Homem vai a procura de emprego em uma mineradora acompanhado de seu filho mudo. No caminho é brutalmente assassinado, sendo seu filho a única testemunha.
Não foi o meu preferido, e acho que está longe da magnitude das obras de Hiroshi Teshigahara, apesar de alguns momentos cômicos. O trabalho de trilha sonora, ao menos, é impecável.
Seguindo uma tradição do cinema japonês da época, Otoshiana busca colocar na tela os horrores a que a população era submetida em um Japão ainda machucado pelas guerras e com um histórico de autoritarismo no qual os pobres acabam, de um jeito ou de outro, sendo escravizados.
No fundo, em um contexto de trabalho análogo à escravidão, com muito sofrimento, suor e moscas, o filme pode ser interpretado como uma crítica social e política, demonstrando como as pessoas se corrompem quando expostas a situações de pobreza e disputa política. O clima de suspense é criado pela excelente e sensorial trilha sonora de Tôru Takemitsu.
"A Cilada" (Otoshiana) é o primeiro filme da quadrilogia dirigida por Hiroshi Teshigahara, baseada nas obras de Kobo Abe. Em seguida vieram "A Mulher da Areia" (1964 - Suna no Onna), "A Face do Outro" (1966 - Tanin no Kao) e "O Mapa Arruinado" (1968 - Moetsukita Chizu).
Neste longa é contada a estória de Otsuka (Hisashi Igawa), um humilde trabalhador de minas de carvão e de seu filho pequeno (Kazuo Miyahara). Um homem de chapéu e terno branco é visto frequentemente pela criança - ele esgueira-se e observa Otsuka, mas sua identidade e suas intenções serão reveladas somente adiante, na transição da narrativa. Um dia, a caminho de um novo emprego, Otsuka percebe-se seguido, tenta fugir, mas é atacado pelo homem desconhecido, enquanto seu filho assiste a tudo.
A partir deste ponto, o filme adquire uma nova perspectiva. Otsuka se vê numa situação horrível e busca entender o que lhe aconteceu. O enredo tem um clima sombrio de suspense, reforçado pela trilha sonora. É um filme de vanguarda, que além da trama central também quer mostrar a situação social dos trabalhadores no Japão daquele período, sua dificuldade de arranjar emprego, a sobrecarga física que lhes era imposta, os baixos salários e o regime de quase escravidão.
O cinema oriental tem sempre algo de diferente e rico, nos fala de crenças e do sobrenatural que estão muito arraigados naquela cultura, por isso Otoshiana atravessou o tempo e manteve-se tão interessante.
OTOSHIANA é um filme de 1962 dirigido por Hiroshi Teshigahara, o mesmo diretor do filme “A mulher da areia”
Não sei qual é a tradução exata de Otoshiana, mas o título brasileiro é muito interessante: A armadilha. Acredito que essa ideia esteja muito presente na obra de Hiroshi (apesar de ter assistido apenas dois filmes dele). Essa ideia de que o personagem é capturado, encarcerado em uma situação completamente angustiante, do qual ele se vê sem saída, mesmo tentando ao máximo se livrar dessa situação
Esse filme (e A mulher da areia) me lembram muito o filme The Lighthouse de Robert Eggers, tanto na atmosfera, quanto na estética.
Otoshiana se passa no Japão, não sei em qual período exatamente, talvez anos 40/50. Temos como protagonista um minerador extremamente pobre, que possui um filho.
Esse minerador está em busca de emprego, enquanto tenta se esconder do governo, pois é dito que ele é um desertor. Não é dito que guerra exatamente ele fugiu, talvez a segunda guerra mundial? Não tenho certeza.
Uma coisa bem presente no enredo no filme é algo que posso chamar de “Expansão da realidade”.
Existe uma expansão de universo, através de vários plot twists que apresentam novos elementos ao mundo que estamos assistindo.
Não sei se é necessariamente um plot twist, podemos chamar de revelações sobre o mundo do filme, como se ele fosse maior do que supomos que ele era.
