Eu nem vou dar uma nota pra esse doc pq, apesar de eu ter criado expectativas diferentes e achar que poderia ser muito mais interessante, eu fico pensando nas nuances da própria existência desse projeto e vem aí um textão que eu não sei onde colocar senão aqui.
Eu me interessei por ele porque apareceu o trailer pra mim no YouTube. Eu amo "O Clube dos Cinco" e eu nem sabia que tinha existido esse movimento midiático naquela época apelidando a jovem Hollywood de "Brat Pack", logo, quis saber do que se tratava. E isso já diz muito sobre os temas abordados.
Confirma algo que já sabemos, mas é sempre bom lembrar: como a indústria do entretenimento estadunidense é autocentrada. Sim, a mídia brasileira especializada em cinema usava o termo — eu pesquisei, encontrei 19 ocorrências no Estadão e 6 na Folha de São Paulo de 1985 até hoje. Mas o fenômeno em si tinha outras concorrências no resto do mundo, então, ouvir Rob Lowe falando que eles conseguiriam vender Wembley tal qual os Beatles me deixou: "hm, amigo... talvez não nos empolguemos?"
Outra coisa que fica muito óbvia no decorrer da trama, é como esse documentário não é uma visão externa com uma intenção de explorar o fenômeno sociológico em si — embora a melhor parte do documentário seja justamente na parte em que essa perspectiva é abordada. Ver Andrew McCarthy viajar os Estados Unidos para encontrar outros membros do Brat Pack para falar do assunto deixou óbvio o quanto este é um projeto de catarse pessoal pra ele. E isso me deixou com um sentimento ambíguo.
Uma parte de mim se pegou constrangida e inclinada a concordar com a galera que criticou o doc, porque de fato, ele soa às vezes como "ator branco padrão privilegiado tenta fazer reunião de turma pra tentar confrontar os próprios traumas advindos dos grandes problemas que a fama lhe proporcionou na juventude" (e é juventude mesmo, porque ele já tinha 22 anos na época). E fica claro que, pra maioria dos outros membros dessa turma, a experiência foi bem menos negativa. Fica naquele sentimento meio constrangedor de ver alguém tentando se conectar com antigos colegas do Ensino Médio, mas agora eles têm pouco em comum e não se importam tanto. Alguns dos encontros são mais calorosos (e eu amo que um desses é justamente com a mais famosa de todos, a Demi), outros um pouco mais desconcertantes.
Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que para Andrew a experiência foi pior do que para os outros. Você consegue fazer as comparações entre as vizinhanças, as casas onde cada um mora, os locais de encontros e perceber o quanto deu mais certo para uns do que para outros. Quando comecei o documentário, eu pensei: "de onde conheço esse cara?". Lembrei que foi de "13 Reasons Why" rs. E, no fim, ele de fato não sobreviveu tão bem no cinema quanto outros membros do grupo como a Demi Moore ou o Emilio Estevez (que, não vamos esquecer, era um Nepo Baby). Até mesmo o Rob Lowe ou o Jon Cryer tiveram carreiras bem melhor sucedidas depois de mais velhos. Isso sem contar atores que não eram do "bando", mas que eram adjacentes e associados a eles, como Tom Cruise, John Cusack e Robert Downey Jr. que tiveram carreiras invejáveis.
Mas é possível também ver o quanto a Ally Sheed (que, juro, só vi mais velha numa ponta em X-Men Apocalypse) e o Timothy Hutton (que arrebentou como a versão mais velha do Hugh em The Haunting of Hill House) se conectaram mais com o Andrew, por também terem sentido que aquele rótulo feriu a carreira deles. E isso me deixou criar empatia por ele. Por mais que eu ainda enxergue que muito daquilo partiu de um ego ferido de um branco padrão, de uma alma jovem que não soube navegar nas oportunidades que foram oferecidas, eu consigo me relacionar com o sentimento de algo que foi positivo para outros e talvez nem tivesse sido tão ruim assim, marcar de forma muito profunda e negativa uma pessoa. Não dá pra negar que a natureza selvagem do mercado de Hollywood torna aquilo um ambiente no qual nem todo mundo consegue sobreviver bem. No fim das contas, eu consigo humanizar o Andrew e enxergar como ser chamado de moleque numa época em que você está tentando se firmar como um profissional sério pode criar um nó psicológico que te trave e trave suas oportunidades numa indústria tão competitiva. [Fiquei pensando também, no quanto as grandes celebridades que conhecemos hoje podem sobreviver ao tempo, mas daqui 35 anos pode ser que alguem na casa dos 30 nunca tenha ouvido falar do Timothee Chalamet, do Paul Mescal ou do Jacob Elordi rs].
