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Data de lançamento
23 Set. 2011Duração
Rhoda Williams, uma mulher jovem e brilhante recentemente aceita no programa de astrofísica do MIT, pretende explorar o cosmos. John Burroughs, um compositor brilhante, acaba de atingir o auge de sua profissão, e está prestes a ter um segundo filho com sua esposa amorosa. Na véspera da descoberta de um novo planeta no espaço, aparentemente escondido atrás do sol (um segundo planeta Terra), a tragédia, e as vidas desses estranhos tornam-se irremediavelmente entrelaçadas. Distante do mundo e os seres que eles conheciam, os dois jovens começam um caso de amor improvável, que vai despertá-los para a vida. Mas quando um deles é apresentado com a oportunidade de viajar para a Terra, outros abraçam uma realidade alternativa. Que vida nova eles vão escolher?
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⚠️ Alerta de Spoiler: Se você não viu o filme, volte depois. 🎬🍿
Se você fizesse algo terrível na vida, algo que destruísse o mundo de outras pessoas, e tivesse a oportunidade de começar novamente em outro mundo, você estaria realmente começando uma nova vida — ou apenas levando você mesmo para outro lugar?
"A Outra Terra", de Mike Cahill, usa a ficção científica como pano de fundo para contar uma história profundamente humana sobre culpa, responsabilidade, arrependimento e perdão. A descoberta de uma segunda Terra, idêntica à nossa, escolhe o caminho da metáfora: o planeta espelho é a fantasia de uma segunda chance. Mas não basta mudar de mundo; você continua sendo você.
A tragédia da jovem Rhoda é dolorosa por ser involuntária, mas real. Ao tentar reparar o erro sem revelar sua identidade para John — o homem cuja família ela destruiu —, Rhoda comete um "segundo atropelamento", desta vez invadindo emocionalmente a vida dele. Ela quer reparar sem confessar, ser perdoada sem conseguir se perdoar, criando uma nova ilusão para fugir da própria existência.
Brit Marling interpreta essa dor com uma contenção impressionante. A dor aparece no olhar, na voz baixa e nos silêncios, tornando a culpa ainda mais pesada. É nisso que o longa se assemelha a "Melancolia", de Lars von Trier: nos dois filmes, um acontecimento cósmico monumental serve apenas de palco para revelar o drama interior e devastador dos personagens.
O final é de uma beleza poética. O encontro com a outra Rhoda não precisa de explicações científicas; é a imagem comovente de uma versão de si mesma atravessando o impossível para encontrar outra que está sofrendo, representando o perdão que ela não consegue se oferecer.
A pergunta perturbadora que fica é simples: existe uma segunda chance sem enfrentarmos as consequências da primeira vida? É muito fácil imaginar uma nova realidade onde tudo deu certo. Difícil é permanecer na realidade em que erramos e aprender a viver nela. A maior viagem do filme não é aquela que leva alguém para outra Terra, mas a que leva uma pessoa a finalmente conseguir olhar para si mesma.
Another Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
ai, esse me deixou muito pensativo, muito triste pensar que podemos nos odiar tanto por coisas ruins que podemos fazer, mas gosto da mensagem, gosto de como termina
sendo quase um recomeço, fiquei dias pensando sobre, oq ela poderia dizer para si mesma, oq poderia ter acontecido lá, sem contar que