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[20/09/26]
uma pornochanchada quase fora de época e é assim de propósito.
de certa forma, uma irmã uma década mais jovem (e alguns decibeis mais ousada em seu teor sexual) de Os Homens Que Eu Tive. é até engraçado assistir a esse filme enquanto acompanho a quarta temporada de Ted Lasso.
Onda Nova conta as peripécias de todo tipo das integrantes de um time feminino de futebol. pra quem não sabe, as mulheres foram proibidas de jogar futebol no Brasil entre 1941 e 1979. havia uma vista grossa feita em alguns casos, mesmo no período da ditadura, mas ainda era legalmente proibido. o filme pega uma onda (com o perdão do trocadilho) na liberação e ainda se propõe a dar uns golpes sem misericórdia na ditadura militar já começando a definhar (o que não impediu que o filme fosse censurado logo no seu lançamento).
a direção de arte, iluminação, cinematografia e figurinos desse filme são um absurdo... parece um sonho febril que tem toda a cara estereotípica dos anos 80 que associamos à cultura pop estadunidense, porém sem a esterilização. aqui tem sexo, drogas e rock'n roll, inúmeras referências à cultura pop internacional e também nacional — "você conhece Walter Hugo Khouri?" pergunta algumas vezes a personagem da Carla Camurati — e até mesmo uma quase estúpida tragédia que pega desprevenido, mas coloca o filme exatamente no contexto histórico onde ele se encontrava.
isso porque, tal qual Os Homens Que Eu Tive, os protagonistas dessa história parecem estar vivendo uma realidade alternativa onde muitas coisas só são questões para algumas pessoas. Onda Nova traz um bocado a mais de tensão, é verdade, mas mesmo essa tensão está envolta em um surrealismo visual irônico hilariante. Especialmente com o Patrício Bisso interpretando a mãe da Lili (eu soltei uma gargalhada na cena da peruca). um protesto sutil sem sutileza nenhuma e com pouca violência, ainda assim, contundente. quase um grito que já começa com o jogador Wladimir fantasiado de Madame Satã na cena de abertura que já joga a gente nessa atmosfera de sonho febril...
se poucos de nós, millennials, dão conta dessa onda, fico me perguntando o escândalo que seria para a geração Z assistir isso aqui rs.
ps.: os créditos iniciais são uma delícia e me fazem pensar como a galera é mais criativa com menos recurso rs.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
oxi, nem lembrava que tinha essa conta
[28/09/26]
A ficção é algo entre magia genuína e um truque de mágica, especialmente a ficção audiovisual. Talvez não seja no território da fantasia que a ficção mora, mas justamente nesse limiar entre fantasia e realidade, .
Querendo ou não, a ficção pode até ser moldada a partir da realidade, mas ela também molda como interpretamos a realidade — e isso pode ser positivo ou negativo, tudo depende de como fazemos isso.
É justamente nesse limiar entre realidade e fantasia que se passa A Hora Mágica e é nesse limiar também que vive o protagonista do filme, Tito Balcarcel, interpretado por Raul Gazolla. Seja visualmente na direção de arte, fotografia e figurinos, seja no texto em si ou nas interpretações, toda a narrativa esse filme é costurada com uma corda bamba localizada nesses limiares. Se você prestar bem atenção, talvez o filme te deixe na dúvida o tempo inteiro ao invés de te oferecer respostas.
Existem vários ingredientes aqui. O mais metalinguístico de todos é a radionovela. Mas há outros ingredientes. Há cinema noir, há um tempero Hitchcockeano, algo meio Vertigo para ser mais específico, há referências diretas a vários clássicos de Hollywood como A Múmia (o antigão mesmo), O Gabinete do Dr Caligari e até a ...E o Vento Levou. Mas a base desse prato é brasileira. Bem brasileira. Guilherme de Almeida Prado propõe aqui, com intrepidez, uma fábula que carrega vários temas e ainda dá conta de carregar os temas que nós, como público, projetamos nela.
Um filme primoroso e divertido — ainda que não seja exatamente de fácil digestão — que merecia muito mais reconhecimento. Inclusive, queria MUITO assistir ele em 4K.