Bad Girl

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Bad Girl (1963)
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Média do filme: 3.8 de 5 — baseado em 5 votos
MÉDIAFILMOW
3.8
5 Avaliações
Minha avaliação:
Salvando
Dirigido por Kirio Urayama
Data de lançamento 17 Março 1963 Outras datas
País de origem Japão 🇯🇵
Duração 114 min (1h54)

Dirigido por

Data de lançamento

17 Março 1963

Duração

114 minutos
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Sinopse

Wakae é uma garota de 15 anos, que após o falecimento da mãe, vive num ambiente rude e pobre com seu pai alcoólatra e a madrasta. Ela passa suas noites em um bar decadente, a partilhar de bebidas e cigarros com os bêbados. Não tem para onde ir e ninguém para conversar, até que certo dia seu amigo de infância Saburo, reaparece, dando um outro rumo a sua vida.
Vencedor do Golden Prize, de 1963, no Moscow International Film Festival.

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A Bola Preta | Trailer Legendado

A Bola Preta

Comentários 0
amigos querem ver
paninomanino
Panino Manino
½
9 anos atrás

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

https://i.imgur.com/MpTXEHs.jpg

Depois de assistir ao filme anterior a este que o diretor fez (Foundry Town possui roteiro dele mesmo, Delinquent Girl não) fiquei com bastante vontade de assistir a este próximo porque me pareceu, já pelo título, que mostraria uma personagem que ao contrário da protagonista e outros personagens de Foundry Town não resiste as dificuldades que passa e se "perde" na vida.

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De fato o filme corresponde a essa impressão, só que ele é menos sobre se perder e muito mais sobre se encontrar.
Além disso Delinquent Girl narra não apenas a história da personagem título, narra também em paralelo a história de um amigo passando por semelhantes dificuldades, uma qualidade que elevou demais o filme na minha opinião. Geralmente histórias assim são protagonizadas por personagens pobres, de família disfuncional, ou que está se desestruturando. A família da protagonista Wakae corresponde a esse padrão, porém o filme mostra que pessoas de famílias mais respeitáveis e estáveis também podem passar pelo menos que ela, e faz isso através do Saburo que possui uma família oposta a de Wakae, estruturada e em ascensão. Um pequeno detalhe da família de ambos é que ela perdeu a mãe e ele perdeu o pai, o que talvez seja proposital para lembrar que nem pai nem mão são garantia de estabilidade de uma família e que seus descendentes não se desvirtuarão.

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Esse filme é mais sobre sociedade e família, menos sobre trabalho.
Nem Wakae nem Saburo são rebeldes de fato, eles apenas não se "encaixam". Eles não conseguem se manter dentro do modelo perfeitinho, comportado e principalmente calado. Nenhum dos dois diz coisas ruins sobre a família e outros, eles apenas dizem o que pensam, dizem verdades. Só naquela sociedade a aparência importa mais do que a verdade e eles acabam sofrendo por isso.
Como por se recusarem a "melhorarem", se "endireitarem", se tornarem "respeitáveis", o que no caso da Wakae é piorado por ser mulher e significar aceitar abusos e violência sexual, eles acabam marcados pela comunidade e passar a ser atacados mesmos sem motivo por serem "imprestáveis", vergonhas", se tornam párias. E algo que na minha opinião causa grande drama e sofrimento para eles é que ambos acreditam nisso, afinal, ambos são membros daquela sociedade, pensam do mesmo jeito, por isso sentem vergonha e se desanimam. Se desacreditam, quase desistem deles mesmos.

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Esse filme foi apenas mais um a abordar essas questões, a fazer critica, e dá para dizer que ainda são válidas e continuará assim por muito tempo. É como o Japão e o japonês é.
Também, sempre há aqueles que se aproveitam desses infelizes em benefício próprio, vemos isso no filme. Se tornam mercadoria para serem explorados se não tomarem cuidado, e os aproveitadores não sentem nenhuma vergonha, afinal aquelas pessoas não possuem valor.

Não me estenderei muito sobre essas questões porque já escrevi muito sobre elas em outras ocasiões, farei alguns comentários sobre o filme e diretor antes de comentar o final do filme.

