[28/09/26] A ficção é algo entre magia genuína e um truque de mágica, especialmente a ficção audiovisual. Talvez não seja no território da fantasia que a ficção mora, mas justamente nesse limiar entre fantasia e realidade, . Querendo ou não, a ficção pode até ser moldada a partir da realidade, mas ela também molda como interpretamos a realidade — e isso pode ser positivo ou negativo, tudo depende de como fazemos isso.
É justamente nesse limiar entre realidade e fantasia que se passa A Hora Mágica e é nesse limiar também que vive o protagonista do filme, Tito Balcarcel, interpretado por Raul Gazolla. Seja visualmente na direção de arte, fotografia e figurinos, seja no texto em si ou nas interpretações, toda a narrativa esse filme é costurada com uma corda bamba localizada nesses limiares. Se você prestar bem atenção, talvez o filme te deixe na dúvida o tempo inteiro ao invés de te oferecer respostas.
Existem vários ingredientes aqui. O mais metalinguístico de todos é a radionovela. Mas há outros ingredientes. Há cinema noir, há um tempero Hitchcockeano, algo meio Vertigo para ser mais específico, há referências diretas a vários clássicos de Hollywood como A Múmia (o antigão mesmo), O Gabinete do Dr Caligari e até a ...E o Vento Levou. Mas a base desse prato é brasileira. Bem brasileira. Guilherme de Almeida Prado propõe aqui, com intrepidez, uma fábula que carrega vários temas e ainda dá conta de carregar os temas que nós, como público, projetamos nela.
Um filme primoroso e divertido — ainda que não seja exatamente de fácil digestão — que merecia muito mais reconhecimento. Inclusive, queria MUITO assistir ele em 4K.
[20/09/26] uma pornochanchada quase fora de época e é assim de propósito.
de certa forma, uma irmã uma década mais jovem (e alguns decibeis mais ousada em seu teor sexual) de Os Homens Que Eu Tive. é até engraçado assistir a esse filme enquanto acompanho a quarta temporada de Ted Lasso.
Onda Nova conta as peripécias de todo tipo das integrantes de um time feminino de futebol. pra quem não sabe, as mulheres foram proibidas de jogar futebol no Brasil entre 1941 e 1979. havia uma vista grossa feita em alguns casos, mesmo no período da ditadura, mas ainda era legalmente proibido. o filme pega uma onda (com o perdão do trocadilho) na liberação e ainda se propõe a dar uns golpes sem misericórdia na ditadura militar já começando a definhar (o que não impediu que o filme fosse censurado logo no seu lançamento).
a direção de arte, iluminação, cinematografia e figurinos desse filme são um absurdo... parece um sonho febril que tem toda a cara estereotípica dos anos 80 que associamos à cultura pop estadunidense, porém sem a esterilização. aqui tem sexo, drogas e rock'n roll, inúmeras referências à cultura pop internacional e também nacional — "você conhece Walter Hugo Khouri?" pergunta algumas vezes a personagem da Carla Camurati — e até mesmo uma quase estúpida tragédia que pega desprevenido, mas coloca o filme exatamente no contexto histórico onde ele se encontrava.
isso porque, tal qual Os Homens Que Eu Tive, os protagonistas dessa história parecem estar vivendo uma realidade alternativa onde muitas coisas só são questões para algumas pessoas. Onda Nova traz um bocado a mais de tensão, é verdade, mas mesmo essa tensão está envolta em um surrealismo visual irônico hilariante. Especialmente com o Patrício Bisso interpretando a mãe da Lili (eu soltei uma gargalhada na cena da peruca). um protesto sutil sem sutileza nenhuma e com pouca violência, ainda assim, contundente. quase um grito que já começa com o jogador Wladimir fantasiado de Madame Satã na cena de abertura que já joga a gente nessa atmosfera de sonho febril...
se poucos de nós, millennials, dão conta dessa onda, fico me perguntando o escândalo que seria para a geração Z assistir isso aqui rs.
ps.: os créditos iniciais são uma delícia e me fazem pensar como a galera é mais criativa com menos recurso rs.
[24/08/26] Desculpa, essa resenha vai acabar virando uma reflexão teológica cristã, mas não do jeito que você pensa... E lá vamos nós...
Comecei a ler neste fim de semana um livro sobre abolicionismo entre os cristãos milenistas nos Estados Unidos nos anos 1800 e o autor cita Manisha Sinha que disse que "a história da abolição começa com aqueles que resistiram à escravidão no seu princípio". Existe essa ideia de passar pano para escravocratas porque este era o normal da época, mas eu nunca compro muito essa narrativa justamente por causa disso.
O que isso tem a ver com um filme progressista brasileiro de 1973?
Esse filme é um testamento (de muitos) de que sempre existe quem questione o estado das coisas. A narrativa dominante nunca é a narrativa aceita por todo mundo e sempre há quem a questione, em qualquer tempo, em qualquer lugar. É parte da natureza do ser humano.
A gente usa muito a expressão "à frente do seu tempo" para designar essas pessos. Mas eu sinto que esse filme também serve pra dar uma rasteira nesse papo de que certas coisas são "modernas" e que houve momentos da história em que essas coisas não existiam.
Como eu sou um teólogo cristão, com uma leitura, em muitas perspectivas, conservadora da Bíblia, algum desavisado pode me ler falando assim e pensar: "mas você não tinha que execrar esse tipo de história, crente do rabo quente?"
Eu penso logo na história da mulher adúltera no texto bíblico (calma... continue lendo rs). Que muita gente lê e já diz: "é, mas Jesus disse: 'vá e não peques mais'". Daí eu penso também na cura da filha da mulher siro-fenícia, que até onde a gente sabe, não sabemos se virou uma judia convertida por conta do milagre de Jesus ou se virou cristã no sentido que entendemos cristianismo — se foi batizada, se congregou... Sabemos apenas que Jesus praticamente atravessou o país só pra curar a filha dessa mulher.
Jesus conhecia essas mulheres, quem elas eram, sua vivência, suas necessidades e sabia exatamente como elas eram tratadas por aquela sociedade. Antes de fazer qualquer coisa por elas, ele as enxergava em sua completude e complexidade.
Quando eu assisto "os Homens que eu tive" eu fico embasbacado com a perspicácia de Teresa Trautman, que transforma a Pitty numa desconcertante desconstrução de tudo o que a sociedade entende sobre relacionamentos e o papel da mulher neles. Sim, Teresa está defendendo uma visão, mas antes disso, ela está contando a história de um ser humano que não está presa a nada e a ninguém. E vou ousar a dizer: ela é desconcertante para nós homens, talvez não para muitas mulheres, e mesmo para as mulheres para quem ela seja desconcertante, acredito que esse "constrangimento" parta de um lugar completamente diferente.
No fim das contas, é muito difícil para um homem numa sociedade como a nossa, especialmente se for cristão, aceitar que o direito da livre escolha não é apenas um direito civil inalienável, mas mesmo numa perspectiva cristã, há o direito concedido pelo próprio Deus ao ser humano do livre arbítrio — o que implica inclusive no direito de não ser cristão, de não ter seguir princípios cristãos de qualquer ordem que seja, e isso inclui o direito das mulheres de seguir assim.
Mais ainda, o direito de seguir assim sem ser taxada de Jezabel (cujo pecado não era ter muitos homens, pelo contrário, era casada e monogâmica, seu pecado era ser cruel, violenta e assassina rs, coisa que tá cheio de homem na Bíblia que foi também rs). Esse rótulo de "prostituta", "meretriz" e "Jezabel" que se derrama sobre as mulheres é resultado de uma desumanização absurda do corpo feminino.
E é aí que se encontra a genialidade de como Teresa Trautman captura Pitty: uma mulher gentil, sensível, que ama e se preocupa com os seus. É um ser humano que, livre como é, não está amarrada a ninguém que não seja a si mesma. E sua liberdade tem um poder tão grande, que os homens que ela teve não têm outra escolha se não respeitá-la e amá-la de volta como ela é, mesmo quando, volta e meia se veem chateados caso ela fuja do combinado — afinal, ela é humana rs. Pitty faz, com transparência e honestidade, tudo o que os homens em muitos filmes e programas de TV daquela época faziam livremente, porém mentindo e posando como homens de família, enganando suas esposas (daí a extrema importância das outras mulheres da trama que possuem outros modos de viver) e ninguém os taxava de prostitutos — muitos inclusive defendiam que era uma necessidade masculina que precisava ser saciada rs.
"Nossa, Luz, mas e seus valores cristãos?" São meus, né? [E, olha... se você ler bem direitinho Provérbios 31, a mulher "virtuosa" — termo hebraico que quando traduzido para homens é traduzido como "valente" rs — é um arquétipo, mas está longe de ser o estereótipo de bela, recatada e do lar rs].
Você viu a Pitty em algum momento nesse filme indo à igreja?
[23/08/26] Finalmente um filme do Miranha do MCU! Em alguns momentos me senti vendo um filme dos anos 2000. No sentido nostálgico e positivo das coisas… embora volta e meia os efeitos pareciam dos anos 2000 tb rs mas nada de novo debaixo do sol de CGI/IA do MCU. Claro, não é completamente livre de MCUzificacões. Ainda assim fiquei majoritariamente feliz com o filme. E é ótimo finalmente ter um filme do Homem Aranha no MCU com um diretor que sabe filmar cenas de ação tb. Destin Daniel Cretton, vc merece sucesso 🫶🏾 odiei que tiraram Wonder Man (vulgo uma das melhores coisas do MCU) de vc. Zendaya, os nerds que te odeiam não merecem um bom filme do Spider Man! Espero que ela volte. Tom Holland meu problema nunca foi contigo, sempre foi com o Jon Watts e o MCU. Jon Bernthal 🫶🏾 dinâmica boa demais desses dois. Espero muito que aproveitem o Metzger no futuro pq desperdiçar o Tramell Tillman só nesse filme é um crime. Sadie Sink, vc já tem meu coração! Ansioso pelo que vem por aí.
[10/08/26] Eu já assisti vários filmes que desafiam a estrutura clássica de roteiro, seja por ambicionarem uma ideia grandiosa, seja por querer contar uma história fora de ordem, fora de órbita, baseada em símbolos... Mas todos eles cuidadosamente pensados, carregados de signos claramente desenhados para que sejam percebidos como signos.
Aqui, Glauber Rocha leva até às últimas consequências seu famoso lema: "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". Mas talvez ele sequer tivesse a ideia. Não acho que tinha. Descobri que não tinha.
A ideia nasceu na montagem. Eu demorei alguns minutos para entender que o áudio da primeira cena eram os créditos iniciais, que vinham junto com uma contextualização histórica e um discurso que parece tão improvisado quanto o restante do filme.
O resultado é um absurdo. Não é para qualquer um. Não é uma experiência que qualquer pessoa vai "tankar". Mas é um absurdo. É um absurdo assistir algo sabendo como nasceu e ainda assim não conseguir deixar de projetar na história sentidos e signos TÃO latentes, que parece impossível o improviso.
Apenas pessoas completamente entregues à sua arte, na técnica e nas vísceras, e, mais ainda: plenamente conscientes do chão que pisam e do mundo que habitam, conseguiriam entregar um improviso tão bem montado. Os diálogos e o posicionamento dos atores parecem saídos de um palco de teatro, e a câmera de Glauber parece saber EXATAMENTE pra onde ir e o que contar dessas cenas.
