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Duração
O cenário, à primeira vista, pode chocar: um ponto de escoamento de lixo em São Gonçalo, município do Rio de Janeiro. Seringas usadas, comida em estado de decomposição, um estado de miséria absoluta. Pessoas selecionam objetos e comida que possam ser reaproveitados; o que foi rejeitado por uma pessoa serve como fator de sobrevivência para esta. O cenário desalentador não exprime o estado de espírito dos catadores. Há um conjunto de integridade e valores que superam todo aquele estado, e a câmera de Coutinho é a responsável por essa aproximação.
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A mulher com 7 filhos e querendo fazer 12 ou até 18 filhos morando num lixão
Coutinho sabia como ninguém ir no íntimo e extrair relatos de todo tipo de pessoa.Muitos deles emocionantes.Outro retrato cruel do ser humano e em condições que não poderia ficar de forma alguma.
>Assistido em 06 de Novembro de 2023
- 8/10
- coutinho sabe ouvir e fazer as perguntas certas
- espero muito que a menina tenha realizado o sonho de ser cantora
- lindo de ver o brilho nos olhos das pessoas se vendo na tv no final
- triste a quantidade de crianças ali
Arrisco-me a dizer que é dos filmes do Coutinho, o que encontra os anônimos mais interessantes.
Um filme que nas mãos da maioria dos diretores viraria fetiche de ver pobre sofrendo, mas nas mãos do Coutinho se torna um processo de desarme dos receios daqueles catadores até serem conquistados pelo diretor para que ele possa captar o mais doce e humano de cada um.
Por exemplo, o modo como aborda Enock com as suas fotos e faz daquilo o quebra gelo para conhecer a história daquele senhor fantástico ou a dualidade com que Jurema trata os cinegrafistas em dois momentos: primeiro com raiva e demérito, depois de peito aberto e cheia de humor. Inclusive, os receios de Jurema daquilo virar um "miséria porn" - ou algo do tipo - são legítimos e riquíssimos para o Cinema de Coutinho. Este sempre conseguiu caminhar na direção oposta, seu Cinema é TÃO respeitoso, TÃO delicado, TÃO humano e jamais como fetiche. Não tem como assistir a um filme seu e sair indiferente ao que viu.
Como último comentário, é muito poético o olhar do Coutinho em enxergar nas canções um momento de pura fragilidade e entrega de seus personagens; isso durante TODA sua filmografia. É o senhor do "My Way" no "Edifício Master", a moça ao final do "Jogo de Cena", uma passagem de "Moscou", a adolescente em "Últimas Conversas", o início de "Babilônia 2000" e, claro, todo o "As Canções". Em praticamente todos os exemplos, são momentos de muita emoção, as músicas cantadas por estas pessoas expõem uma humanidade muito única de cada um pelo modo como se expressam, sofrem junto da música e se entregam àquela catarse que a Arte provoca. Coutinho registra isso e exorciza as dificuldades de cada personagem, libertando-os para a eternidade.
um filme menor não as mostraria como pessoas, mas como um dispositivo de exploração da miséria a serviço do filme.
Coutinho deixa as pessoas contarem suas próprias histórias e opiniões, sem estarem submetidas a uma pretensão explícita do diretor. minimizando sua interferência, a vida das pessoas transpõe o filme, representando a si mesmas como individuais humanos, sem servirem de objetos para uma denúncia social feita por um outro