A princípio parece que o filme vai se tratar da condição dos mineiros naquele período. Temos até uma sequência muito interessante de imagens reais de acidentes em minas. Essa sequência tem uma montagem bem documental.
Mas logo depois, sem entrar em muitos detalhes, o protagonista começa a ser perseguido por um homem misterioso, que está vestido um terno branco. Esse homem misterioso acaba assassinando o protagonista, que minutos depois se transforma em um fantasma.
Isso é uma expansão. Até aquele momento não sabíamos que fantasmas existiam no universo do filme e agora percebemos que sim.
O filme possui uma atmosfera sinistra e isso acontece por alguns motivos que vou citar agora.
Primeiro começamos com a trilha sonora ou com o aspecto sonoro do filme.
O filme começa com os personagens fugindo de alguma coisa ou lugar. Tudo está em silêncio, mas repentinamente ouvimos sons tenebrosos. Não consigo identificar o que seriam esses sons, mas são bem desconfortáveis. Dão medo.
Esses sons vão aparecendo no decorrer do filme, junto com outras vibrações e trilhas de suspense.
Outro motivo que gera angústia está relacionado ao enredo do filme.
Existe uma atmosfera de perseguição nos primeiros minutos. Alguém ou alguma coisa que espia os personagens, que os persegue.
Depois temos o personagem preso em uma situação terrível. Muito desconfortável e torcemos para que ele saia dela, mas no final do filme isso não acontece. Não há uma grande conclusão. E essa falta de resposta gera uma angústia tremenda.
Um pouco mais acima eu comentei sobre a sequência documental sobre os acidentes em minas. Quero voltar a ela para falar sobre a montagem do filme, que é bem dinâmica, cheia de jump cuts e outros artifícios, usados até para representar os aspectos sobrenaturais dentro do filme.
OTOSHIANA é um filme angustiante e absurdo, que apresenta um universo que vai se expandindo no decorrer da narrativa e no final não dá respostas sobre seus mistérios, criando um mal-estar no expectador, muito similar aos sentimentos sentidos pelos personagens presentes na história.
Não foi o meu preferido, e acho que está longe da magnitude das obras de Hiroshi Teshigahara, apesar de alguns momentos cômicos. O trabalho de trilha sonora, ao menos, é impecável.
Seguindo uma tradição do cinema japonês da época, Otoshiana busca colocar na tela os horrores a que a população era submetida em um Japão ainda machucado pelas guerras e com um histórico de autoritarismo no qual os pobres acabam, de um jeito ou de outro, sendo escravizados.
No fundo, em um contexto de trabalho análogo à escravidão, com muito sofrimento, suor e moscas, o filme pode ser interpretado como uma crítica social e política, demonstrando como as pessoas se corrompem quando expostas a situações de pobreza e disputa política. O clima de suspense é criado pela excelente e sensorial trilha sonora de Tôru Takemitsu.
"A Cilada" (Otoshiana) é o primeiro filme da quadrilogia dirigida por Hiroshi Teshigahara, baseada nas obras de Kobo Abe. Em seguida vieram "A Mulher da Areia" (1964 - Suna no Onna), "A Face do Outro" (1966 - Tanin no Kao) e "O Mapa Arruinado" (1968 - Moetsukita Chizu).
Neste longa é contada a estória de Otsuka (Hisashi Igawa), um humilde trabalhador de minas de carvão e de seu filho pequeno (Kazuo Miyahara). Um homem de chapéu e terno branco é visto frequentemente pela criança - ele esgueira-se e observa Otsuka, mas sua identidade e suas intenções serão reveladas somente adiante, na transição da narrativa. Um dia, a caminho de um novo emprego, Otsuka percebe-se seguido, tenta fugir, mas é atacado pelo homem desconhecido, enquanto seu filho assiste a tudo.