Então, por mais que eu ache que um documentário sobre esse assunto podia ser MUITO interessante, bem produzido e melhor escrito, eu também consigo apreciá-lo pela obra intimista que ele é. Aliás, apesar de a princípio ter me incomodado um pouco, no fim achei inteligente da parte do time de Fotografia filmar quase como se fosse um filme amador mesmo. E tem algumas decisões de direção bem interessantes — embora nada super inspirador ou inovador.
Fico feliz que, pelo menos ao que me pareceu, talvez Andrew tenha encontrado sim uma catarse necessária (ele já tinha até escrito um livro que inspirou o doc rs). E, no fim das contas, muito do que nós que somos contadores de histórias queremos fazer, é encontrar um modo de nos curar de coisas que nossos egos mais jovens vivenciaram. Bom pra ele! rs
A coisa que mais gostei de aprender com esse doc foi o fato de que essa era dos filmes adolescentes, dos filmes do Brat Pack e de John Hughes foi o início do cinema adolescente e jovem adulto, porque antes as histórias não levavam adolescentes e jovens à sério.
Estava bem curioso pra assistir esse documentário, mas só hoje conegui. Gostei, mas confesso que esperava um pouco mais. Talvez por ele ser mais focado no artigo que foi escrito e menos nos atores do Brat Pack, apesar da maioria deles apareceram em depoimentos. Mesmo assim, acredito que vale ser conhecido.
"Brats" é uma viagem nostálgica e sensível que revisita os bastidores do rótulo "Brat Pack", expondo como uma alcunha aparentemente inofensiva marcou profundamente a trajetória de alguns jovens atores dos anos 80. Andrew McCarthy conduz o documentário como uma jornada pessoal de cura, mas por vezes seu foco excessivo em sua própria dor ofusca vozes que lidaram com a fama de forma mais leve ou resiliente. Ainda assim, o filme traz reflexões importantes sobre vulnerabilidade, juventude e a falta de suporte emocional em Hollywood. Para quem cresceu com Clube dos Cinco e St. Elmo's Fire, é impossível não se emocionar, nem que seja só pelo som da trilha sonora ecoando memórias.
‘Brats’ é uma deliciosa homenagem aos filmes adolescentes dos anos 1980!
Dirigido por Andrew McCarthy, documentário 'Brats' visita os membros do 'Brat Pack', grupo de atores e atrizes que viraram sensação durante os anos 1980.
Houve um tempo, durante os anos 1980, em que o cinema começou a produzir loucamente filmes direcionados a adolescentes e jovens adultos. Foi uma verdadeira virada de chave na indústria, que passou a entregar ao público mundial obras que se tornaram pequenos clássicos populares, como Gatinhas e Gatões, O Clube do Cinco e Curtindo a Vida Adoidado (todos de John Hughes), A Garota de Rosa-Shocking, O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, entre muitos, muitos outros.
Havia elementos em comum entre todos esses filmes, além do nicho. E um dos mais fortes é que ele repetia membros dos seus elencos, lançando atores e atrizes que se tornaram verdadeiras estrelas dessa época. Falamos aqui de gente como a onipresente Molly Ringwald, os rebeldes Judd Nelson e Demi Moore, os galãs Rob Lowe e Andrew McCarthy, os engraçados Anthony Michael Hall, Matthew Broderick e Jon Cryer.