As discussões propostas parecem ter sido escritas para refletirmos sobre o que está acontecendo hoje... literalmente 58 anos depois. Isso me maravilha e me aterroriza em mesma medida. A maravilha do quão afiados são os atores — especialmente Antônio Pitanga — e o Glauber. O terror de perceber que o cotidiano violento que eles capturaram permanece vivo, pulsando, ainda precisando de ser denunciado, discutido e eviscerado exatamente da mesma forma.
Talvez, se tivesse sido roteirizado antes de ser gravado, este "Câncer" nunca teria sido eternizado. Queria eu, que ele tivesse ficado tão obsoleto quanto as pessoas desavisadas e amantes da perfeição performada talvez achem que ele é.
A propósito, avaliar esse filme com estrelas seria um insulto à sua memória. Talvez eu metesse cinco balas, se eu fosse de pegar em armas...
[04/08/26] Por mais organizada e influente que seja uma instituição religiosa, suas bases teóricas e práticas eclesiásticas nunca são cercas resistentes o suficiente para conter a experiência do fiel em seu cotidiano. No fim, o fiel deve sua fidelidade ao Sagrado que encontra no seu dia a dia e não exatamente ao que é dito no sermão do culto de sábado ou domingo. Afinal, o sermão será interpretado a partir do Sagrado do dia a dia.
Como teólogo que alimentou suas aspirações ao pastorado, eu achei que essa era uma realidade que precisava ser aceita para que o meu pastoreio fosse, de fato, um ministério de serviço a Cristo e aos seus seguidores.
Me peguei pensando que muita gente se comporta como Padre Olavo, mas a fé mais impressionante é sempre a do Zé do Burro. Só que o mundo Ocidental moderno que se construiu no lastro de uma religiosidade usada para justificar a violência, não sabe lidar com a simplicidade retumbante da fé de Zé do Burro.
Isso dentro da igreja. Fora dela, deus é o lucro, o espetáculo, a atenção e o poder exercido a partir do prazer. Às vezes, até quando a fé diz que o melhor é ajudar, muitas vezes exercemos essa ajuda com base em uma projeção do que achamos que o outro precisa e não na sua necessidade de fato.
Mas no fim das contas, podemos fechar a porta da igreja, cobrar o quarto de hotel e a comida do bar, podemos enclausurar uma pessoa com palavras numa manchete, podemos admirar pessoas que não querem ser admiradas... Ainda assim, não temos como controlar a escadaria pública.
"O Pagador de Promessas" é um retrato, um manifesto e uma pergunta que, com enquadramentos impecáveis e um coração cultural pulsante, me deixou sem palavras diante do Sagrado e também diante do poder — para o bem ou para o mal — do coletivo.
[19/07/26] Christopher Nolan me fez chorar num filme dele, por causa de um monólogo que ele escreveu e isso é digno de nota. Digno de nota porque, apesar disso, ainda acho sim que A Odisseia obviamente carrega muitos dos vícios de roteiro dele que eu menos gosto, especialmente no primeiro terço do filme. Eu estou no processo de ler o poema Odisseia. Já tinha lido uma versão em prosa da história e assistido outras adaptações na infância que nunca esqueci — eu tenho gravada a cena do Ciclope da adaptação de 97 na minha mente até hoje.
O fato é que, pela primeira vez, eu gostei do que Nolan tinha a dizer num filme dele. Não me entenda mal. Eu gosto de muitos outros filmes dele. Eu gosto do enredo de O Grande Truque, da estrutura de roteiro de Amnésia, das cenas épicas de A Origem, da simplicidade eficiente de Insônia (que considero subestimado), gosto muito de Batman Begins (acho subestimado também) e, claro, de O Cavaleiro das Trevas. Gostei muito de Oppenheimer também — cheguei a lacrimejar de raiva e tristeza na cena em que escolhem as cidades que vão bombardear. Mas até então, eu sempre achei as lições narrativas dos filmes dele ou vazias e piegas (como acho Interestelar rs) ou até ideologicamente problemáticas (não tem como eu, um homem preto com consciência racial, gostar da decisão de colocar um herói se sacrificando para que as pessoas continuem confiando cegamente em messias políticos).
Mas eu gostei MUITO de como Nolan ressignifica A Odisseia nesse filme. Eu gosto muito da desconstrução da ideia de herói, de guerra, de conquista. Eu gosto de como ele respeita MUITO SIM o material fonte, ao mesmo tempo em que o desconstroi e o questiona e resgata aspectos da história original que uma leitura superficial perde. Eu vou defender até o fim a escolha de um elenco diverso, tanto por eu entender a diversidade racial que existia naquela região do mundo — reconhecida inclusive no poema original — quanto porque a escolha de um elenco diverso está completamente alinhada à mensagem central do filme.
Eu gosto de como (quase) todo mundo, mesmo os que aparecem em apenas um par de cenas, têm a oportunidade de brilhar aqui de um jeito ou de outro. John Leguizamo ícone que poucos vão comentar, mas entrega uma das melhores performances do filme. A única que achei desperdiçada foi a Charlize Theron, cuja personagem aqui tem mais uma função estrutural de roteiro do que ser uma personagem em si.
As sequências de Circe e Hades são espetaculares (a cena de Polifemo tem coisas que amo e coisas que não gosto rs), tal qual algumas cenas de Tróia também. Excelente uso de efeitos práticos, de estranheza, de tensão e, em alguns casos, até de body horror.
Dito tudo isso, tenho minhas ressalvas: Acho a estrutura do roteiro a princípio bagunçada. O filme melhora muito quando resolve focar, ao invés de ficar pulando de um lugar para outro. O vício do Nolan no diálogo explicativo permanece. Em algumas cenas é necessário, em outras excede a ponto de ficar piegas ou irritar. Muito poderia ser mais mostrado do que dito. Me incomoda eu conseguir enxergar muito perfeitamente as decisões de roteiro tomadas para explicar para o público o que está acontecendo, ao invés de contar a história de uma maneira mais emocional e simbólica. O filme seria ainda mais poderoso se Nolan se permitisse a isso.
Algumas escolhas de direção também me incomodaram. Eu até entendo a direção de tentar colocar tudo no ponto de vista humano e perspectiva dos personagens, mas a "câmera na mão" em várias sequências de ação, especialmente em IMAX, me irritou profundamente. Ele brilha mais quando faz os planos sequência seguindo Odisseu. Muitas cenas de ação seriam muito melhores se ele tivesse escolhido ser mais ousado em coreografias elaboradas que permitissem uma câmera estável com planos mais longos que nos permitissem contemplar a ação.
Apesar de admirar a insistência nos efeitos práticos a todo custo, eu senti falta sim de cenas que fossem de fato grandiosas e VISUALMENTE me tirassem o fôlego. Isso sempre foi um problema dos filmes dele pra mim, com exceção de uma cena ou outra: não adianta gastar milhões em efeitos práticos e sets absurdos para mostrar tudo de maneira pequena, pouco inventiva, em enquadramentos super conservadores, composição pobre ou câmeras tremidas. (Meu problema com a cena do Polifemo tá nisso). Não consigo deixar de pensar que um Villeneuve, um George Miller ou um James Cameron, um Alfonso Cuarón, até mesmo Ridley Scott (que mesmo em seus filmes ruins nunca deixa de entregar espetáculo) entregariam muito mais com os mesmos sets, efeitos e sequências.
A falta de cor e vida e imaginação nos figurinos e sets nem me incomodou tanto porque no fim servem melhor à história que ele resolveu contar. Mas eu fiquei o tempo inteiro com a sensação de que o grande épico do Christopher Nolan poderia ser AINDA MAIS épico se ele se entregasse a mais imaginação e menos apego ao pé no chão — algo do qual tivemos vislumbres tímidos em A Origem e Interestelar em suas melhores cenas, mas não sei se vi aqui...
Enfim, fui de peito aberto à experiência e valeu muito à pena ter visto. Eu diria inclusive que esse filme, para além de grandioso em vários sentidos, tem uma mensagem necessária para nosso tempo. Apesar disso, não vou deixar de dizer: nem mesmo com esse filme, nenhum fã do Nolan vai me convencer que ele de fato é o maior diretor da geração dele rs.
[28/06/26] Me deu vontade de rever a cena do planeta dos vagalhões e acabei vendo o filme inteiro de novo. E, de novo, achei uma lenga lenga rs. Mas hoje em dia eu sei articular melhor o que eu gosto nesse filme e o que eu não gosto.
Vou começar pelo positivo: o ponto alto do filme, em TODOS os sentidos, é a cena supracitada. Você tem os riscos emocionais em seu ápice, você tem um espetáculo visual unido à tensão e ao terror diante do espaço, de um planeta desconhecido e da teoria da relatividade, e quando Cooper e Amelia voltam para a nave e encontram o colega de tripulação mais velho e sem esperança e ainda emenda na cena do Cooper vendo os vídeos da família, uma sequência de partir o coração, a cena emocionalmente mais memorável do filme.
Aí eles saem desse ápice emocional para uma das sequências mais chatas (e visualmente feias) do filme. Eu disse isso na época que vi pela primeira vez e repito: a sequência no planeta do Matt Daemon são quase 30 minutos de filme que poderiam ser cortados e não fariam falta nenhuma. Ou talvez fizessem, pois tiveram que inventar uma tensão artificial numa história que não tinha quase nenhuma.
Quando converso com pessoas que amam esse filme, a impressão que tenho é que, assim como para mim, para elas o filme é feito de momentos muito marcantes, mas que carece de um arco narrativo coerente e de fato emocionante.
Além do que já citei acima, eu acho alguns momentos visualmente espetaculares. A travessia do buraco de minhoca, todo o clímax no buraco negro, os efeitos visuais, várias das atuações. Mas eu tenho uma dificuldade enorme de me engajar na narrativa em si.
Até mesmo a reviravolta de enredo, que costuma ser uma das assinaturas de roteiros do Nolan, eu acho chata e previsível. No momento que vi os livros caindo quando o Cooper tentava se despedir de Murphy eu entendi que, eu não sabia como, ele era o "fantasma". Acho piegas também toda a coisa do amor atravessar as dimensões de espaço tempo. É uma mensagem bonita, mas jogada completamente do nada num filme que estava se vendendo como super cientificamente correto — uma mensagem que é muito melhor integrada na história em "A Chegada", por exemplo.
E, claro, o filme sofre de coisas que são problemas de todos os filmes do Nolan: os diálogos super explicativos, personagens femininas cujo drama gira em torno unicamente dos homens da vida delas (no caso da Murphy, o pai), falta de inventividade na narrativa visual — filme bonito é diferente de filme cujos visuais contam a história. Nolan sabe criar espetáculo visual, mas a composição visual dos filmes dele raramente parece intencional e criativa de fato. E aqui nenhuma dessas coisas é exceção. Enfim, a lista continua, mas é isso...
Acho que eu gostaria mais desse filme se ele fosse pelo menos uma meia hora mais curto.
[24/12/26] Será que Damian recebeu muitos comentários sobre os desfechos de suas histórias para fazer um comentário metalinguístico assim? rs Me parece que sim. Ou talvez seja uma autorreflexão mesmo rs.
