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Data de lançamento
15 Ago. 2019Duração
No Chile, na década de 1970, Inés, Justo e Gerardo pertenciam a um violento grupo nacionalista que pretendia derrubar o governo de Salvador Allende. Em meio ao fervor desse conflito, eles se envolvem em um apaixonado triângulo amoroso e cometem um crime político que os separa para sempre. Quarenta anos depois, Gerardo surge inspirado não apenas pela vingança, mas também pela obsessão de reviver a causa nacionalista.
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Thriller político com problemas de divulgação e um elenco bem selecionado.
Co-produção do Chile, Argentina e Brasil da Bossa Nova Films, Magma Cine, Wood Producciones, Cinetren e Searchlight Pictures indicado a melhor filme ibero-americano no
Grande Prêmio Cinema Brasil, além de ter participado de outros festivais internacionais de cinema pelo mundo. O diretor/produtor/roteirista chileno Andrés Wood é o mesmo de Machuca (04) e Violeta foi para o céu (11), dentre outros.
A jovem Inês e o jovem Gerardo comem leite condensado muito à semelhança da icónica cena de "Machuca" também dirigida por Andrés Wood. Quando Gerardo se envolve na batida do carro, pode-se ver uma pichação coberta que diz "Mateluna libre". Ariel Mateluna trabalhou anteriormente com Andres Wood em "Machuca". Com a maioria do elenco composto por artistas chilenos e argentinos, Caio Blat é o único brasileiro no elenco que até fala espanhol.
Este drama de suspense político aborda personagens que incomodam com uma frieza meticulosa e se interessa por seus personagens como pretexto para diagnosticar a podridão moral de um presente. Ousado em alguns aspectos e antiquado em outros. Com um elenco impecável, o filme não deixa ao espectador um momento de trégua. Um filme corajoso, arriscado e inteligente, mesmo que com uma narrativa em boa parte lenta, mas com algumas cenas fortes e chocantes. Fala sobre os destinos divergentes de uma gangue de radicais de direita no Chile pré-golpe do início dos anos 70 é tão humana quanto política em suas preocupações.
Bertolt Brecht já nos alertou há muito tempo que a cadela do fascismo está sempre no cio, e esse é o tema executado magistralmente pelo diretor Andrés Wood - dos igualmente maravilhosos “Machuca” e “Violeta foi para o céu” – em seu mais recente trabalho, “Aranha”, de 2019.
Esse filme Chileno consegue ir além do senso comum moralista que costuma permear o tratamento dado ao assunto da extrema-direita em produções cinematográficas. Aqui, conseguimos acompanhar e compreender o papel desses grupos para as elites econômicas e sociais; seu apelo de massas, em especial para com a juventude; seu teor nacionalista extremista (ou seria melhor dizer chauvinista!); seu preconceito; violência e seu caráter de guerra (civil) constante contra os inimigos: marxistas/comunistas/esquerda, negros, imigrantes, comunidade LGBTQI+, etc... todos aqueles que desviam do “padrão” nada latinoamericano. Ou, como se diz no Brasil atual, todos que não são “cidadãos de bem”.
Outro aspecto de destaque da obra é a forma como explica organicamente a relação dos grupos fascistas do passado com os atuais, e a relação estreita desses grupos com as elites nacionais ontem e hoje, mesmo que essas elites aparentemente estejam de “mãos limpas”.
Mas Aranha, a despeito de todos esses predicados, não é um documentário, narra a história ficcional de um jovem casal rico, Inês e Justo, e sua relação com outro jovem, Gerardo, que eles arregimentam para o grupo Pátria e Liberdade (espécie de Comando de Caça aos Comunistas chileno, que tem uma Aranha como símbolo).
Nós vamos acompanhando esses personagens alternadamente na atualidade e nos anos que precederam o golpe militar que destituiu e assassinou Salvador Allende. Inês é forte, perspicaz e audaciosa; Justo, um playboy de muita lábia e pouca efetividade; e Gerardo um rapaz pobre, ex-militar, forte e corajoso, que rapidamente se vê atraído pelas ideias fascistas e por Inês.
Além do roteiro que consegue conciliar tudo isso em uma história envolvente e dinâmica, a direção ágil de Andrés Wood é inteligente o suficiente para focar na história pessoal dos três e, a partir dela, apresentar a extrema-direita fascista como um todo: O rico defendendo seus interesses de classe de forma extremada, mas precisando terceirizar as tarefas mais difíceis; a jovem apaixonada querendo viver intensamente, contudo “não é das que se divorciam”; e o rapaz pobre, forte e corajoso, sem perspectiva de vida, que encontra um grupo ao qual pertencer, ideais para lutar e relações pessoais para si.
