Curta-metragem incompleto do diretor geórgio, em que as obsessões inocográficas que marcarão seu longa-metragem posterior (A COR DA ROMÃ - 1968) são antecipadas através das obras de arte de um museu ucraniano, que ganham vida na calada da madrugada, num misto de música e sensualidade que reconvocam uma postura crítica do espectador frente às concepções datas de apreensão artística.
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Crítica | Afrescos de Kiev
Paradjanov montou esta “colagem de filme” a partir das cópias e testes que permaneceram intactos depois que as autoridades soviéticas interromperam a produção de Afrescos de Kiev e ordenaram a destruição do negativo.
O que sobrou de um longa-metragem sobre a História da capital ucraniana.
Em 1966, Sergei Paradjanov, em meio a uma revolução artística pessoal, presenteou o mundo com Afrescos de Kiev, pisoteando as limitações político-ideológicas de sua sociedade para criar um interessantíssimo espetáculo visual que, infelizmente, não temos por completo. Concebido como um teste de estilo, na linha de mudanças que ele já tinha apresentado dois anos antes, em Sombras dos Ancestrais Esquecidos, e que foi finalmente aplicado em plenitude no seu longa-metragem seguinte, A Cor da Romã, Afrescos de Kiev é marcado por uma beleza melancólica e enigmática, um testemunho da genialidade (aqui censurada) de Paradjanov, e o prenúncio de um futuro muito problemático com as autoridades de seu país.
Originalmente concebido como um longa-metragem, o filme foi interrompido pelos produtores do Goskino, o Comitê Estatal de Cinematografia responsável pela produção da Sétima Arte na URSS, que via com crescente apreensão a mudança estilística de Paradjanov. A estética singular do diretor, que se afastava do realismo soviético em favor de uma linguagem visual mais poética e experimental, era interpretada como potencialmente subversiva, talvez “pequeno burguesa”, uma quebra com a ortodoxia artística da União Soviética, que tinha, em seu próprio realismo, o alinhamento padrão para os filmes produzidos no país. A questão é que este modelo não funcionava para obras tão imensamente simbólicas como as que o artesão armênio ansiava produzir.
Do filme, resta apenas esta colagem de 14 minutos, feita com o que sobrou dos negativos destruídos. Vemos desenrolar, segundo a concepção do diretor, a enigmática História da capital ucraniana. Mesmo incompleto, o filme é um triunfo do espírito criativo, com imagens que evocam a guerra, a música, a pintura, a rotina cansativa dos cidadãos de Kiev, a libido e os incômodos psicológicos que afetam a cada um. O diretor transforma fragmentos do passado em uma tapeçaria visual rica de significado e beleza, um mundo onírico onde o ontem e o hoje se fundem numa dança hipnótica.
É precisamente essa natureza fragmentada, a sensação de um potencial não realizado, que confere ao filme a citada aura de melancolia. As imagens, como memórias desfragmentadas, evocam a gloriosa cidade representada de maneira cifrada, um sonho que prende o espectador ao que está passando na tela, desfilando imagens belíssimas, fotografadas com disposição inimaginável dos objetos pelo cenário, sem ter a necessidade de diálogos ou explicações para o que está acontecendo. O uso de músicas não tradicionais também chamam a atenção, marcando uma das muitas diferenças com A Cor da Romã, além da abordagem visualmente mais contemporânea.
Dado o seu contexto de produção, Afrescos de Kiev transcende sua condição de simples filme. Através dele, contemplamos a força da arte em face à adversidade e o impacto da censura sobre a liberdade criativa. A história de sua criação, marcada pela destruição parcial e pela sombra daquilo que poderia ter sido, amplia seu significado e nos faz imaginar a obra completa, concebida por Paradjanov. Cada imagem se torna um fragmento de um sonho interrompido, um apelo à reflexão sobre o preço da liberdade artística e sobre a quebra dos padrões estabelecidos por uma sociedade.
Afrescos de Kiev (Киевские фрески / Kiyevskiye freski / Kyiv Frescoes) — URSS, 1966
Direção: Sergei Paradjanov
Roteiro: Sergei Paradjanov, Pavlo Zagrebelny
Elenco: Tengiz Archvadze, Antonina Leftiy, Vija Artmane, Afanasi Kochetkov, Igor Tamrazov
Duração: 14 min.
FATO HISTÓRICO:
No dia de hoje (29/01), do ano de 1918, durante a Guerra Ucraniano-Soviética, um pequeno destacamento de estudantes militares ucranianos enfrentou o avanço do Exército Vermelho bolchevique na estação ferroviária de Kruty, ao nordeste de Kiev.
Mal treinados, em número reduzido e diante de forças muito superiores, esses jovens tentaram atrasar o cerco à capital. Militarmente, foi uma derrota. Historicamente, tornou-se um símbolo de resistência nacional, sacrifício e identidade ucraniana diante de um invasor mais poderoso.