Embora ele se arraste em alguns momentos e caia um tico no brega em outros poucos, ainda acho um filme tão sólido quanto os outros do autor. Aqui, inclusive, os personagens são um pouco mais espertos que nos outros dois. Eu gosto também que ele traz uma perspectiva diferente para o "terror de trauma/luto", menos Ari Aster ("Hereditário", "Midsommar") e mais Jennifer Kent ("O Babadook") ou David Bruckner ("O Ritual"). De novo é uma história criativa, de novo, na maior parte do tempo, é difícil de prever para onde vão as coisas. Isso pode provocar um pouco de narizes torcidos por ter muitos elementos juntos, mas acho que é justamente isso que torna "Caveat" e "Hokum" tão interessantes. "Oddity" ainda é um pouco mais enxuto, embora também misture gêneros.
[24/06/26] Tal qual em Oddity, tem algumas decisões dos personagens que vc precisa suspender a descrença pra aceitar o plot. No caso desse aqui, é logo no início essa decisão.
Passando disso... cara. Eu amei.
Tem uma mistura muito boa de familiaridade e originalidade em como Damian McCarthy constrói suas narrativas. Ele usa recursos do suspense e do terror que são antigos, já bem estabelecidos, mas ainda eficazes, ao mesmo tempo em que atinge a gente com ideias narrativas que fazem com que seja difícil prever onde a história vai dar (mesmo se você sacar as reviravoltas, ainda sobra muito de intrigante para tentar descobrir onde vai parar) e isso é excelente para o terror. Ele sabe usar a dúvida, a escuridão, o visível e o invisível, o estranho... A equipe de design de produção dele é excelente... as pinturas, o coelho, tudo com um design que serve muito bem à bizarrice da narrativa.
[24/06/26] Walter Hugo Khouri coloca Júlia o tempo inteiro dentro de reflexos de si mesma ou presa dentro de redes, ou afundada em sombras como as de onde ela sai logo na primeira cena. E esse é apenas um exemplo de como Khouri sabe muito bem filmar. Este é meu segundo filme dele e ele é um dos nossos mestres em criar atmosfera a partir de imagens.
O começo do filme guia o público para um estado de constante dúvida e paranoia, que nos faz questionar o tempo inteiro se podemos confiar em algum desses poucos personagens. Lendo alguns comentários, concordo que, de fato, o filme parece perder algumas dessas qualidades em seu decorrer, mas eu defendo que a verdade é que ele está propondo alguns temas que permanecem relevantes. Volta e meia isso faz com que o filme perca um pouco de ritmo, mas não o suficiente para que eu o considerasse maçante.
Curioso também este filme ser do mesmo ano que "Vertigo" do Hitchcock, uma vez que são filmes que possuem temáticas em comum. Aliás, "Estranho Encontro" também me lembra em alguns sentidos de "Rebecca", também do Hitch.
Tematicamente falando eu gosto de algumas decisões tomadas aqui e, por mais que talvez isso seja projeção minha sobre as coisas, sinto que ele é um filme à frente do seu tempo: um filme onde os homens são quebrados e quebráveis de um jeito ou de outro, enquanto as mulheres são a bússola e o pilar que os sustentam.
[22/06/26] Que a ficção científica, no fim das contas, serve para discutirmos profundas questões humanas, todos já sabemos. O que o filme do Tarkovsky propõe é a máxima disso. Ele vai até as últimas consequências dessa ideia. Enquanto coisas emergem de um Oceano, as questões que ele levanta — e são muitas, e são ambiciosas — são um torvelinho que puxa a gente cada vez mais pra baixo e nos faz, tal qual numa cena específica do filme, encarar um espelho repleto de perguntas e escasso de respostas.
Ainda vou precisar de uns dias (e talvez uma ou outra reassistida) pra absorver tanta coisa.
[20/06/26] Se alguém me dissesse que esse filme se passa no mesmo universo do excelente livro Torto Arado do Itamar Vieira Junior, eu acreditaria. Tem muito de Bibiana e Belonísia na relação entre Racine e Anaia.
A maioria dos filmes baseados em peças teatrais que eu assisti eu consegui imaginar como aquela história pareceria no palco. Eu ainda estou me perguntando como algumas coisas nesse filme são na peça e não consigo respostas. E isso é impressionante, especialmente levando em conta que essa é a estreia cinematográfica de Aleshea Harris, que é também a escritora e diretora da peça.
Em "Is God Is" Aleshea costura vingança, road movie, fábula, southern gothic, religião, mitologia, ação, suspense e um monte de outras coisas com uma esperteza afiada, uma língua ferina. Parece que estamos vendo uma história muito familiar. Vimos vimos muitas outras histórias de vingança, ou ainda, nos anos recentes, histórias de mulheres se desvencilhando da violência e do legado de homens poderosos que saem impunes. E se você me perguntasse: "o que essa traz de diferente?", eu não saberia te responder, mas te diria que é diferente.
Existe texto aqui, mas o texto não funciona como uma narração do que já estamos vendo em tela. Ao mesmo tempo, não é um jeito comum de se ver uma história sendo contada no cinema. É uma história extremamente violenta e pesada, mas Aleshea escolhe não explorar a violência como um fator de choque. Não, ela não é tão barata aqui. Aqui ela é uma ideia, um conceito e há muito a ser dito sobre. Uma review que eu li conseguiu sumarizar bem: parece uma história em quadrinhos, daquelas graphic novels premiadas.
A câmera e as cores sabem bem o que querem. Assim como as atuações. Os atores veteranos nesse filme não me surpreende que arrebentem, mas eu amei conhecer Kara Young e Mallori Johnson. As duas são forças da natureza e espero vê-las muito mais daqui pra frente.
Se eu fosse resumir, acho que, talvez, o que torne essa aqui diferente, seja que Aleshea não parece tão ambiciosa. Ela parece não querer reinventar a roda na estrutura. Mas a camada mais superficial estética que cobre essa receita e a massa lá no fundo, em sua base, são ambiciosas e ousadas o suficiente para sustentar o recheio.
Quero também ver mais de Aleshea Harris. Quero ver mais histórias de mulheres negras no cinema. Cada uma de seu jeito e seu tema, eu não consigo deixar de ver Aleshea de mãos dadas, lado a lado com Zoe Kravitz e seu "Blink Twice", Melina Matsoukas e seu "Queen & Slim", Nikyatu Jusu e seu "Nanny", Nia DaCosta e seu "Candyman"... Precisamos de mais delas no cinema.
[04/06/26] Eu gostaria muito de ter assistido esse filme sem spoilers. Primeiro que o próprio título do filme (que é o título também do livro) eu considero já um spoiler. Eu fico imaginando como seria assistir sem saber a premissa, provavelmente seria uma experiência ainda mais intrigante e estressante.
Mas mesmo já sabendo o que viria por aí, o filme conseguiu ainda me deixar tenso e estressado. O fato de ser outro cenário e outros personagens (em comparação à versão dos anos 90 que já tinha assistido) ajudou, mas além disso, o filme é excelente em criar uma crise que seja assustadora pela inevitabilidade.
Não existe para onde fugir. O desespero, o terror, a paranoia, tudo isso cria uma tensão e desesperança latentes na construção que é lenta, porém intrigante desde o início dessa narrativa. A direção de Phillip Kaufman e sua parceria com o fotógrafo Michael Chapman é inventiva, inteligente e sabe se adaptar ao que a cena pede com louvor. Uma aula de construção de tensão e impacto visual. As atuações ajudam bastante também, inclusive a criar personalidade para os personagens. A química entre Donald Sutherland e Brooke Adams é essencial pro filme funcionar, até porque acho que grande parte da personalidade e vida dos personagens está mais nas atuações do que no roteiro em si, que, por sua vez, não investiu tanto neles quanto pretendia, mas as atuações e direção salvam muito e criam empatia o suficienta pro horror do filme funcionar lindamente.
[04/06/26] A estrela desse filme é a direção do Abel Ferrara e a fotografia do Bojan Bazelli. Eu poderia fazer um textão inteiro só sobre como eles criaram uma narrativa original, incômoda, complexa e cheia de nuances visuais excelentes. Fiquei impressionado também em como conseguiram criar uma história muito diferente das versões anteriores, com bastante originalidade e ainda assim com diversas referências visuais e no texto ao filme de 1978.
O enredo em si, e como ele é apresentado, está repleto de momentos excelentes, incômodos. Um tipo de terror do incômodo mais do que do body horror (embora tenha um pouco disso também) e mais do que do medo. Mas na estrutura geral, sinto que o roteiro está tentando muito fazer com que a gente se conecte com essa família, mas falha em criar uma conexão real. Parte disso está no roteiro, que, ao mesmo tempo que em sua estrutura geral foge um pouco de vários clichês do gênero, nos detalhes e nas relações interpessoais se refugiam num espaço extremamente seguro e cheio de frases prontas e que já vimos milhares de vezes em outras histórias. Mas parte do problema está nas atuações... algumas são ótimas, outras nem tanto e estas acabaram me tirando um pouco da história. Na minha opinião, isso impede o filme de chegar no nível de envolvimento da versão dos anos 70 (que foi a única outra que assisti).
Ainda assim, gosto também de como o roteiro subverte algumas coisas do original e tira a história do horror e da conspiração governamental mais generalizada pra acrescentar algumas camadas de crítica mais contundente e específica ao exército e à ideia de família tradicional americana. Vi um comentário que faz muito sentido também: aqui, Ferrara escolhe sexualizar o processo do sequestro do corpo de uma forma que os seus predecessores não faz. Existe uma conotação mais sexual e sensual que, talvez, ele tenha até se inspirado em Alien pra colocar aqui.
Por mais que eu não tenha achado um filme perfeito, todas as qualidades fazem com que eu o considere uma versão subestimada dessa história, que merecia mais reconhecimento.
[25-05-25] Tem uma fração de segundo nesse filme que é o ponto de vista de um carro se aproximando de uma multidão. A câmera provavelmente foi amarrada num carro ou algo assim para criar o efeito... talvez junto com o zoom. E esse é apenas um dos vários momentos onde a câmera é usada de forma criativa que claramente deu trabalho naquela época.
Essa fração de segundos e algumas outras coisas visualmente impressionantes neste filme de 1957 me fizeram pensar que filmes grandes, de grandes franquias atuais, raramente entregam o mesmo nível de ousadia e cuidado no básico da direção. Eles entregam efeitos visuais, fantasia, pipoca... Mas as equipes não parecem ter tempo, nem liberdade para ter cuidado com coisas básicas do cinema como fotografia e edição.
Mais uma vez: é sempre incrível ver bases e tropos que depois seriam repetidos em grandes filmes e séries ainda lembrados hoje como "Invasores de Corpos" ou "Arquivo X".
Gosto também da implicação intencional ou não do cientista americano (embora na série original ele fosse britânico mesmo) ambicioso. Embora aqui ele seja menos "cientista maluco maquiavélico" do que no primeiro filme, o projeto de Quatermass ainda é responsável por parte do problema.
[24/05/26] É impossível não pensar no fato de que este filme foi lançado pouco mais de um mês depois do início "oficial" da Corrida Espacial. Me deu curiosidade, inclusive, de assistir à série na qual o filme é baseado para entender o desenvolvimento da visão desse conto que, tal qual muitos sucessores desse filme, é uma fábula cautelar sobre a arrogância humana ao explorar os limites da ciência e do poder.
Embora o filme perca um pouco de ritmo aqui e ali, eu achei um excelente horror sci-fi. É bem fotografado e dirigido, sabe construir tensão e suspense, é intrigante e tem um design de produção ótimo, achei ótimos os efeitos também, especialmente para a época, e como a edição e a direção contornam as limitações. Fora o fato de que o filme estabelece terrendo pra muita coisa que vem depois.