Tudo parecia ótimo, até que o grupo ganhou um “nome” a partir de uma reportagem do jornalista David Blum, que em 10 de junho de 1985 publicou na New York um texto chamado “Hollywood’s Brat Pack”. O termo – um jogo de palavras engraçadinho com o chamado Rat Pack, apelido dado a um grupo de artistas populares entre as décadas de 1950 e 60, incluindo Frank Sinatra – ajudou a sedimentar a fama das jovens estrelas. Mas, por outro lado, grudou-os eternamente a um estereótipo que os impediu a trabalhar em outras coisas.
É esta a história contada em Brats, documentário “terapêutico” dirigido por Andrew McCarthy, um dos principais nomes do grupo. A obra, produzida pela plataforma Hulu, deriva de um livro biográfico de mesmo nome, e se propõe a realizar uma jornada em busca dos membros do “Brat Pack” para tentar entender o que ocorreu com eles e como o apelido os afetou profissionalmente.
De acordo com os envolvidos, terem sido colocados nesta categoria lhes trouxe fama, mas também os prendeu para sempre a um tipo de cinema adolescente que esteve no auge justamente nessa época, impedindo que eles fossem levados a sério para outros papéis (“brat”, aliás, poderia ser traduzido livremente como “pirralho”, “mal-educado” ou algo do tipo). Em certo momento, por exemplo, Emilio Estevez afirma ao diretor não seria possível imaginar um membro do Brat Pack sendo convidado para fazer um filme de Martin Scorsese.
‘Brats’: um passeio ao auge do cinema voltado aos jovens
Independente das consequências geradas pelo termo, o fato é que estes jovens atores e atrizes se consolidaram no imaginário de milhões de pessoas por estarem vinculados a filmes que são adorados até hoje. Ao invés de apresentar apenas uma lamentação, Andrew McCarthy é esperto o suficiente justamente para tirar vantagem desta memória afetiva.
Rob Lowe e Andrew McCarthy, membros do "Brat Pack".
Assim, Brats se apresenta como uma espécie de road movie light em que McCarthy percorre distâncias para conversar com antigos colegas – a maior parte deles, ele não encontra há cerca de trinta anos. Isso quebra, por exemplo, a ideia de muitos fãs de que este seria um grupo coeso de amigos que viveram sempre juntos.
Nesta jornada, ele consegue depoimentos de pessoas como Estevez, Rob Lowe, Ally Sheedy, Timothy Hutton (considerado o primeiro de todos os Brat Packers, por conta do filme Gente como a Gente, que lhe deu um Oscar em 1980) e Demi Moore (provavelmente a que se tornou a celebridade mais bem-sucedida do grupo). São, em boa parte, falas deliciosas que provocam um mergulho em detalhes de bastidores desconhecidos para os fãs. O próprio McCarthy, por exemplo, narra as suas inseguranças durante as filmagens dos longas que estreeou.
Emilio Estevez e Andrew McCarthy se reencontram em ‘Brats’. Imagem: Divulgação. Também se destaca o fato de que o diretor conseguiu entrevistar o próprio David Blum, concretizando uma conversa franca, ainda que amistosa, em que ele reflete sobre como era impossível saber o quanto um trocadilho tomaria tamanha repercussão e atingiria tantas vidas. Há ainda falas de comentaristas culturais de renome, como o escritor Malcolm Gladwell, cuja fama se deu em partes por sua capacidade de enxergar tendências invisíveis no tecido social.
Para os fãs dessas produções (que fique claro: essa audiência vai muito além do público 40+), Brats configura alguns momentos de entretenimento adorável para relembrar o quanto estrelas do cinema podem agregar as memórias positivas de um tempo que já passou – mesmo que esse tempo seja apenas um filme.
Se você tiver a oportunidade de assistir o documentário 'Brats', assista. A visão que temos pelo Brat Pack, pelos "Brat Packs" é ampliada de uma forma incrível.
Se você acompanhou os jovens atores e a onda que eles "surfaram" em Hollywood, esse documentário vai te pegar com o maior apelo nostálgico possível. Mas se você não viveu essa época, se talvez nem tenha visto algum dos filmes em outro momento (o que é difícil), o documentário vai te apresentar o grupo e vai te fazer refletir sobre o impacto que eles foram responsáveis em uma geração, e o impacto que ele sofreram com "apenas" um nome que lhes foi atribuído.