A partir deste ponto, o filme adquire uma nova perspectiva. Otsuka se vê numa situação horrível e busca entender o que lhe aconteceu. O enredo tem um clima sombrio de suspense, reforçado pela trilha sonora. É um filme de vanguarda, que além da trama central também quer mostrar a situação social dos trabalhadores no Japão daquele período, sua dificuldade de arranjar emprego, a sobrecarga física que lhes era imposta, os baixos salários e o regime de quase escravidão.
O cinema oriental tem sempre algo de diferente e rico, nos fala de crenças e do sobrenatural que estão muito arraigados naquela cultura, por isso Otoshiana atravessou o tempo e manteve-se tão interessante.
OTOSHIANA é um filme de 1962 dirigido por Hiroshi Teshigahara, o mesmo diretor do filme “A mulher da areia”
Não sei qual é a tradução exata de Otoshiana, mas o título brasileiro é muito interessante: A armadilha. Acredito que essa ideia esteja muito presente na obra de Hiroshi (apesar de ter assistido apenas dois filmes dele). Essa ideia de que o personagem é capturado, encarcerado em uma situação completamente angustiante, do qual ele se vê sem saída, mesmo tentando ao máximo se livrar dessa situação
Esse filme (e A mulher da areia) me lembram muito o filme The Lighthouse de Robert Eggers, tanto na atmosfera, quanto na estética.
Otoshiana se passa no Japão, não sei em qual período exatamente, talvez anos 40/50. Temos como protagonista um minerador extremamente pobre, que possui um filho.
Esse minerador está em busca de emprego, enquanto tenta se esconder do governo, pois é dito que ele é um desertor. Não é dito que guerra exatamente ele fugiu, talvez a segunda guerra mundial? Não tenho certeza.
Uma coisa bem presente no enredo no filme é algo que posso chamar de “Expansão da realidade”.
Existe uma expansão de universo, através de vários plot twists que apresentam novos elementos ao mundo que estamos assistindo.
Não sei se é necessariamente um plot twist, podemos chamar de revelações sobre o mundo do filme, como se ele fosse maior do que supomos que ele era.
A princípio parece que o filme vai se tratar da condição dos mineiros naquele período. Temos até uma sequência muito interessante de imagens reais de acidentes em minas. Essa sequência tem uma montagem bem documental.
Mas logo depois, sem entrar em muitos detalhes, o protagonista começa a ser perseguido por um homem misterioso, que está vestido um terno branco. Esse homem misterioso acaba assassinando o protagonista, que minutos depois se transforma em um fantasma.
Isso é uma expansão. Até aquele momento não sabíamos que fantasmas existiam no universo do filme e agora percebemos que sim.
O filme possui uma atmosfera sinistra e isso acontece por alguns motivos que vou citar agora.
Primeiro começamos com a trilha sonora ou com o aspecto sonoro do filme.
O filme começa com os personagens fugindo de alguma coisa ou lugar. Tudo está em silêncio, mas repentinamente ouvimos sons tenebrosos. Não consigo identificar o que seriam esses sons, mas são bem desconfortáveis. Dão medo.
Esses sons vão aparecendo no decorrer do filme, junto com outras vibrações e trilhas de suspense.
Outro motivo que gera angústia está relacionado ao enredo do filme.
Existe uma atmosfera de perseguição nos primeiros minutos. Alguém ou alguma coisa que espia os personagens, que os persegue.
Depois temos o personagem preso em uma situação terrível. Muito desconfortável e torcemos para que ele saia dela, mas no final do filme isso não acontece. Não há uma grande conclusão. E essa falta de resposta gera uma angústia tremenda.
Um pouco mais acima eu comentei sobre a sequência documental sobre os acidentes em minas. Quero voltar a ela para falar sobre a montagem do filme, que é bem dinâmica, cheia de jump cuts e outros artifícios, usados até para representar os aspectos sobrenaturais dentro do filme.
OTOSHIANA é um filme angustiante e absurdo, que apresenta um universo que vai se expandindo no decorrer da narrativa e no final não dá respostas sobre seus mistérios, criando um mal-estar no expectador, muito similar aos sentimentos sentidos pelos personagens presentes na história.
Precarização do trabalho em compasso de clima opressivo.