[20/05/2026] Eu já assisti filmes da Marvel muito piores e que fizeram sucesso de crítica.
De fato o roteiro é bem falho. Parece não conseguir criar um fio narrativo. E até entendo depois de saber que o plano original era um épico de 4h. Da pra ver que o enredo, especialmente no meio tem dificuldades de estabelecer um ritmo, de aprofundar as várias questões levantadas e de abordar conflitos interessantes para além da pura e simples apresentação dos fatos.
Mas, honestamente!? Não sei se foi pq assisti em IMAX e foi um ESPETÁCULO, mas eu gostei de MUITAS COISAS nesse filme. A começar pela direção do Antoine Fuqua e a cinematografia do Dion Beebe: o filme tem cor, tem textura, tem composições interessantes (que não são todas centralizadas), a câmera CONTA a história de verdade, se move tão rápido como os pés do Michael quando precisa, se distancia quando precisa e fica DESCONFORTAVELMENTE próxima dos rostos dos personagens quanto precisa. O que me leva ao excelente trabalho de edição e das atuações. Edição narrativa ótima! Vi muita gente criticando o Jafaar Jackson, e vou defendê-lo: é impossível interpretar Michael Jackson sem que vez ou outra pareça uma caricatura por conta da natureza peculiar de quem ele era, mas para um ator estreante, Jafaar faz um trabalho super decente, especialmente nos momentos em que precisa. Não tem overacting, nada. Eu fiquei particularmente impressionado com Juliano Valdi, que criança talentosa, não só pra cantar e dançar, pra atuar também.
E todos esses elementos se unem para criar ótimos momentos! De fato, como obra completa, a estrutura da história deixa muito a desejar, é episódica e tem pouco estofo dramático, mas quando a narrativa como um todo audiovisual acerta, ela acerta MUITO! Tem muito sendo dito pela câmera e não pelo texto, e isso é mais do que se pode dizer pra grande maioria dos blockbusters atuais.
É perfeito!? Longe de ser, mas na minha opinião o filme está sofrendo com uma expectativa de que fosse uma cinebiografia exploratória, carregada de polêmica e perseguição a quem Michael era, assim como foi em vida.
Definitivamente não é bom como o primeiro. O ritmo é menos interessante e as protagonistas estão um pouco menos inteligentes, mas a Samara Weaving ainda é maravilhosa e a Grace continua sendo uma boa personagem. Mas o importante é que me diverti.
[07/05/2026] Terceira vez. Eu gostei mais dele na terceira vez do que na segunda.
E sim, eu tenho mania de rever filmes quando estou procurando uma vibe específica, mas é muito difícil achar filmes nessa vibe — e também estava procurando inspiração de clima para um conto que estou escrevendo.
Algumas coisas:
1 - Existem aspectos da história que só entendi na terceira vez assistindo. Há explicações que estão no roteiro, mas é praticamente impossível você pegar na primeira vez, e talvez até na segunda. Entendê-las melhor me fez gostar um pouco mais do plot twist do que eu tinha gostado nas duas primeiras vezes;
2 - David Prior merece muito, mas MUITO mais reconhecimento como diretor. Ele emula muito do seu mentor e xará David Fincher, mas ele tem MUITO da própria criatividade e visão ali. Ele é um diretor ambicioso, criativo e BEM SUCEDIDO na maior parte do tempo;
3 - De novo, ficou evidente pra mim algo do racismo do Lovecraft que acho que contaminou toda a ideia da mitologia do horror cósmico. É fascinante, claro, especialmente para quem gosta do mistério e do horror do desconhecido, mas ao mesmo tempo, ideologicamente, acho problemático. Vou ter que fazer vídeo sobre isso depois;
4 - De fato, não é um filme pra qualquer um, porque você tem que gostar previamente dessa pegada de filme pra conseguir curti-lo da primeira vez, e só curtindo da primeira vez você volta pra segunda e entende melhor a história;
5 - Continuo achando algumas coisinhas bregas o suficiente pra estragar um pouco a vibe. Eu entendo a motivação narrativa para os efeitos de "interferência de transmissão", mas acho que não precisava rs, tira um pouco a elegância visual que Prior constroi. E LaSombra como sobrenome tb não me desce KKKKKK deve soar bem legal pra falantes nativos de inglês que não entendem línguas nativas. Pra gente..................... brega
Enfim. Sim, sou fã desse filme, mas tenho uma relação ambígua com ele. E acho que ele é subestimado, mesmo tendo virado cult.
Eu nem vou dar uma nota pra esse doc pq, apesar de eu ter criado expectativas diferentes e achar que poderia ser muito mais interessante, eu fico pensando nas nuances da própria existência desse projeto e vem aí um textão que eu não sei onde colocar senão aqui.
Eu me interessei por ele porque apareceu o trailer pra mim no YouTube. Eu amo "O Clube dos Cinco" e eu nem sabia que tinha existido esse movimento midiático naquela época apelidando a jovem Hollywood de "Brat Pack", logo, quis saber do que se tratava. E isso já diz muito sobre os temas abordados.
Confirma algo que já sabemos, mas é sempre bom lembrar: como a indústria do entretenimento estadunidense é autocentrada. Sim, a mídia brasileira especializada em cinema usava o termo — eu pesquisei, encontrei 19 ocorrências no Estadão e 6 na Folha de São Paulo de 1985 até hoje. Mas o fenômeno em si tinha outras concorrências no resto do mundo, então, ouvir Rob Lowe falando que eles conseguiriam vender Wembley tal qual os Beatles me deixou: "hm, amigo... talvez não nos empolguemos?"
Outra coisa que fica muito óbvia no decorrer da trama, é como esse documentário não é uma visão externa com uma intenção de explorar o fenômeno sociológico em si — embora a melhor parte do documentário seja justamente na parte em que essa perspectiva é abordada. Ver Andrew McCarthy viajar os Estados Unidos para encontrar outros membros do Brat Pack para falar do assunto deixou óbvio o quanto este é um projeto de catarse pessoal pra ele. E isso me deixou com um sentimento ambíguo.
Uma parte de mim se pegou constrangida e inclinada a concordar com a galera que criticou o doc, porque de fato, ele soa às vezes como "ator branco padrão privilegiado tenta fazer reunião de turma pra tentar confrontar os próprios traumas advindos dos grandes problemas que a fama lhe proporcionou na juventude" (e é juventude mesmo, porque ele já tinha 22 anos na época). E fica claro que, pra maioria dos outros membros dessa turma, a experiência foi bem menos negativa. Fica naquele sentimento meio constrangedor de ver alguém tentando se conectar com antigos colegas do Ensino Médio, mas agora eles têm pouco em comum e não se importam tanto. Alguns dos encontros são mais calorosos (e eu amo que um desses é justamente com a mais famosa de todos, a Demi), outros um pouco mais desconcertantes.
Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que para Andrew a experiência foi pior do que para os outros. Você consegue fazer as comparações entre as vizinhanças, as casas onde cada um mora, os locais de encontros e perceber o quanto deu mais certo para uns do que para outros. Quando comecei o documentário, eu pensei: "de onde conheço esse cara?". Lembrei que foi de "13 Reasons Why" rs. E, no fim, ele de fato não sobreviveu tão bem no cinema quanto outros membros do grupo como a Demi Moore ou o Emilio Estevez (que, não vamos esquecer, era um Nepo Baby). Até mesmo o Rob Lowe ou o Jon Cryer tiveram carreiras bem melhor sucedidas depois de mais velhos. Isso sem contar atores que não eram do "bando", mas que eram adjacentes e associados a eles, como Tom Cruise, John Cusack e Robert Downey Jr. que tiveram carreiras invejáveis.
Mas é possível também ver o quanto a Ally Sheed (que, juro, só vi mais velha numa ponta em X-Men Apocalypse) e o Timothy Hutton (que arrebentou como a versão mais velha do Hugh em The Haunting of Hill House) se conectaram mais com o Andrew, por também terem sentido que aquele rótulo feriu a carreira deles. E isso me deixou criar empatia por ele. Por mais que eu ainda enxergue que muito daquilo partiu de um ego ferido de um branco padrão, de uma alma jovem que não soube navegar nas oportunidades que foram oferecidas, eu consigo me relacionar com o sentimento de algo que foi positivo para outros e talvez nem tivesse sido tão ruim assim, marcar de forma muito profunda e negativa uma pessoa. Não dá pra negar que a natureza selvagem do mercado de Hollywood torna aquilo um ambiente no qual nem todo mundo consegue sobreviver bem. No fim das contas, eu consigo humanizar o Andrew e enxergar como ser chamado de moleque numa época em que você está tentando se firmar como um profissional sério pode criar um nó psicológico que te trave e trave suas oportunidades numa indústria tão competitiva. [Fiquei pensando também, no quanto as grandes celebridades que conhecemos hoje podem sobreviver ao tempo, mas daqui 35 anos pode ser que alguem na casa dos 30 nunca tenha ouvido falar do Timothee Chalamet, do Paul Mescal ou do Jacob Elordi rs].
Então, por mais que eu ache que um documentário sobre esse assunto podia ser MUITO interessante, bem produzido e melhor escrito, eu também consigo apreciá-lo pela obra intimista que ele é. Aliás, apesar de a princípio ter me incomodado um pouco, no fim achei inteligente da parte do time de Fotografia filmar quase como se fosse um filme amador mesmo. E tem algumas decisões de direção bem interessantes — embora nada super inspirador ou inovador.
Fico feliz que, pelo menos ao que me pareceu, talvez Andrew tenha encontrado sim uma catarse necessária (ele já tinha até escrito um livro que inspirou o doc rs). E, no fim das contas, muito do que nós que somos contadores de histórias queremos fazer, é encontrar um modo de nos curar de coisas que nossos egos mais jovens vivenciaram. Bom pra ele! rs
A coisa que mais gostei de aprender com esse doc foi o fato de que essa era dos filmes adolescentes, dos filmes do Brat Pack e de John Hughes foi o início do cinema adolescente e jovem adulto, porque antes as histórias não levavam adolescentes e jovens à sério.
A Hora Mágica
3.1 10[28/09/26]
A ficção é algo entre magia genuína e um truque de mágica, especialmente a ficção audiovisual. Talvez não seja no território da fantasia que a ficção mora, mas justamente nesse limiar entre fantasia e realidade, .
Querendo ou não, a ficção pode até ser moldada a partir da realidade, mas ela também molda como interpretamos a realidade — e isso pode ser positivo ou negativo, tudo depende de como fazemos isso.
É justamente nesse limiar entre realidade e fantasia que se passa A Hora Mágica e é nesse limiar também que vive o protagonista do filme, Tito Balcarcel, interpretado por Raul Gazolla. Seja visualmente na direção de arte, fotografia e figurinos, seja no texto em si ou nas interpretações, toda a narrativa esse filme é costurada com uma corda bamba localizada nesses limiares. Se você prestar bem atenção, talvez o filme te deixe na dúvida o tempo inteiro ao invés de te oferecer respostas.
