O assassinato de um policial durante uma abordagem rotineira de trânsito provoca grande comoção pública na cidade de Dallas, Texas, em 1976. Mais de uma década depois Randall Adams, condenado pelo crime, aguarda sua execução em uma penitenciária estadual. Alternando depoimentos dos envolvidos no caso e reconstituições, Errol Morris apresenta uma investigação absorvente e imprevisível com uma conclusão surpreendente e controversa.
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Pensa em um documentário raro. Estamos diante de um dos grandes documentários jornalísticos da história. Documentário que de tão bem pesquisado e feito, libertou no final das contas um homem inocente que estava no corredor da morte e preso por mais de 10 anos. Errol Morris aqui, fez uma obra de arte de pesquisa, roteiro e direção. Documentário seminal.
- aqueles policias porcos nojentos, só pela entrevistas deles eu já tive certeza que não prestavam e tavam mentindo sobre o caso
- a cabeça do povo, não queria incriminar o jovem que tava na cara que era culpado pra ele não passar a vida na cadeia, mas tudo bem condenar um cara 10 anos mais velho a pena de morte mesmo sendo inocente
- juiz e promotor são outra dupla de bandidos, tinham que condenar alguém, não importa quem fosse, não estavam nem ai se fosse o verdadeiro culpado
- nem sentido tem isso de não poder recorrer porque mudou a pena de morte para prisão perpetua
- bom saber que o documentário ajudou a soltar o cara inocente, mesmo que mais de uma década depois
Toda história precisa de um vilão. Quando um policial é assassinado no Texas, em 1976, a justiça não quer apenas resolver o caso — ela quer um culpado. Randall Adams, um forasteiro sem raízes na cidade, era perfeito para o papel. Pena que ele não cometeu o crime. Mas, no tribunal, a verdade era um detalhe inconveniente. The Thin Blue Line (1988), de Errol Morris, não é só um documentário sobre um erro judiciário — é uma investigação, uma denúncia e um exercício de cinema puro, que desmonta um teatro processual onde a condenação já estava escrita antes mesmo do julgamento começar.
A narrativa parece saída de um filme noir, e talvez seja esse o maior golpe do destino: se tudo fosse apenas ficção, seria uma obra-prima do suspense. O jovem David Harris, com seu histórico de crimes e violência, cruza o caminho de Adams, e quando um policial é morto, a cidade clama por justiça rápida. Harris, menor de idade e protegido da pena de morte, faz o que lhe convém: dá à polícia exatamente o que ela quer ouvir. Randall Adams se torna o alvo perfeito. E assim, um assassinato se transforma em espetáculo.
Morris não apenas conta essa história, ele a revive. E faz isso com um brilhantismo formal que transcende o gênero documental. As reconstituições são hipnotizantes: a luz fria dos faróis cortando a escuridão, as sirenes com aquele vermelho vívido, o revólver disparando em câmera lenta, o relógio oscilando em uma sessão de hipnose. Cada cena se repete, com pequenas variações, como memórias reconstruídas sob novas perspectivas. O detalhe do carro — qual era a marca? — vira uma obsessão visual que captura o modo como a verdade se fragmenta no depoimento das testemunhas. Não é só reconstituição. É cinema em sua forma mais envolvente, nos tornando detetives.
E então vêm as testemunhas. E que testemunhas! Elas surgem na tela como personagens de um romance satírico, cada uma mais peculiar que a outra. O policial da cidade de David Harris, que poderia ser o último homem honesto da América. O casal que lembra aqueles pares improváveis de comédias antigas — ela, que sempre sonhou em ser investigadora de filmes noir; ele, resmungando sobre como ela é “fogo”, os dois unidos pelo prazer de mentir. O homem no outro carro, que traía a esposa, mas tem certeza absoluta do que viu porque “sempre trabalhou com vendas”. E, no topo da cadeia alimentar, o juiz, que inicia seu depoimento não com fatos, mas com uma declaração apaixonada sobre sua devoção à polícia. Cada um fala com convicção inabalável, como se as palavras não tivessem peso, e talvez não tenham mesmo — num tribunal onde a verdade é negociável, a retórica vale mais que os fatos. A liberdade com que inventam, exageram e distorcem não é um problema, e sim um recurso. O perjúrio não só é incentivado, como também se torna espetáculo.
Mas nenhuma figura é tão assombrosa quanto o psiquiatra, O Doutor da Morte, responsável por decidir se Adams deveria morrer. Ele o entrevista por meros minutos, faz perguntas vagas, pede desenhos. E então escreve seu relatório, no qual descreve Adams como um monstro sem redenção, alguém que, se libertado, certamente voltaria a matar. É um estudo de caráter? Não. É um formulário pré-preenchido para justificar a pena capital. E Adams se lembra de cada palavra. Cada sentença. Porque quando sua vida depende de uma mentira, você nunca esquece. A sentença de morte chega, e Adams relembra os guardas descrevendo, em detalhes mórbidos, como seu corpo reagiria à execução. O sistema não apenas pune — ele se deleita na punição.
Ao fim, a balança da justiça é lembrada duas vezes no filme. Uma como símbolo do que deveria ser — a imparcialidade, o equilíbrio. Outra, como o que realmente é: uma deusa cega que não pesa fatos, apenas interesses. E a pergunta mais inquietante persiste: quantas outras histórias como essa continuam invisíveis, protegidas por essa linha tênue entre a justiça e a farsa?
Muito legal saber que o cara foi libertado graças ao documentário, muito legal o diretor não ter sido imparcial, ter feito um trabalho sério, e a forma como ele impõem suas conclusões na montagem é muito bem feito. Dito isso:
Durante toda a duração do longa, eu tava 100% nem ai pra esse crime. Passei o filme inteiro pensando "como alguém achou que essa história é minimamente interessante a ponto de render um documentário? Será possivel que estadunidense tem TANTA autoestima quanto as próprias histórias? Eu preferia estar assitindo um documentário iraniano sobre criação de cabras do que isso. Eu não to nem ai pra quem matou esse policial."
Sei que não faz sentido comparar, mas já comparando já que são duas obras que influenciaram o julgamento do crime que retratam: nosso br "O caso evandro" dá de 10 a zero nessa chatice.
As vezes me pego aqui pensando, o que seria da vida de tantas pessoas se não houvesse o jornalismo investigativo, o que seria desse caso se um diretor não resolvesse mexer nisso depois de tanto tempo? Os promotores americanos sem dúvidas representam seu povo. Nota 8,0.