Eu nem vou dar uma nota pra esse doc pq, apesar de eu ter criado expectativas diferentes e achar que poderia ser muito mais interessante, eu fico pensando nas nuances da própria existência desse projeto e vem aí um textão que eu não sei onde colocar senão aqui.
Eu me interessei por ele porque apareceu o trailer pra mim no YouTube. Eu amo "O Clube dos Cinco" e eu nem sabia que tinha existido esse movimento midiático naquela época apelidando a jovem Hollywood de "Brat Pack", logo, quis saber do que se tratava.
E isso já diz muito sobre os temas abordados.
Confirma algo que já sabemos, mas é sempre bom lembrar: como a indústria do entretenimento estadunidense é autocentrada. Sim, a mídia brasileira especializada em cinema usava o termo — eu pesquisei, encontrei 19 ocorrências no Estadão e 6 na Folha de São Paulo de 1985 até hoje. Mas o fenômeno em si tinha outras concorrências no resto do mundo, então, ouvir Rob Lowe falando que eles conseguiriam vender Wembley tal qual os Beatles me deixou: "hm, amigo... talvez não nos empolguemos?"
Outra coisa que fica muito óbvia no decorrer da trama, é como esse documentário não é uma visão externa com uma intenção de explorar o fenômeno sociológico em si — embora a melhor parte do documentário seja justamente na parte em que essa perspectiva é abordada. Ver Andrew McCarthy viajar os Estados Unidos para encontrar outros membros do Brat Pack para falar do assunto deixou óbvio o quanto este é um projeto de catarse pessoal pra ele. E isso me deixou com um sentimento ambíguo.
Uma parte de mim se pegou constrangida e inclinada a concordar com a galera que criticou o doc, porque de fato, ele soa às vezes como "ator branco padrão privilegiado tenta fazer reunião de turma pra tentar confrontar os próprios traumas advindos dos grandes problemas que a fama lhe proporcionou na juventude" (e é juventude mesmo, porque ele já tinha 22 anos na época). E fica claro que, pra maioria dos outros membros dessa turma, a experiência foi bem menos negativa. Fica naquele sentimento meio constrangedor de ver alguém tentando se conectar com antigos colegas do Ensino Médio, mas agora eles têm pouco em comum e não se importam tanto. Alguns dos encontros são mais calorosos (e eu amo que um desses é justamente com a mais famosa de todos, a Demi), outros um pouco mais desconcertantes.
Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que para Andrew a experiência foi pior do que para os outros. Você consegue fazer as comparações entre as vizinhanças, as casas onde cada um mora, os locais de encontros e perceber o quanto deu mais certo para uns do que para outros. Quando comecei o documentário, eu pensei: "de onde conheço esse cara?". Lembrei que foi de "13 Reasons Why" rs.
E, no fim, ele de fato não sobreviveu tão bem no cinema quanto outros membros do grupo como a Demi Moore ou o Emilio Estevez (que, não vamos esquecer, era um Nepo Baby). Até mesmo o Rob Lowe ou o Jon Cryer tiveram carreiras bem melhor sucedidas depois de mais velhos. Isso sem contar atores que não eram do "bando", mas que eram adjacentes e associados a eles, como Tom Cruise, John Cusack e Robert Downey Jr. que tiveram carreiras invejáveis.
Mas é possível também ver o quanto a Ally Sheed (que, juro, só vi mais velha numa ponta em X-Men Apocalypse) e o Timothy Hutton (que arrebentou como a versão mais velha do Hugh em The Haunting of Hill House) se conectaram mais com o Andrew, por também terem sentido que aquele rótulo feriu a carreira deles. E isso me deixou criar empatia por ele. Por mais que eu ainda enxergue que muito daquilo partiu de um ego ferido de um branco padrão, de uma alma jovem que não soube navegar nas oportunidades que foram oferecidas, eu consigo me relacionar com o sentimento de algo que foi positivo para outros e talvez nem tivesse sido tão ruim assim, marcar de forma muito profunda e negativa uma pessoa. Não dá pra negar que a natureza selvagem do mercado de Hollywood torna aquilo um ambiente no qual nem todo mundo consegue sobreviver bem.