Existem vários ingredientes aqui. O mais metalinguístico de todos é a radionovela. Mas há outros ingredientes. Há cinema noir, há um tempero Hitchcockeano, algo meio Vertigo para ser mais específico, há referências diretas a vários clássicos de Hollywood como A Múmia (o antigão mesmo), O Gabinete do Dr Caligari e até a ...E o Vento Levou. Mas a base desse prato é brasileira. Bem brasileira. Guilherme de Almeida Prado propõe aqui, com intrepidez, uma fábula que carrega vários temas e ainda dá conta de carregar os temas que nós, como público, projetamos nela.
Um filme primoroso e divertido — ainda que não seja exatamente de fácil digestão — que merecia muito mais reconhecimento. Inclusive, queria MUITO assistir ele em 4K.
Onda Nova
2.9 55 Assista Agora[20/09/26]
uma pornochanchada quase fora de época e é assim de propósito.
de certa forma, uma irmã uma década mais jovem (e alguns decibeis mais ousada em seu teor sexual) de Os Homens Que Eu Tive. é até engraçado assistir a esse filme enquanto acompanho a quarta temporada de Ted Lasso.
Onda Nova conta as peripécias de todo tipo das integrantes de um time feminino de futebol. pra quem não sabe, as mulheres foram proibidas de jogar futebol no Brasil entre 1941 e 1979. havia uma vista grossa feita em alguns casos, mesmo no período da ditadura, mas ainda era legalmente proibido. o filme pega uma onda (com o perdão do trocadilho) na liberação e ainda se propõe a dar uns golpes sem misericórdia na ditadura militar já começando a definhar (o que não impediu que o filme fosse censurado logo no seu lançamento).
a direção de arte, iluminação, cinematografia e figurinos desse filme são um absurdo... parece um sonho febril que tem toda a cara estereotípica dos anos 80 que associamos à cultura pop estadunidense, porém sem a esterilização. aqui tem sexo, drogas e rock'n roll, inúmeras referências à cultura pop internacional e também nacional — "você conhece Walter Hugo Khouri?" pergunta algumas vezes a personagem da Carla Camurati — e até mesmo uma quase estúpida tragédia que pega desprevenido, mas coloca o filme exatamente no contexto histórico onde ele se encontrava.
isso porque, tal qual Os Homens Que Eu Tive, os protagonistas dessa história parecem estar vivendo uma realidade alternativa onde muitas coisas só são questões para algumas pessoas. Onda Nova traz um bocado a mais de tensão, é verdade, mas mesmo essa tensão está envolta em um surrealismo visual irônico hilariante. Especialmente com o Patrício Bisso interpretando a mãe da Lili (eu soltei uma gargalhada na cena da peruca). um protesto sutil sem sutileza nenhuma e com pouca violência, ainda assim, contundente. quase um grito que já começa com o jogador Wladimir fantasiado de Madame Satã na cena de abertura que já joga a gente nessa atmosfera de sonho febril...
se poucos de nós, millennials, dão conta dessa onda, fico me perguntando o escândalo que seria para a geração Z assistir isso aqui rs.
ps.: os créditos iniciais são uma delícia e me fazem pensar como a galera é mais criativa com menos recurso rs.
Negra Como a Noite
2.4 36[06/09/26]
O potencial estava lá, mas não foi bem aproveitado, infelizmente.
MAS, me diverti vendo neste domingo chuvoso.
Os Homens que Eu Tive
3.5 15[24/08/26]
Desculpa, essa resenha vai acabar virando uma reflexão teológica cristã, mas não do jeito que você pensa... E lá vamos nós...
Comecei a ler neste fim de semana um livro sobre abolicionismo entre os cristãos milenistas nos Estados Unidos nos anos 1800 e o autor cita Manisha Sinha que disse que "a história da abolição começa com aqueles que resistiram à escravidão no seu princípio". Existe essa ideia de passar pano para escravocratas porque este era o normal da época, mas eu nunca compro muito essa narrativa justamente por causa disso.
O que isso tem a ver com um filme progressista brasileiro de 1973?
Esse filme é um testamento (de muitos) de que sempre existe quem questione o estado das coisas. A narrativa dominante nunca é a narrativa aceita por todo mundo e sempre há quem a questione, em qualquer tempo, em qualquer lugar. É parte da natureza do ser humano.
A gente usa muito a expressão "à frente do seu tempo" para designar essas pessos. Mas eu sinto que esse filme também serve pra dar uma rasteira nesse papo de que certas coisas são "modernas" e que houve momentos da história em que essas coisas não existiam.
Como eu sou um teólogo cristão, com uma leitura, em muitas perspectivas, conservadora da Bíblia, algum desavisado pode me ler falando assim e pensar: "mas você não tinha que execrar esse tipo de história, crente do rabo quente?"
Eu penso logo na história da mulher adúltera no texto bíblico (calma... continue lendo rs). Que muita gente lê e já diz: "é, mas Jesus disse: 'vá e não peques mais'".
Daí eu penso também na cura da filha da mulher siro-fenícia, que até onde a gente sabe, não sabemos se virou uma judia convertida por conta do milagre de Jesus ou se virou cristã no sentido que entendemos cristianismo — se foi batizada, se congregou...
Sabemos apenas que Jesus praticamente atravessou o país só pra curar a filha dessa mulher.
Jesus conhecia essas mulheres, quem elas eram, sua vivência, suas necessidades e sabia exatamente como elas eram tratadas por aquela sociedade. Antes de fazer qualquer coisa por elas, ele as enxergava em sua completude e complexidade.
Quando eu assisto "os Homens que eu tive" eu fico embasbacado com a perspicácia de Teresa Trautman, que transforma a Pitty numa desconcertante desconstrução de tudo o que a sociedade entende sobre relacionamentos e o papel da mulher neles. Sim, Teresa está defendendo uma visão, mas antes disso, ela está contando a história de um ser humano que não está presa a nada e a ninguém. E vou ousar a dizer: ela é desconcertante para nós homens, talvez não para muitas mulheres, e mesmo para as mulheres para quem ela seja desconcertante, acredito que esse "constrangimento" parta de um lugar completamente diferente.
No fim das contas, é muito difícil para um homem numa sociedade como a nossa, especialmente se for cristão, aceitar que o direito da livre escolha não é apenas um direito civil inalienável, mas mesmo numa perspectiva cristã, há o direito concedido pelo próprio Deus ao ser humano do livre arbítrio — o que implica inclusive no direito de não ser cristão, de não ter seguir princípios cristãos de qualquer ordem que seja, e isso inclui o direito das mulheres de seguir assim.
Mais ainda, o direito de seguir assim sem ser taxada de Jezabel (cujo pecado não era ter muitos homens, pelo contrário, era casada e monogâmica, seu pecado era ser cruel, violenta e assassina rs, coisa que tá cheio de homem na Bíblia que foi também rs). Esse rótulo de "prostituta", "meretriz" e "Jezabel" que se derrama sobre as mulheres é resultado de uma desumanização absurda do corpo feminino.
E é aí que se encontra a genialidade de como Teresa Trautman captura Pitty: uma mulher gentil, sensível, que ama e se preocupa com os seus. É um ser humano que, livre como é, não está amarrada a ninguém que não seja a si mesma. E sua liberdade tem um poder tão grande, que os homens que ela teve não têm outra escolha se não respeitá-la e amá-la de volta como ela é, mesmo quando, volta e meia se veem chateados caso ela fuja do combinado — afinal, ela é humana rs. Pitty faz, com transparência e honestidade, tudo o que os homens em muitos filmes e programas de TV daquela época faziam livremente, porém mentindo e posando como homens de família, enganando suas esposas (daí a extrema importância das outras mulheres da trama que possuem outros modos de viver) e ninguém os taxava de prostitutos — muitos inclusive defendiam que era uma necessidade masculina que precisava ser saciada rs.
"Nossa, Luz, mas e seus valores cristãos?"
São meus, né? [E, olha... se você ler bem direitinho Provérbios 31, a mulher "virtuosa" — termo hebraico que quando traduzido para homens é traduzido como "valente" rs — é um arquétipo, mas está longe de ser o estereótipo de bela, recatada e do lar rs].
Você viu a Pitty em algum momento nesse filme indo à igreja?
Homem-Aranha: Um Novo Dia
4.0 453 Assista Agora[23/08/26]
Finalmente um filme do Miranha do MCU!
Em alguns momentos me senti vendo um filme dos anos 2000. No sentido nostálgico e positivo das coisas… embora volta e meia os efeitos pareciam dos anos 2000 tb rs mas nada de novo debaixo do sol de CGI/IA do MCU.
Claro, não é completamente livre de MCUzificacões.
Ainda assim fiquei majoritariamente feliz com o filme. E é ótimo finalmente ter um filme do Homem Aranha no MCU com um diretor que sabe filmar cenas de ação tb. Destin Daniel Cretton, vc merece sucesso 🫶🏾 odiei que tiraram Wonder Man (vulgo uma das melhores coisas do MCU) de vc.
Zendaya, os nerds que te odeiam não merecem um bom filme do Spider Man! Espero que ela volte.
Tom Holland meu problema nunca foi contigo, sempre foi com o Jon Watts e o MCU.
Jon Bernthal 🫶🏾 dinâmica boa demais desses dois.
Espero muito que aproveitem o Metzger no futuro pq desperdiçar o Tramell Tillman só nesse filme é um crime.
Sadie Sink, vc já tem meu coração! Ansioso pelo que vem por aí.
Câncer
3.6 24[10/08/26]
Eu já assisti vários filmes que desafiam a estrutura clássica de roteiro, seja por ambicionarem uma ideia grandiosa, seja por querer contar uma história fora de ordem, fora de órbita, baseada em símbolos... Mas todos eles cuidadosamente pensados, carregados de signos claramente desenhados para que sejam percebidos como signos.
Aqui, Glauber Rocha leva até às últimas consequências seu famoso lema: "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". Mas talvez ele sequer tivesse a ideia. Não acho que tinha. Descobri que não tinha.
A ideia nasceu na montagem. Eu demorei alguns minutos para entender que o áudio da primeira cena eram os créditos iniciais, que vinham junto com uma contextualização histórica e um discurso que parece tão improvisado quanto o restante do filme.
O resultado é um absurdo.
Não é para qualquer um. Não é uma experiência que qualquer pessoa vai "tankar". Mas é um absurdo.
É um absurdo assistir algo sabendo como nasceu e ainda assim não conseguir deixar de projetar na história sentidos e signos TÃO latentes, que parece impossível o improviso.
Apenas pessoas completamente entregues à sua arte, na técnica e nas vísceras, e, mais ainda: plenamente conscientes do chão que pisam e do mundo que habitam, conseguiriam entregar um improviso tão bem montado. Os diálogos e o posicionamento dos atores parecem saídos de um palco de teatro, e a câmera de Glauber parece saber EXATAMENTE pra onde ir e o que contar dessas cenas.
As discussões propostas parecem ter sido escritas para refletirmos sobre o que está acontecendo hoje... literalmente 58 anos depois. Isso me maravilha e me aterroriza em mesma medida. A maravilha do quão afiados são os atores — especialmente Antônio Pitanga — e o Glauber. O terror de perceber que o cotidiano violento que eles capturaram permanece vivo, pulsando, ainda precisando de ser denunciado, discutido e eviscerado exatamente da mesma forma.
Talvez, se tivesse sido roteirizado antes de ser gravado, este "Câncer" nunca teria sido eternizado. Queria eu, que ele tivesse ficado tão obsoleto quanto as pessoas desavisadas e amantes da perfeição performada talvez achem que ele é.