As escolhas e o resultado da relação dos três diz muito sobre o papel que a extrema-direita cumpre, seja abertamente, numa juventude organizada e extremista, ou por debaixo dos panos finos das mansões, nas relações de adultos/idosos respeitáveis e ilustres. Ademais, tratar os grupos (neo)fascistas como monstros desumanos, além de estar longe da verdade – por mais que sejam asquerosos e não devam ser tolerados! -, dificulta a compreensão desse fenômeno, que é demasiadamente humano e volta a aparecer em nossos dias, mas nunca deixou de existir de fato. Como diz a lápide do Comandante de A colônia Penal, de Kafka:
“Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, cujos nomes por hora devem permanecer secretos, dedicaram-lhe esta pedra tumular. Dentro de alguns anos, quando seus adeptos forem mais numerosos, ele voltará a se erguer e conquistará a colônia. tende fé e esperai”
Não esperemos!
Uma trama intrigante e com momentos fortes, eu gostei.
‘Aranha’ retrata organização terrorista de direita antes do Golpe de 1973 no Chile.
Dirigido por Andrés Wood, ‘Aranha’ fica entre a realidade e a ficção ao contar a história de um triângulo amoroso dentro do grupo Pátria e Liberdade.
Entre a realidade e a ficção, Aranha, filme do cineasta chileno Andrés Wood, em cartaz nos cinemas brasileiros, incomoda muito. E não apenas porque desenterra fantasmas do passado, mas porque também coloca o dedo em uma ferida mais do que aberta: a ascensão da extrema direita em alguns países do mundo, entre eles, o Brasil.
Wood, diretor do ótimo Machuca, que pode ser visto na streaming, abre a narrativa de Aranha com uma sequência perturbadora. Nas ruas de Santiago, capital do Chile, um rapaz rouba a bolsa de uma mulher e sai correndo. É perseguido de carro por um homem, na casa dos 60, 70 anos, que o encurrala em um beco, onde o ladrão é esmagado contra a parede. Enquanto a polícia prende o motorista, boa parte do público o aplaude como se fosse um herói. Sinal dos tempos.
A partir desse momento, aos poucos vamos descobrindo quem é esse justiceiro por meio de duas narrativas paralelas, uma no presente e outra no início dos anos 1970. Durante o governo de esquerda do presidente Salvador Allende, deposto e morto em 1973, uma organização terrorista de extrema direita, formada em grande parte pelos jovens filhos de famílias abastadas e conservadores, comete atos de violência contra militantes de esquerda. Não se conformam com o fato de o país estar nas mãos de socialistas.
O grupo se chama Pátria e Liberdade, mas também é conhecido como Aranha, por conta do símbolo que o representa. Defende valores nacionalistas, contra o globalismo, e teme que o Chile sucumba de vez ao comunismo e se torne uma nova Cuba. Para que isso não aconteça, adotam estratégias radicais.
A trama, que embora tenha pano de fundo histórico, é ficcional e gira em torno de um triângulo amoroso, formado por integrantes da Aranha. O jovem casal Ines (Maria Valverde), uma estudante de História, e Justo (Gabriel Urzúa), ambos da elite chilena, se encanta pelo ex-soldado da Aeronáutica Gerardo (Pedro Fontaine), rapaz da classe trabalhadora, também de direita, absorvido e usado pela Pátria e Liberdade, que tem como líder Antonio, vivido pelo brasileiro Caio Blat, dublado em espanhol.
Descobrimos que Gerardo, agora vivido por Marcelo Alonso, é o atropelador da sequência inicial, encaminhado a um manicômio judicial por influência de Ines (a argentina Marcedes Morán, de O Pântano), agora colunista de um grande jornal conservador. Ela não deseja, de forma alguma, ver seu passado obscuro vindo à tona, desenterrado pelas páginas policiais.
Um dos aspectos mais instigantes de Aranha é que se trata de uma trama sem protagonistas, sem heróis. Todos os personagens centrais são odiosos, cada um à sua maneira. Ines é uma mulher manipuladora, beirando o sadismo. Justo, por sua vez, é hoje um homem fraco, alcoólatra, corroído pelo fato de a mulher nunca tê-lo amado de verdade. Gerardo envelheceu como um fascista radical, violento e com traços de psicopatia. O pior de tudo? Nenhum se arrepende de ter feito parte da Aranha, que, na cabeça deles, teria salvado o Chile do marxismo.
Essa impossibilidade de escolha de termos, como espectadores, alguém por quem torcer, e de o discurso classista, xenófobo e racista da organização, e dos personagens, soar familiar demais para nós, brasileiros, torna a experiência de assistir a Aranha desagradável, inquietante.
Wood faz a corajosa, e talvez arriscada demais, opção de borrar as fronteiras entre História e ficção, emprestando ao longa, que disputou uma vaga na categoria de melhor filme internacional no Oscar 2020, um tom por vezes novelesco, melodramático. Isso, talvez, banalize e desperdice, por vezes, tema tão sério, grave. Ainda assim, Aranha, por conta do ótimo elenco e da direção tensa do cineasta chileno, merece ser visto. Torna-se uma fábula cautelar em tempos de radicalismo.