No fim das contas, eu consigo humanizar o Andrew e enxergar como ser chamado de moleque numa época em que você está tentando se firmar como um profissional sério pode criar um nó psicológico que te trave e trave suas oportunidades numa indústria tão competitiva.
[Fiquei pensando também, no quanto as grandes celebridades que conhecemos hoje podem sobreviver ao tempo, mas daqui 35 anos pode ser que alguem na casa dos 30 nunca tenha ouvido falar do Timothee Chalamet, do Paul Mescal ou do Jacob Elordi rs].
Então, por mais que eu ache que um documentário sobre esse assunto podia ser MUITO interessante, bem produzido e melhor escrito, eu também consigo apreciá-lo pela obra intimista que ele é. Aliás, apesar de a princípio ter me incomodado um pouco, no fim achei inteligente da parte do time de Fotografia filmar quase como se fosse um filme amador mesmo. E tem algumas decisões de direção bem interessantes — embora nada super inspirador ou inovador.
Fico feliz que, pelo menos ao que me pareceu, talvez Andrew tenha encontrado sim uma catarse necessária (ele já tinha até escrito um livro que inspirou o doc rs). E, no fim das contas, muito do que nós que somos contadores de histórias queremos fazer, é encontrar um modo de nos curar de coisas que nossos egos mais jovens vivenciaram. Bom pra ele! rs
A coisa que mais gostei de aprender com esse doc foi o fato de que essa era dos filmes adolescentes, dos filmes do Brat Pack e de John Hughes foi o início do cinema adolescente e jovem adulto, porque antes as histórias não levavam adolescentes e jovens à sério.
Estava bem curioso pra assistir esse documentário, mas só hoje conegui. Gostei, mas confesso que esperava um pouco mais. Talvez por ele ser mais focado no artigo que foi escrito e menos nos atores do Brat Pack, apesar da maioria deles apareceram em depoimentos. Mesmo assim, acredito que vale ser conhecido.
"Brats" é uma viagem nostálgica e sensível que revisita os bastidores do rótulo "Brat Pack", expondo como uma alcunha aparentemente inofensiva marcou profundamente a trajetória de alguns jovens atores dos anos 80. Andrew McCarthy conduz o documentário como uma jornada pessoal de cura, mas por vezes seu foco excessivo em sua própria dor ofusca vozes que lidaram com a fama de forma mais leve ou resiliente. Ainda assim, o filme traz reflexões importantes sobre vulnerabilidade, juventude e a falta de suporte emocional em Hollywood. Para quem cresceu com Clube dos Cinco e St. Elmo's Fire, é impossível não se emocionar, nem que seja só pelo som da trilha sonora ecoando memórias.
‘Brats’ é uma deliciosa homenagem aos filmes adolescentes dos anos 1980!
Dirigido por Andrew McCarthy, documentário 'Brats' visita os membros do 'Brat Pack', grupo de atores e atrizes que viraram sensação durante os anos 1980.
Houve um tempo, durante os anos 1980, em que o cinema começou a produzir loucamente filmes direcionados a adolescentes e jovens adultos. Foi uma verdadeira virada de chave na indústria, que passou a entregar ao público mundial obras que se tornaram pequenos clássicos populares, como Gatinhas e Gatões, O Clube do Cinco e Curtindo a Vida Adoidado (todos de John Hughes), A Garota de Rosa-Shocking, O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, entre muitos, muitos outros.
Havia elementos em comum entre todos esses filmes, além do nicho. E um dos mais fortes é que ele repetia membros dos seus elencos, lançando atores e atrizes que se tornaram verdadeiras estrelas dessa época. Falamos aqui de gente como a onipresente Molly Ringwald, os rebeldes Judd Nelson e Demi Moore, os galãs Rob Lowe e Andrew McCarthy, os engraçados Anthony Michael Hall, Matthew Broderick e Jon Cryer.
