cinema o livro ‘A queda do céu: Palavra de um xamã yanomami’, obra fundamental do antropólogo francês Bruce Albert que o escreveu a partir das falas do xamã yanomami Davi Kopenawa – lançado em 2010, a obra literária reúne histórias em torno daquele povo indígena da Amazônia, incluindo rituais e formas de lidar com o mundo e a natureza. Quem ficou responsável em traduzir as palavras do livro para imagens foi o filho de Glauber Rocha, o documentarista Eryk Rocha, que já realizou docs importantes, e aqui o fez ao lado da cineasta Gabriela Carneiro da Cunha – eles escreveram o roteiro baseado no livro e dirigiram. O filme entrou nos cinemas após exibição na COP30 e ter passado em festivais de 2024, como na Quinzena dos Realizadores em Cannes, impulsionando a pauta indígena, com foco nos yanomamis que por pouco não foram exterminados nas duas últimas décadas – a terra deles, compreendida na Amazônia entre Brasil e Venezuela, é alvo contínuo de disputas territoriais, invasão por garimpeiros e madeireiros, epidemias, e há poucos anos, com vista grossa de autoridades políticas, começou ali um genocídio. O filme já impacta pela abertura, de 15 minutos, com uma câmera estática esperando a passagem de um grupo de yanomamis pela tela – eles falam baixinho em um ritual, cruzando um enorme trecho a céu aberto, os vemos lá no fundo, pequeninos, até se aproximarem da tela. Com poucos diálogos, quase que todo na língua yanomami, o filme é conduzido pelo xamã e líder daquele grupo, Davi Kopenawa, um dos nomes mais importantes da causa indígena do Brasil. Ele e a comunidade da aldeia Watorikɨ celebram rituais como o Reahu – a passagem de um ente falecido, pintam o corpo de preto e vermelho e grudam penas de aves na cabeça. As longas cenas mostrando detalhes da prática são didáticas e apreciativas, com uma coloração da imagem incrivelmente bela e uma série de enquadramentos caprichados. Pouco se viu sobre os yanomamis por dentro da comunidade, e o filme se presta a acompanhar vários dias pelo ponto de vista dos integrantes daquele povo, que hoje somam 28 mil espalhados pela Terra Indígena Yanomami (TIY), segundo dados do IBGE de 2022. O filme é um convite para refletirmos a questão indígena e vermos com detalhes uma cultura tão rica e que vem sendo exterminada. O longa teve recepção calorosa em mais de 80 festivais nacionais e internacionais, recebendo prêmios no DOC NYC e no Festival do Rio. Montagem, direção de arte, fotografia e som são pontos impecáveis desse filme etnográfico de temática urgente. Coprodução Brasil-Itália da Aruac Filmes, Hutukara Associação Yanomami e Stemal Entertainment com Rai Cinema, com produção associada francesa de Les Films d'ici. Distribuição nos cinemas do Brasil pela Gullane+. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
- sou apaixonado por documentários sobre nosso povo indígena
- a cena do velho falando verdades dos vários males causados pelo homem branco ao seu povo e desconfiando até dos responsáveis pelo documentário é excelente!
- interessante notar quais palavras não existem na lingua deles e eles tem que falar em português, é de arrepiar. em um sentido bem triste
- lindo de ver como a cultura do povo ainda perdura e é passada adiante, eles ainda seguram o céu, mesmo com toda maldade, destruição e morte que o homem branco causou a eles
Demorei a me acostumar com o estilo poético muito próprio do Eryk Rocha e, aqui, ele atinge um píncaro estético-discursivo mui aplaudível e imersivo, tanto pela colaboração com a Gabriela Carneiro da Cunha, quanto pelo extremo respeito ao livro homônimo. Davi Kopenawa é conduzido à função de porta-voz das histórias de seu povo e, num instante primoroso, um ancião desconfia das intenções dos realizadores, perguntando se devia confiar neles e compartilhar as suas memorias. Felizmente, ele o faz, o que é magistralmente aproveitado e convertido em fascinantes imagens e sons: o desenho de som e a fotografia deste filme são magistrais. Idem para o modo como trechos de filmes de Humberto Mauro e Artavazd Pelechian ajudam a confirmar as teses apocalípticas dos yanomâmis, caso o "povo das mercadorias" insista em destruir florestas e espaços naturais, na ganância típica dos garimpeiros. Queria ter visto este filme na tela grande do cinema, deve ser uma experiência singular: adorei o que senti durante a sessão! (WPC>)