A propósito, avaliar esse filme com estrelas seria um insulto à sua memória. Talvez eu metesse cinco balas, se eu fosse de pegar em armas...
O Pagador de Promessas
4.3 402 Assista Agora[04/08/26]
Por mais organizada e influente que seja uma instituição religiosa, suas bases teóricas e práticas eclesiásticas nunca são cercas resistentes o suficiente para conter a experiência do fiel em seu cotidiano.
No fim, o fiel deve sua fidelidade ao Sagrado que encontra no seu dia a dia e não exatamente ao que é dito no sermão do culto de sábado ou domingo. Afinal, o sermão será interpretado a partir do Sagrado do dia a dia.
Como teólogo que alimentou suas aspirações ao pastorado, eu achei que essa era uma realidade que precisava ser aceita para que o meu pastoreio fosse, de fato, um ministério de serviço a Cristo e aos seus seguidores.
Me peguei pensando que muita gente se comporta como Padre Olavo, mas a fé mais impressionante é sempre a do Zé do Burro. Só que o mundo Ocidental moderno que se construiu no lastro de uma religiosidade usada para justificar a violência, não sabe lidar com a simplicidade retumbante da fé de Zé do Burro.
Isso dentro da igreja. Fora dela, deus é o lucro, o espetáculo, a atenção e o poder exercido a partir do prazer. Às vezes, até quando a fé diz que o melhor é ajudar, muitas vezes exercemos essa ajuda com base em uma projeção do que achamos que o outro precisa e não na sua necessidade de fato.
Mas no fim das contas, podemos fechar a porta da igreja, cobrar o quarto de hotel e a comida do bar, podemos enclausurar uma pessoa com palavras numa manchete, podemos admirar pessoas que não querem ser admiradas... Ainda assim, não temos como controlar a escadaria pública.
"O Pagador de Promessas" é um retrato, um manifesto e uma pergunta que, com enquadramentos impecáveis e um coração cultural pulsante, me deixou sem palavras diante do Sagrado e também diante do poder — para o bem ou para o mal — do coletivo.
A Odisseia
4.2 598[19/07/26]
Christopher Nolan me fez chorar num filme dele, por causa de um monólogo que ele escreveu e isso é digno de nota.
Digno de nota porque, apesar disso, ainda acho sim que A Odisseia obviamente carrega muitos dos vícios de roteiro dele que eu menos gosto, especialmente no primeiro terço do filme.
Eu estou no processo de ler o poema Odisseia. Já tinha lido uma versão em prosa da história e assistido outras adaptações na infância que nunca esqueci — eu tenho gravada a cena do Ciclope da adaptação de 97 na minha mente até hoje.
O fato é que, pela primeira vez, eu gostei do que Nolan tinha a dizer num filme dele. Não me entenda mal. Eu gosto de muitos outros filmes dele. Eu gosto do enredo de O Grande Truque, da estrutura de roteiro de Amnésia, das cenas épicas de A Origem, da simplicidade eficiente de Insônia (que considero subestimado), gosto muito de Batman Begins (acho subestimado também) e, claro, de O Cavaleiro das Trevas. Gostei muito de Oppenheimer também — cheguei a lacrimejar de raiva e tristeza na cena em que escolhem as cidades que vão bombardear. Mas até então, eu sempre achei as lições narrativas dos filmes dele ou vazias e piegas (como acho Interestelar rs) ou até ideologicamente problemáticas (não tem como eu, um homem preto com consciência racial, gostar da decisão de colocar um herói se sacrificando para que as pessoas continuem confiando cegamente em messias políticos).
Mas eu gostei MUITO de como Nolan ressignifica A Odisseia nesse filme. Eu gosto muito da desconstrução da ideia de herói, de guerra, de conquista. Eu gosto de como ele respeita MUITO SIM o material fonte, ao mesmo tempo em que o desconstroi e o questiona e resgata aspectos da história original que uma leitura superficial perde. Eu vou defender até o fim a escolha de um elenco diverso, tanto por eu entender a diversidade racial que existia naquela região do mundo — reconhecida inclusive no poema original — quanto porque a escolha de um elenco diverso está completamente alinhada à mensagem central do filme.
Eu gosto de como (quase) todo mundo, mesmo os que aparecem em apenas um par de cenas, têm a oportunidade de brilhar aqui de um jeito ou de outro. John Leguizamo ícone que poucos vão comentar, mas entrega uma das melhores performances do filme. A única que achei desperdiçada foi a Charlize Theron, cuja personagem aqui tem mais uma função estrutural de roteiro do que ser uma personagem em si.
As sequências de Circe e Hades são espetaculares (a cena de Polifemo tem coisas que amo e coisas que não gosto rs), tal qual algumas cenas de Tróia também. Excelente uso de efeitos práticos, de estranheza, de tensão e, em alguns casos, até de body horror.
Dito tudo isso, tenho minhas ressalvas:
Acho a estrutura do roteiro a princípio bagunçada. O filme melhora muito quando resolve focar, ao invés de ficar pulando de um lugar para outro. O vício do Nolan no diálogo explicativo permanece. Em algumas cenas é necessário, em outras excede a ponto de ficar piegas ou irritar. Muito poderia ser mais mostrado do que dito. Me incomoda eu conseguir enxergar muito perfeitamente as decisões de roteiro tomadas para explicar para o público o que está acontecendo, ao invés de contar a história de uma maneira mais emocional e simbólica. O filme seria ainda mais poderoso se Nolan se permitisse a isso.
Algumas escolhas de direção também me incomodaram. Eu até entendo a direção de tentar colocar tudo no ponto de vista humano e perspectiva dos personagens, mas a "câmera na mão" em várias sequências de ação, especialmente em IMAX, me irritou profundamente. Ele brilha mais quando faz os planos sequência seguindo Odisseu. Muitas cenas de ação seriam muito melhores se ele tivesse escolhido ser mais ousado em coreografias elaboradas que permitissem uma câmera estável com planos mais longos que nos permitissem contemplar a ação.
Apesar de admirar a insistência nos efeitos práticos a todo custo, eu senti falta sim de cenas que fossem de fato grandiosas e VISUALMENTE me tirassem o fôlego. Isso sempre foi um problema dos filmes dele pra mim, com exceção de uma cena ou outra: não adianta gastar milhões em efeitos práticos e sets absurdos para mostrar tudo de maneira pequena, pouco inventiva, em enquadramentos super conservadores, composição pobre ou câmeras tremidas. (Meu problema com a cena do Polifemo tá nisso). Não consigo deixar de pensar que um Villeneuve, um George Miller ou um James Cameron, um Alfonso Cuarón, até mesmo Ridley Scott (que mesmo em seus filmes ruins nunca deixa de entregar espetáculo) entregariam muito mais com os mesmos sets, efeitos e sequências.
A falta de cor e vida e imaginação nos figurinos e sets nem me incomodou tanto porque no fim servem melhor à história que ele resolveu contar. Mas eu fiquei o tempo inteiro com a sensação de que o grande épico do Christopher Nolan poderia ser AINDA MAIS épico se ele se entregasse a mais imaginação e menos apego ao pé no chão — algo do qual tivemos vislumbres tímidos em A Origem e Interestelar em suas melhores cenas, mas não sei se vi aqui...
Enfim, fui de peito aberto à experiência e valeu muito à pena ter visto.
Eu diria inclusive que esse filme, para além de grandioso em vários sentidos, tem uma mensagem necessária para nosso tempo. Apesar disso, não vou deixar de dizer: nem mesmo com esse filme, nenhum fã do Nolan vai me convencer que ele de fato é o maior diretor da geração dele rs.
O Diabo Veste Prada 2
3.3 447 Assista Agora[05/07/26]
Os temas? Relevantes.
Mas passa as mensagens de forma ainda mais confusa que o primeiro (que amo, mas sim, ele passa uma mensagem confusa).
Tem bons momentos, boas atuações, mas num geral fiquei com a sensação de ser uma mistureba mal cozida.
Enfim... pra quê, né?
Interestelar
4.4 5,8K Assista Agora[28/06/26]
Me deu vontade de rever a cena do planeta dos vagalhões e acabei vendo o filme inteiro de novo.
E, de novo, achei uma lenga lenga rs.
Mas hoje em dia eu sei articular melhor o que eu gosto nesse filme e o que eu não gosto.
Vou começar pelo positivo: o ponto alto do filme, em TODOS os sentidos, é a cena supracitada. Você tem os riscos emocionais em seu ápice, você tem um espetáculo visual unido à tensão e ao terror diante do espaço, de um planeta desconhecido e da teoria da relatividade, e quando Cooper e Amelia voltam para a nave e encontram o colega de tripulação mais velho e sem esperança e ainda emenda na cena do Cooper vendo os vídeos da família, uma sequência de partir o coração, a cena emocionalmente mais memorável do filme.
Aí eles saem desse ápice emocional para uma das sequências mais chatas (e visualmente feias) do filme. Eu disse isso na época que vi pela primeira vez e repito: a sequência no planeta do Matt Daemon são quase 30 minutos de filme que poderiam ser cortados e não fariam falta nenhuma. Ou talvez fizessem, pois tiveram que inventar uma tensão artificial numa história que não tinha quase nenhuma.
Quando converso com pessoas que amam esse filme, a impressão que tenho é que, assim como para mim, para elas o filme é feito de momentos muito marcantes, mas que carece de um arco narrativo coerente e de fato emocionante.
Além do que já citei acima, eu acho alguns momentos visualmente espetaculares. A travessia do buraco de minhoca, todo o clímax no buraco negro, os efeitos visuais, várias das atuações. Mas eu tenho uma dificuldade enorme de me engajar na narrativa em si.
Até mesmo a reviravolta de enredo, que costuma ser uma das assinaturas de roteiros do Nolan, eu acho chata e previsível. No momento que vi os livros caindo quando o Cooper tentava se despedir de Murphy eu entendi que, eu não sabia como, ele era o "fantasma".
Acho piegas também toda a coisa do amor atravessar as dimensões de espaço tempo. É uma mensagem bonita, mas jogada completamente do nada num filme que estava se vendendo como super cientificamente correto — uma mensagem que é muito melhor integrada na história em "A Chegada", por exemplo.
E, claro, o filme sofre de coisas que são problemas de todos os filmes do Nolan: os diálogos super explicativos, personagens femininas cujo drama gira em torno unicamente dos homens da vida delas (no caso da Murphy, o pai), falta de inventividade na narrativa visual — filme bonito é diferente de filme cujos visuais contam a história. Nolan sabe criar espetáculo visual, mas a composição visual dos filmes dele raramente parece intencional e criativa de fato. E aqui nenhuma dessas coisas é exceção. Enfim, a lista continua, mas é isso...
Acho que eu gostaria mais desse filme se ele fosse pelo menos uma meia hora mais curto.
I Love Boosters
3.4 11[28/06/26]
"O Capital" (Karl Marx, 1867)
[só que mais divertido, com roupas mais glamorosas, gente bonita e loucuras afrossurrealistas do Boots Riley]
Não é pra qualquer um, mas foi pra mim.
Estarei dando dinheiro para Boots Riley em Outubro nos cinemas brasileiros.
Hokum: O Pesadelo da Bruxa
3.0 231 Assista Agora[24/12/26]
Será que Damian recebeu muitos comentários sobre os desfechos de suas histórias para fazer um comentário metalinguístico assim? rs Me parece que sim. Ou talvez seja uma autorreflexão mesmo rs.