Tudo parecia ótimo, até que o grupo ganhou um “nome” a partir de uma reportagem do jornalista David Blum, que em 10 de junho de 1985 publicou na New York um texto chamado “Hollywood’s Brat Pack”. O termo – um jogo de palavras engraçadinho com o chamado Rat Pack, apelido dado a um grupo de artistas populares entre as décadas de 1950 e 60, incluindo Frank Sinatra – ajudou a sedimentar a fama das jovens estrelas. Mas, por outro lado, grudou-os eternamente a um estereótipo que os impediu a trabalhar em outras coisas.
É esta a história contada em Brats, documentário “terapêutico” dirigido por Andrew McCarthy, um dos principais nomes do grupo. A obra, produzida pela plataforma Hulu, deriva de um livro biográfico de mesmo nome, e se propõe a realizar uma jornada em busca dos membros do “Brat Pack” para tentar entender o que ocorreu com eles e como o apelido os afetou profissionalmente.
De acordo com os envolvidos, terem sido colocados nesta categoria lhes trouxe fama, mas também os prendeu para sempre a um tipo de cinema adolescente que esteve no auge justamente nessa época, impedindo que eles fossem levados a sério para outros papéis (“brat”, aliás, poderia ser traduzido livremente como “pirralho”, “mal-educado” ou algo do tipo). Em certo momento, por exemplo, Emilio Estevez afirma ao diretor não seria possível imaginar um membro do Brat Pack sendo convidado para fazer um filme de Martin Scorsese.
‘Brats’: um passeio ao auge do cinema voltado aos jovens
Independente das consequências geradas pelo termo, o fato é que estes jovens atores e atrizes se consolidaram no imaginário de milhões de pessoas por estarem vinculados a filmes que são adorados até hoje. Ao invés de apresentar apenas uma lamentação, Andrew McCarthy é esperto o suficiente justamente para tirar vantagem desta memória afetiva.
Rob Lowe e Andrew McCarthy, membros do "Brat Pack".
Assim, Brats se apresenta como uma espécie de road movie light em que McCarthy percorre distâncias para conversar com antigos colegas – a maior parte deles, ele não encontra há cerca de trinta anos. Isso quebra, por exemplo, a ideia de muitos fãs de que este seria um grupo coeso de amigos que viveram sempre juntos.
Nesta jornada, ele consegue depoimentos de pessoas como Estevez, Rob Lowe, Ally Sheedy, Timothy Hutton (considerado o primeiro de todos os Brat Packers, por conta do filme Gente como a Gente, que lhe deu um Oscar em 1980) e Demi Moore (provavelmente a que se tornou a celebridade mais bem-sucedida do grupo). São, em boa parte, falas deliciosas que provocam um mergulho em detalhes de bastidores desconhecidos para os fãs. O próprio McCarthy, por exemplo, narra as suas inseguranças durante as filmagens dos longas que estreeou.
Emilio Estevez e Andrew McCarthy se reencontram em ‘Brats’. Imagem: Divulgação.
Também se destaca o fato de que o diretor conseguiu entrevistar o próprio David Blum, concretizando uma conversa franca, ainda que amistosa, em que ele reflete sobre como era impossível saber o quanto um trocadilho tomaria tamanha repercussão e atingiria tantas vidas. Há ainda falas de comentaristas culturais de renome, como o escritor Malcolm Gladwell, cuja fama se deu em partes por sua capacidade de enxergar tendências invisíveis no tecido social.
Para os fãs dessas produções (que fique claro: essa audiência vai muito além do público 40+), Brats configura alguns momentos de entretenimento adorável para relembrar o quanto estrelas do cinema podem agregar as memórias positivas de um tempo que já passou – mesmo que esse tempo seja apenas um filme.
Se você tiver a oportunidade de assistir o documentário 'Brats', assista. A visão que temos pelo Brat Pack, pelos "Brat Packs" é ampliada de uma forma incrível.
Se você acompanhou os jovens atores e a onda que eles "surfaram" em Hollywood, esse documentário vai te pegar com o maior apelo nostálgico possível. Mas se você não viveu essa época, se talvez nem tenha visto algum dos filmes em outro momento (o que é difícil), o documentário vai te apresentar o grupo e vai te fazer refletir sobre o impacto que eles foram responsáveis em uma geração, e o impacto que ele sofreram com "apenas" um nome que lhes foi atribuído.