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Não consigo apontar uma evolução técnica clara em filmes da época, diferentes estúdios e equipes estavam em diferentes estágios de evolução e qualidade. Talvez eu possa arriscar dizer que durante a década de 1960 esses filmes começaram a se tornar mais claramente menos travados e mais rebuscados narrativamente. O Naruse por exemplo estava fazendo Nouvelle Vague nessa época com grande sucesso. Em Foundry Town a fotografia me chamou atenção, os créditos iniciais já tinham me chamado atenção, e Delinquent Girl melhora muito nesse aspecto. Os créditos iniciais são integrados na abertura do filme de modo mais complexo e relevante do que em Foundry Town. Em Delinquent Girl há cenas onde recursos técnicos são usados para fins emocionais, como quando a Wakae está deprimida e chora sozinha na praia e é usado um match-cut e fade-out para iniciar e sair de um flashback, e principalmente a cena inicial que comento mais tarde.
Em geral a câmera é bem livre e os enquadramentos são obviamente escolhidos com cuidado para compor um cena bonita e significativa para os personagens.

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Algo que eu reparei é a aparente tendência do Kirio Urayama de inserir uma questão real potencialmente polêmica em algum canto da história.
Em Foundry Town o melhor amigo do irmão da Jun, irmão de uma amiga dela da escola, eles são filhos de um pai coreano. Mais especificamente, um norte coreano. A mãe estava brigada com o pai e saiu de casa, e a família estava prestes a ser separada com a volta do pai para a Coreia do Norte. Essa volta para a Coreia é algo que aconteceu na época, depois da guerra ficaram muitos coreanos no Japão e muitos deles decidiram voltar e organizaram grupos para ir embora. Só que essa repatriação também foi muito apoiada por setores conservadores da sociedade que queria livrar o país dos estranheiros, ainda mais os de países que eles tinham escravizado. O pai da Jun é uma cena diz para o filho não se misturar com os coreanos, uma demonstração do pensamento xenófobo da época.
Isso não é discutido, mas está lá, a partida dos amigos coreanos da Jun e de seu irmão são parte da trama.
Há o mesmo uso de uma situação real em Delinquent Girl.
Havia uma espécie de base de soldados americanos perto da praia perto da pequena cidade de interior onde vivem, e a certa altura os moradores decidiram fazer manifestação contra os exercícios militares que eles faziam lá, e supostamente o grupo foi traído por outros moradores que não participaram. O irmão do Saburo, que durante o filme está em campanha municipal, seria um dos que traíram o grupo, que na época foi reprimido. Isso criou uma rixa entre famílias, a família do Saburo e da Wakae não se dão por causa disso, os dois eram amigos na infância (ele é um bocado mais velho que ela) e por isso tiveram que deixar de se falar.
O filme não discute qualquer questão de presença militar estranheira, patriotismo, militarismo, mas usa aquela situação para estabelecer relações entre os personagens. Que o irmão do Saburo tenha ficado contra o restante dos moradores no protesto faz todo o sentido, ele já estava pensando em sua futura carreia política, ser fiel ao governo tendo do que se reclamar ou não é a atitude lógica, para manter uma boa aparência, uma aparência respeitável, apenas um verniz. Ao mesmo tempo podemos sentir a aversão e estupefação do Saburo ao presenciar essa mentalidade tradicionalista com tanta hipocrisia, como na cena em que ele espera a Wakae em um parque e assiste a uma procissão de senhores e senhoras cruzando uma ponte de pedra em um ritual de boa sorte.