Embora ele se arraste em alguns momentos e caia um tico no brega em outros poucos, ainda acho um filme tão sólido quanto os outros do autor. Aqui, inclusive, os personagens são um pouco mais espertos que nos outros dois. Eu gosto também que ele traz uma perspectiva diferente para o "terror de trauma/luto", menos Ari Aster ("Hereditário", "Midsommar") e mais Jennifer Kent ("O Babadook") ou David Bruckner ("O Ritual"). De novo é uma história criativa, de novo, na maior parte do tempo, é difícil de prever para onde vão as coisas. Isso pode provocar um pouco de narizes torcidos por ter muitos elementos juntos, mas acho que é justamente isso que torna "Caveat" e "Hokum" tão interessantes. "Oddity" ainda é um pouco mais enxuto, embora também misture gêneros.
Por enquanto, Damian está 3/3 pra mim!
O Alerta
2.9 109 Assista Agora[24/06/26]
Tal qual em Oddity, tem algumas decisões dos personagens que vc precisa suspender a descrença pra aceitar o plot. No caso desse aqui, é logo no início essa decisão.
Passando disso... cara. Eu amei.
Tem uma mistura muito boa de familiaridade e originalidade em como Damian McCarthy constrói suas narrativas. Ele usa recursos do suspense e do terror que são antigos, já bem estabelecidos, mas ainda eficazes, ao mesmo tempo em que atinge a gente com ideias narrativas que fazem com que seja difícil prever onde a história vai dar (mesmo se você sacar as reviravoltas, ainda sobra muito de intrigante para tentar descobrir onde vai parar) e isso é excelente para o terror. Ele sabe usar a dúvida, a escuridão, o visível e o invisível, o estranho... A equipe de design de produção dele é excelente... as pinturas, o coelho, tudo com um design que serve muito bem à bizarrice da narrativa.
Estranho Encontro
3.8 28[24/06/26]
Walter Hugo Khouri coloca Júlia o tempo inteiro dentro de reflexos de si mesma ou presa dentro de redes, ou afundada em sombras como as de onde ela sai logo na primeira cena. E esse é apenas um exemplo de como Khouri sabe muito bem filmar. Este é meu segundo filme dele e ele é um dos nossos mestres em criar atmosfera a partir de imagens.
O começo do filme guia o público para um estado de constante dúvida e paranoia, que nos faz questionar o tempo inteiro se podemos confiar em algum desses poucos personagens. Lendo alguns comentários, concordo que, de fato, o filme parece perder algumas dessas qualidades em seu decorrer, mas eu defendo que a verdade é que ele está propondo alguns temas que permanecem relevantes. Volta e meia isso faz com que o filme perca um pouco de ritmo, mas não o suficiente para que eu o considerasse maçante.
Curioso também este filme ser do mesmo ano que "Vertigo" do Hitchcock, uma vez que são filmes que possuem temáticas em comum. Aliás, "Estranho Encontro" também me lembra em alguns sentidos de "Rebecca", também do Hitch.
Tematicamente falando eu gosto de algumas decisões tomadas aqui e, por mais que talvez isso seja projeção minha sobre as coisas, sinto que ele é um filme à frente do seu tempo: um filme onde os homens são quebrados e quebráveis de um jeito ou de outro, enquanto as mulheres são a bússola e o pilar que os sustentam.
Tem muito mais do que mostra a superfície.
Baita pedida pra um dia chuvoso.
Solaris
4.2 380[22/06/26]
Que a ficção científica, no fim das contas, serve para discutirmos profundas questões humanas, todos já sabemos.
O que o filme do Tarkovsky propõe é a máxima disso. Ele vai até as últimas consequências dessa ideia.
Enquanto coisas emergem de um Oceano, as questões que ele levanta — e são muitas, e são ambiciosas — são um torvelinho que puxa a gente cada vez mais pra baixo e nos faz, tal qual numa cena específica do filme, encarar um espelho repleto de perguntas e escasso de respostas.
Ainda vou precisar de uns dias (e talvez uma ou outra reassistida) pra absorver tanta coisa.
E sim, esse foi meu primeiro Tarkovsky.
Ardente Vingança
3.2 23 Assista Agora[20/06/26]
Se alguém me dissesse que esse filme se passa no mesmo universo do excelente livro Torto Arado do Itamar Vieira Junior, eu acreditaria. Tem muito de Bibiana e Belonísia na relação entre Racine e Anaia.
A maioria dos filmes baseados em peças teatrais que eu assisti eu consegui imaginar como aquela história pareceria no palco.
Eu ainda estou me perguntando como algumas coisas nesse filme são na peça e não consigo respostas. E isso é impressionante, especialmente levando em conta que essa é a estreia cinematográfica de Aleshea Harris, que é também a escritora e diretora da peça.
Em "Is God Is" Aleshea costura vingança, road movie, fábula, southern gothic, religião, mitologia, ação, suspense e um monte de outras coisas com uma esperteza afiada, uma língua ferina. Parece que estamos vendo uma história muito familiar. Vimos vimos muitas outras histórias de vingança, ou ainda, nos anos recentes, histórias de mulheres se desvencilhando da violência e do legado de homens poderosos que saem impunes. E se você me perguntasse: "o que essa traz de diferente?", eu não saberia te responder, mas te diria que é diferente.
Existe texto aqui, mas o texto não funciona como uma narração do que já estamos vendo em tela. Ao mesmo tempo, não é um jeito comum de se ver uma história sendo contada no cinema. É uma história extremamente violenta e pesada, mas Aleshea escolhe não explorar a violência como um fator de choque. Não, ela não é tão barata aqui. Aqui ela é uma ideia, um conceito e há muito a ser dito sobre. Uma review que eu li conseguiu sumarizar bem: parece uma história em quadrinhos, daquelas graphic novels premiadas.
A câmera e as cores sabem bem o que querem. Assim como as atuações. Os atores veteranos nesse filme não me surpreende que arrebentem, mas eu amei conhecer Kara Young e Mallori Johnson. As duas são forças da natureza e espero vê-las muito mais daqui pra frente.
Se eu fosse resumir, acho que, talvez, o que torne essa aqui diferente, seja que Aleshea não parece tão ambiciosa. Ela parece não querer reinventar a roda na estrutura. Mas a camada mais superficial estética que cobre essa receita e a massa lá no fundo, em sua base, são ambiciosas e ousadas o suficiente para sustentar o recheio.
Quero também ver mais de Aleshea Harris. Quero ver mais histórias de mulheres negras no cinema. Cada uma de seu jeito e seu tema, eu não consigo deixar de ver Aleshea de mãos dadas, lado a lado com Zoe Kravitz e seu "Blink Twice", Melina Matsoukas e seu "Queen & Slim", Nikyatu Jusu e seu "Nanny", Nia DaCosta e seu "Candyman"... Precisamos de mais delas no cinema.
Os Invasores de Corpos
3.7 211 Assista Agora[04/06/26]
Eu gostaria muito de ter assistido esse filme sem spoilers.
Primeiro que o próprio título do filme (que é o título também do livro) eu considero já um spoiler. Eu fico imaginando como seria assistir sem saber a premissa, provavelmente seria uma experiência ainda mais intrigante e estressante.
Mas mesmo já sabendo o que viria por aí, o filme conseguiu ainda me deixar tenso e estressado. O fato de ser outro cenário e outros personagens (em comparação à versão dos anos 90 que já tinha assistido) ajudou, mas além disso, o filme é excelente em criar uma crise que seja assustadora pela inevitabilidade.
Não existe para onde fugir. O desespero, o terror, a paranoia, tudo isso cria uma tensão e desesperança latentes na construção que é lenta, porém intrigante desde o início dessa narrativa. A direção de Phillip Kaufman e sua parceria com o fotógrafo Michael Chapman é inventiva, inteligente e sabe se adaptar ao que a cena pede com louvor. Uma aula de construção de tensão e impacto visual. As atuações ajudam bastante também, inclusive a criar personalidade para os personagens. A química entre Donald Sutherland e Brooke Adams é essencial pro filme funcionar, até porque acho que grande parte da personalidade e vida dos personagens está mais nas atuações do que no roteiro em si, que, por sua vez, não investiu tanto neles quanto pretendia, mas as atuações e direção salvam muito e criam empatia o suficienta pro horror do filme funcionar lindamente.
Clássico!
Os Invasores de Corpos: A Invasão Continua
3.0 90 Assista Agora[04/06/26]
A estrela desse filme é a direção do Abel Ferrara e a fotografia do Bojan Bazelli. Eu poderia fazer um textão inteiro só sobre como eles criaram uma narrativa original, incômoda, complexa e cheia de nuances visuais excelentes. Fiquei impressionado também em como conseguiram criar uma história muito diferente das versões anteriores, com bastante originalidade e ainda assim com diversas referências visuais e no texto ao filme de 1978.
O enredo em si, e como ele é apresentado, está repleto de momentos excelentes, incômodos. Um tipo de terror do incômodo mais do que do body horror (embora tenha um pouco disso também) e mais do que do medo. Mas na estrutura geral, sinto que o roteiro está tentando muito fazer com que a gente se conecte com essa família, mas falha em criar uma conexão real. Parte disso está no roteiro, que, ao mesmo tempo que em sua estrutura geral foge um pouco de vários clichês do gênero, nos detalhes e nas relações interpessoais se refugiam num espaço extremamente seguro e cheio de frases prontas e que já vimos milhares de vezes em outras histórias. Mas parte do problema está nas atuações... algumas são ótimas, outras nem tanto e estas acabaram me tirando um pouco da história. Na minha opinião, isso impede o filme de chegar no nível de envolvimento da versão dos anos 70 (que foi a única outra que assisti).
Ainda assim, gosto também de como o roteiro subverte algumas coisas do original e tira a história do horror e da conspiração governamental mais generalizada pra acrescentar algumas camadas de crítica mais contundente e específica ao exército e à ideia de família tradicional americana. Vi um comentário que faz muito sentido também: aqui, Ferrara escolhe sexualizar o processo do sequestro do corpo de uma forma que os seus predecessores não faz. Existe uma conotação mais sexual e sensual que, talvez, ele tenha até se inspirado em Alien pra colocar aqui.
Por mais que eu não tenha achado um filme perfeito, todas as qualidades fazem com que eu o considere uma versão subestimada dessa história, que merecia mais reconhecimento.
Usina de Monstros
3.5 7 Assista Agora[25-05-25]
Tem uma fração de segundo nesse filme que é o ponto de vista de um carro se aproximando de uma multidão. A câmera provavelmente foi amarrada num carro ou algo assim para criar o efeito... talvez junto com o zoom. E esse é apenas um dos vários momentos onde a câmera é usada de forma criativa que claramente deu trabalho naquela época.
Essa fração de segundos e algumas outras coisas visualmente impressionantes neste filme de 1957 me fizeram pensar que filmes grandes, de grandes franquias atuais, raramente entregam o mesmo nível de ousadia e cuidado no básico da direção. Eles entregam efeitos visuais, fantasia, pipoca... Mas as equipes não parecem ter tempo, nem liberdade para ter cuidado com coisas básicas do cinema como fotografia e edição.
Mais uma vez: é sempre incrível ver bases e tropos que depois seriam repetidos em grandes filmes e séries ainda lembrados hoje como "Invasores de Corpos" ou "Arquivo X".