Uma curiosidade marcante: muitos dos defensores de Kruty eram estudantes universitários e secundaristas, alguns com menos de 18 anos.
Após a batalha, parte deles foi capturada e executada. Quando seus corpos foram posteriormente recuperados e enterrados em Kiev, o funeral transformou-se em um ato público de afirmação nacional, algo raro em meio ao caos revolucionário do Leste Europeu em 1918.
O confronto ocorreu no colapso do Império Russo, após a Revolução de 1917.
A Ucrânia havia proclamado a República Popular Ucraniana, buscando independência, enquanto os bolcheviques viam o território como estratégico, política, econômica e simbolicamente, para a expansão da revolução socialista. Kiev era o principal objetivo.
Para o Exército Vermelho, a ofensiva rumo a Kiev tinha objetivos claros:
• derrubar o governo ucraniano recém-formado;
• garantir controle sobre ferrovias e centros industriais;
• impedir que a Ucrânia se consolidasse como Estado independente.
Kruty foi apenas um obstáculo no caminho, mas revelou que haveria resistência.
Do lado ucraniano, cerca de 300 a 400 defensores, incluindo cadetes militares, estudantes e voluntários, enfrentaram uma força bolchevique várias vezes maior.
Embora pouco experientes, conseguiram atrasar o avanço inimigo por tempo suficiente para que o governo ucraniano reorganizasse sua defesa e negociações diplomáticas.
Militarmente, Kiev acabaria caindo pouco depois.
Politicamente, porém, o atraso proporcionado por Kruty ajudou a Ucrânia a assinar o Tratado de Brest-Litovsk, obtendo reconhecimento internacional temporário. Assim, o sacrifício dos estudantes teve impacto real no tabuleiro diplomático.
Durante o período soviético, a Batalha de Kruty foi apagada da historiografia oficial.
O episódio contrariava a narrativa de “libertação proletária” e expunha o uso da força contra movimentos nacionais. Só após a independência da Ucrânia, em 1991, Kruty voltou a ser amplamente lembrado e estudado.
Kruty tornou-se um mito fundador moderno da Ucrânia, não pela vitória, mas pela escolha de resistir.
O episódio passou a simbolizar a defesa da soberania, a juventude sacrificada e a luta desigual contra um poder imperialista, elementos recorrentes na história do país.
Os ecos de Kruty ressoam no século XXI.
A ideia de um Estado menor enfrentando um vizinho mais poderoso, a mobilização civil, o papel simbólico da juventude e a disputa por identidade nacional continuam atuais.
Kruty lembra que, em guerras, nem toda derrota é um fracasso histórico, algumas moldam a
memória, a identidade e o futuro de uma nação.
Interessante observar que: O conflito atual não começa em 1918, mas 1918 marca o início de
um padrão: a tentativa recorrente de subordinar ou dissolver a identidade ucraniana dentro de um projeto maior vindo de Moscou.
Em outras palavras:
não é a mesma guerra, mas é a mesma ferida histórica que jamais cicatrizou.
É interessante que mesmo sendo um filme incompleto consegue sugerir muitas coisas a nossa cabeça, principalmente devido à época de sua feitura, onde mostrar um ícone religioso não deveria ser muito bem visto aos olhos dos sensores, ainda mais num filme que carece de qualquer coerência lógica e racional, não era um filme militante, e nestes aspectos podemos ver o porquê de sua obra ser realmente censurada. Há diversas cenas que remetem ao seu A Cor da Romã.
É um encantamento ver as cenas deste curta, e do pouco que vi (e estou caçando) a obra de Paradajov, ele integra seu cinema com um diálogo entre a cultura de seu país; o passado religioso do país, a música, os trovadores, etc. É interessante essa tentativa, pois não era universalizante, era o oposto, era regionalizante, e mais um demonstrativo de que sua arte evocava tudo aquilo que os censores pediam para poder censurá-la.
Definitivamente o melhor adjetivo que este filme poderia receber é 'pomposo'... Desolador assistir algo tão surpreendente sabendo que são os únicos restos sobreviventes de algo que seria uma obra-prima, já que é o resultado de uma colagem de fragmentos de filmes de Parajanov que foram exigidos para serem destruídos pelo governo soviético. Poderia ser tão bom quanto Sayat Nova. Tal contexto, juntamente aos magníficos objetos museológicos, acabam atribuindo um teor fantasmagórico e etéreo na estética ostentada.
mmeu irmao
Excelente curta. Uma experimentação visual, um teste que desemborcará na sua obra maestra A cor da Romã. As imagens em tons de preto e branco colocam o espectador numa espécie de transe, inicialmente tentando buscar um sentido para posteriormente apenas se deixar levar pelo enlevo estético do que é visto e ouvido.
Nota 4/5