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Falando sobre o final para terminar, ele foi fantástico.
Surge um interesse romântico entre Saburo e Wakae, por tudo eles ficam confortáveis um com o outro, é quem eles tem para se apoiarem. Só que os dramas sabotam esse romance do início ao fim, além de que ambos tem seus próprios problemas pessoas que impedem de se aproximar e ficar em paz com o outro. Ao invés de se aproximarem ele se distanciam, restando apenas torcer para a situação melhorar e eles poderem fazer algo para ficar juntos. Ou nem isso, apenas discutir a vida e o que fazer delas.
Por tudo que se passou e aconteceu com eles, além de envergonhados e desamparados eles estão perdidos na vida. Eles não sabem o que fazer, não sabem o que podem fazer, estão sem saída.
O final caminha para os dois terminarem separados, clássica situação de despedida com o outro partindo para outra cidade distante de trem. No caso a Wakae depois de um tempo em uma casa de acolhimento e reformatório deve partir para trabalhar em Osaka. Após muito pensar e tomar uma decisão ela parte sem se despedir de Saburo que espera pela saída dela e volta para casa. O Saburo é ágil e consegue alcançar ela na estação e então a cena começa. Ainda há algum tempo antes da partida do trem e ele leva a Wakae para um café ao lado da estação. Ele repete o que já havia dito mais de uma vez, que não compreende ela, e agora que estão prestes a se separar ele quer sentar e forçar ela a falar para que possa entendê-la.  Após ele disser tudo que sente e espera dela a Wakae desaba e desabafa tudo o que tinha guardado até então, toda aquela crença de que por mais que ela goste e queria ficar com ele ela é indigna, não só dele, de qualquer pessoa respeitável (como outras personagens também se sentem). Ouvir ele dizer que ele se sente do mesmo modo, mas que o que importa é que ele ama ela, e que ele quer fazer o esforço que for necessário para se tornar digno e ficarem juntos deixa ela ainda mais perdida depois de tanto se convencer de que estava fazendo a escolha certa indo para longe dele.

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Essa cena toda é fantástica.

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Sendo de 1963 as atuações nesse filme já são um pouco mais naturais do que filmes de anos anteriores, e o modo como a cena é filmada é ao mesmo tempo natural e calculada. É uma longa cena onde lentamente a câmera gira ao redor da mesa deles, cercada por outras messas e pessoas que estão naquele café, ouvindo a discussão e choradeira do casal. Eles não se importam, eles não tem tempo para se importar com onde estão, estão concentrados apenas neles mesmo apenas meio conscientes de onde estão, mas nós pelo movimento da câmera podemos ver os olhares e reações das pessoas, alguns prestando atenção e criando expectativas pela história que estão ouvindo. É uma cena clássica de romances, o casal que se separa na estação e o público ali não pode deixar de notar.
A certa altura na cena chegam em um impasse.

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(Kirio Urayama é bastante consciente da possibilidade de transmitir pensamentos e sentimentos através de falas externas)

Saburo e Wakae confessam o que sentem e não sabem o que fazer, precisam tomar uma decisão.
A forma como a cena é filmada continua magistral, Wakae apenas chora enquanto Saburo compreendendo o que se passa com ela batalha contra a própria consciência para tomar uma decisão. As pessoas continuam ao redor, o mundo parece girar, o conteúdo da TV que mostra imagens mais felizes se torna mais interessante para as pessoas do café do que o drama do casal que ficou em silêncio. No fim Saburo toma a "decisão" correta, ele arrasta Wakae para o trem.
De certo modo esse final me lembra de "Apart From You" do Mikio Naruse, um filme de 1933. A protagonista daquele filme também parte para longe de trem ao final, indo para longe de outros personagens, um afastamento necessário para todos.
Antes de sonhar em um final feliz com o outro Wakae e Saburo precisam fazer o que é melhor para eles. Eles reafirmam seu amor, no entanto nem um nem outro é ou pode dar o que o outro precisa no momento, eles precisam buscar e fazer algo por eles mesmos primeiro e fazem um acordo. Caso se reencontrem mais tarde após de alguns anos e ainda sintam o mesmo ficarão juntos, se não torcerão pela felicidade do outro, e caso eles se encontrem e vejam que estão com outras pessoas, que sejam felizes e tenham uma família feliz como eles tanto querem. Tematicamente é também um reconhecimento de que o bem para o coletivo não pode vir sem a melhora do indivíduo, Wakae e Saburo não podem formar um todo estável e feliz sendo tão instáveis e infelizes.

Como disse, esse final me lembrou de um filme do Naruse, é quase tão bom quanto, só que a forma como a cena toda foi feita, as atuações, a direção, cada detalhe de como esse final foi filmado foi algo que eu não esperava ver em tanta qualidade. De vez em quando assisto um filme ou uma cena desses filmes que me impressionam, mas esse caso foi um ponto fora da curva, algo muito diferente de tudo que já vi em filmes dessa época.

Kirio Urayama é um diretor subestimado ou apenas eu que ainda não o conhecia?

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