Gosto também da implicação intencional ou não do cientista americano (embora na série original ele fosse britânico mesmo) ambicioso. Embora aqui ele seja menos "cientista maluco maquiavélico" do que no primeiro filme, o projeto de Quatermass ainda é responsável por parte do problema.
Divertido demais!
Terror que Mata
3.3 18[24/05/26]
É impossível não pensar no fato de que este filme foi lançado pouco mais de um mês depois do início "oficial" da Corrida Espacial.
Me deu curiosidade, inclusive, de assistir à série na qual o filme é baseado para entender o desenvolvimento da visão desse conto que, tal qual muitos sucessores desse filme, é uma fábula cautelar sobre a arrogância humana ao explorar os limites da ciência e do poder.
Embora o filme perca um pouco de ritmo aqui e ali, eu achei um excelente horror sci-fi. É bem fotografado e dirigido, sabe construir tensão e suspense, é intrigante e tem um design de produção ótimo, achei ótimos os efeitos também, especialmente para a época, e como a edição e a direção contornam as limitações. Fora o fato de que o filme estabelece terrendo pra muita coisa que vem depois.
Amei ter visitado esse marco pouco falado.
Michael
3.7 543 Assista Agora[20/05/2026]
Eu já assisti filmes da Marvel muito piores e que fizeram sucesso de crítica.
De fato o roteiro é bem falho. Parece não conseguir criar um fio narrativo. E até entendo depois de saber que o plano original era um épico de 4h. Da pra ver que o enredo, especialmente no meio tem dificuldades de estabelecer um ritmo, de aprofundar as várias questões levantadas e de abordar conflitos interessantes para além da pura e simples apresentação dos fatos.
Mas, honestamente!? Não sei se foi pq assisti em IMAX e foi um ESPETÁCULO, mas eu gostei de MUITAS COISAS nesse filme.
A começar pela direção do Antoine Fuqua e a cinematografia do Dion Beebe: o filme tem cor, tem textura, tem composições interessantes (que não são todas centralizadas), a câmera CONTA a história de verdade, se move tão rápido como os pés do Michael quando precisa, se distancia quando precisa e fica DESCONFORTAVELMENTE próxima dos rostos dos personagens quanto precisa. O que me leva ao excelente trabalho de edição e das atuações. Edição narrativa ótima! Vi muita gente criticando o Jafaar Jackson, e vou defendê-lo: é impossível interpretar Michael Jackson sem que vez ou outra pareça uma caricatura por conta da natureza peculiar de quem ele era, mas para um ator estreante, Jafaar faz um trabalho super decente, especialmente nos momentos em que precisa. Não tem overacting, nada. Eu fiquei particularmente impressionado com Juliano Valdi, que criança talentosa, não só pra cantar e dançar, pra atuar também.
E todos esses elementos se unem para criar ótimos momentos! De fato, como obra completa, a estrutura da história deixa muito a desejar, é episódica e tem pouco estofo dramático, mas quando a narrativa como um todo audiovisual acerta, ela acerta MUITO! Tem muito sendo dito pela câmera e não pelo texto, e isso é mais do que se pode dizer pra grande maioria dos blockbusters atuais.
É perfeito!? Longe de ser, mas na minha opinião o filme está sofrendo com uma expectativa de que fosse uma cinebiografia exploratória, carregada de polêmica e perseguição a quem Michael era, assim como foi em vida.
Casamento Sangrento: A Viúva
3.2 207 Assista Agora[14/05/2026]
KAKAKAKAK
Definitivamente não é bom como o primeiro.
O ritmo é menos interessante e as protagonistas estão um pouco menos inteligentes, mas a Samara Weaving ainda é maravilhosa e a Grace continua sendo uma boa personagem.
Mas o importante é que me diverti.
O Mensageiro do Último Dia
2.6 203 Assista Agora[07/05/2026]
Terceira vez.
Eu gostei mais dele na terceira vez do que na segunda.
E sim, eu tenho mania de rever filmes quando estou procurando uma vibe específica, mas é muito difícil achar filmes nessa vibe — e também estava procurando inspiração de clima para um conto que estou escrevendo.
Algumas coisas:
1 - Existem aspectos da história que só entendi na terceira vez assistindo. Há explicações que estão no roteiro, mas é praticamente impossível você pegar na primeira vez, e talvez até na segunda. Entendê-las melhor me fez gostar um pouco mais do plot twist do que eu tinha gostado nas duas primeiras vezes;
2 - David Prior merece muito, mas MUITO mais reconhecimento como diretor. Ele emula muito do seu mentor e xará David Fincher, mas ele tem MUITO da própria criatividade e visão ali. Ele é um diretor ambicioso, criativo e BEM SUCEDIDO na maior parte do tempo;
3 - De novo, ficou evidente pra mim algo do racismo do Lovecraft que acho que contaminou toda a ideia da mitologia do horror cósmico. É fascinante, claro, especialmente para quem gosta do mistério e do horror do desconhecido, mas ao mesmo tempo, ideologicamente, acho problemático. Vou ter que fazer vídeo sobre isso depois;
4 - De fato, não é um filme pra qualquer um, porque você tem que gostar previamente dessa pegada de filme pra conseguir curti-lo da primeira vez, e só curtindo da primeira vez você volta pra segunda e entende melhor a história;
5 - Continuo achando algumas coisinhas bregas o suficiente pra estragar um pouco a vibe. Eu entendo a motivação narrativa para os efeitos de "interferência de transmissão", mas acho que não precisava rs, tira um pouco a elegância visual que Prior constroi. E LaSombra como sobrenome tb não me desce KKKKKK deve soar bem legal pra falantes nativos de inglês que não entendem línguas nativas. Pra gente..................... brega
Enfim. Sim, sou fã desse filme, mas tenho uma relação ambígua com ele. E acho que ele é subestimado, mesmo tendo virado cult.
Brats
2.8 10Eu nem vou dar uma nota pra esse doc pq, apesar de eu ter criado expectativas diferentes e achar que poderia ser muito mais interessante, eu fico pensando nas nuances da própria existência desse projeto e vem aí um textão que eu não sei onde colocar senão aqui.
Eu me interessei por ele porque apareceu o trailer pra mim no YouTube. Eu amo "O Clube dos Cinco" e eu nem sabia que tinha existido esse movimento midiático naquela época apelidando a jovem Hollywood de "Brat Pack", logo, quis saber do que se tratava.
E isso já diz muito sobre os temas abordados.
Confirma algo que já sabemos, mas é sempre bom lembrar: como a indústria do entretenimento estadunidense é autocentrada. Sim, a mídia brasileira especializada em cinema usava o termo — eu pesquisei, encontrei 19 ocorrências no Estadão e 6 na Folha de São Paulo de 1985 até hoje. Mas o fenômeno em si tinha outras concorrências no resto do mundo, então, ouvir Rob Lowe falando que eles conseguiriam vender Wembley tal qual os Beatles me deixou: "hm, amigo... talvez não nos empolguemos?"
Outra coisa que fica muito óbvia no decorrer da trama, é como esse documentário não é uma visão externa com uma intenção de explorar o fenômeno sociológico em si — embora a melhor parte do documentário seja justamente na parte em que essa perspectiva é abordada. Ver Andrew McCarthy viajar os Estados Unidos para encontrar outros membros do Brat Pack para falar do assunto deixou óbvio o quanto este é um projeto de catarse pessoal pra ele. E isso me deixou com um sentimento ambíguo.
Uma parte de mim se pegou constrangida e inclinada a concordar com a galera que criticou o doc, porque de fato, ele soa às vezes como "ator branco padrão privilegiado tenta fazer reunião de turma pra tentar confrontar os próprios traumas advindos dos grandes problemas que a fama lhe proporcionou na juventude" (e é juventude mesmo, porque ele já tinha 22 anos na época). E fica claro que, pra maioria dos outros membros dessa turma, a experiência foi bem menos negativa. Fica naquele sentimento meio constrangedor de ver alguém tentando se conectar com antigos colegas do Ensino Médio, mas agora eles têm pouco em comum e não se importam tanto. Alguns dos encontros são mais calorosos (e eu amo que um desses é justamente com a mais famosa de todos, a Demi), outros um pouco mais desconcertantes.
Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que para Andrew a experiência foi pior do que para os outros. Você consegue fazer as comparações entre as vizinhanças, as casas onde cada um mora, os locais de encontros e perceber o quanto deu mais certo para uns do que para outros. Quando comecei o documentário, eu pensei: "de onde conheço esse cara?". Lembrei que foi de "13 Reasons Why" rs.
E, no fim, ele de fato não sobreviveu tão bem no cinema quanto outros membros do grupo como a Demi Moore ou o Emilio Estevez (que, não vamos esquecer, era um Nepo Baby). Até mesmo o Rob Lowe ou o Jon Cryer tiveram carreiras bem melhor sucedidas depois de mais velhos. Isso sem contar atores que não eram do "bando", mas que eram adjacentes e associados a eles, como Tom Cruise, John Cusack e Robert Downey Jr. que tiveram carreiras invejáveis.
Mas é possível também ver o quanto a Ally Sheed (que, juro, só vi mais velha numa ponta em X-Men Apocalypse) e o Timothy Hutton (que arrebentou como a versão mais velha do Hugh em The Haunting of Hill House) se conectaram mais com o Andrew, por também terem sentido que aquele rótulo feriu a carreira deles. E isso me deixou criar empatia por ele. Por mais que eu ainda enxergue que muito daquilo partiu de um ego ferido de um branco padrão, de uma alma jovem que não soube navegar nas oportunidades que foram oferecidas, eu consigo me relacionar com o sentimento de algo que foi positivo para outros e talvez nem tivesse sido tão ruim assim, marcar de forma muito profunda e negativa uma pessoa. Não dá pra negar que a natureza selvagem do mercado de Hollywood torna aquilo um ambiente no qual nem todo mundo consegue sobreviver bem.
No fim das contas, eu consigo humanizar o Andrew e enxergar como ser chamado de moleque numa época em que você está tentando se firmar como um profissional sério pode criar um nó psicológico que te trave e trave suas oportunidades numa indústria tão competitiva.
[Fiquei pensando também, no quanto as grandes celebridades que conhecemos hoje podem sobreviver ao tempo, mas daqui 35 anos pode ser que alguem na casa dos 30 nunca tenha ouvido falar do Timothee Chalamet, do Paul Mescal ou do Jacob Elordi rs].
Então, por mais que eu ache que um documentário sobre esse assunto podia ser MUITO interessante, bem produzido e melhor escrito, eu também consigo apreciá-lo pela obra intimista que ele é. Aliás, apesar de a princípio ter me incomodado um pouco, no fim achei inteligente da parte do time de Fotografia filmar quase como se fosse um filme amador mesmo. E tem algumas decisões de direção bem interessantes — embora nada super inspirador ou inovador.
Fico feliz que, pelo menos ao que me pareceu, talvez Andrew tenha encontrado sim uma catarse necessária (ele já tinha até escrito um livro que inspirou o doc rs). E, no fim das contas, muito do que nós que somos contadores de histórias queremos fazer, é encontrar um modo de nos curar de coisas que nossos egos mais jovens vivenciaram. Bom pra ele! rs
A coisa que mais gostei de aprender com esse doc foi o fato de que essa era dos filmes adolescentes, dos filmes do Brat Pack e de John Hughes foi o início do cinema adolescente e jovem adulto, porque antes as histórias não levavam adolescentes e jovens à sério.