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Data de lançamento
4 Set. 2013Duração
Um pai e seus dois filhos vagueiam como marginais em Taipei. Eles andam pelos rios e matas da periferia e pelas chuvosas ruas da cidade. De dia, o pai tenta ganhar algum dinheiro como outdoor humano de apartamentos de luxo, enquanto seus filhos buscam amostras grátis de comida em supermercados e shoppings. Toda noite, a família se abriga num prédio abandonado. O pai está estranhamente fascinado pelo mural que enfeita a parede da casa improvisada. No seu aniversário, a família recebe a companhia de uma mulher. Será que ela pode ser a chave para desenterrar emoções do passado?
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escrevo que estou completamente deslumbrado
(meu deus, cadê meu gin!?)
Pobre Hsiao-Kang, vítima eterna das maldades de Tsai Ming-liang.
Eu confesso que eu fiquei com dor de cabeça durante uma parte da sessão de tanta solidão e errância que o filme traz(talvez tenha sido so fome porque depois que comi a dor de cabeca diminuiu).É realmente um exercicio de descolonização das expectativas imageticas e reaprendizado do olhar. Também confesso que minha atenção se desviou durante uma parte do filme, nos 40 minutos exatamente,para outras coisas, mas depois voltou, acredito que ainda estou nesse processo de desaprender. Tendo dito tudo isso, essa solidão e errancia era o que eu tava procurando e por isso não posso reclamar. Os filmes do Tsai de alguma forma me acolhem nesse sentimento de solitude e as imagens que ele constroi de alguma forma aumentam o vazio e diluem um pouco ele. Eu terminei o filme menos ansioso do que comecei mas existiu uma angustia no processo de desaprender, de me concentrar, uma inquetude que é tanto provocada pela lentidão do filme quanto pelo processo de descolonização, o que foi muito bom. Definitivamente, é um filme que precisarei rever daqui ha um tempo(3 ou 5 anos?) para aprecia-lo melhor, e me reencantar com toda essa construção. Mas vou deixar um registro aqui sobre o que eu achei do filme e o que me incomodou também
- Esse processo de mostrar a brutalizaçao causada pelo neoliberalismo e de certa forma trazer a tona a ideia de animalidade e humanização , esse questionamento de como o neoliberalismo torna tudo uma miseria me incomodou da forma como foi feito. O filme de certo modo despersonaliza totalmente a protagonista e os paralelos de animalização remetem também a uma logica colonial, uma logica da dor perpertua.Nao que se deva amenizar a situação ou romantiza-la,o que seria muito pior, mas o processo de desumanização que o filme incute me incomoda,porque parece engessar em um primeiro momento(preciso rever pra confirmar) essa brutalizaçao, como se não houvesse saida para ela.Ate daria para se esperar que o painel que os protagonistas encaram forneceria algum tipo de redenção a toda essa animalização e brutalização, mas não, as imagens do Tsai se mostram justamente na direção oposta. Como se o painel,que é talvez uma alegoria pra arte e pro proprio filme do Tsai( que assim como um painel tem longos takes, quase estáticos, como se fossem imagens congeladas e em que nos seriamos como os protagonistas olhando aquelas imagens estáticas/congeladas, esperando que algo aconteça ), não pudesse de alguma forma transformar não so aqueles protagonistas, mas nao pudesse transformar o telespectador que assiste ao painel/filme, assim como os protagonistas olham para o painel.O painel/filme não fornecem assim nenhum mecanismo para redenção de quem quer seja, ou para a transformação da realidade. Parece que a unica possibilidade é que nos,assim como os protagonistas, so possamos encarar o painel/filme, observa-lo, de algum modo nos aproveitarmos do caráter catártico que ele abre espaço- o tempo pra se refletir sobre si como cartase muito mais do que a obra em si- e continuar a vida. Ate certo ponto entendo o niilismo do Tsai para com a propria obra, como um reconhecimento dos limites de transformação do cinema, mas ele parece se resignar a essa condição e perpetua-la. A cena na qual a protagonista faz xixi enquanto olha o painel foi a cena que mais me incomodou nesse sentido, nessa resignação ao neoliberalismo e a retomada de ideais como a animalização e a impossibilidade do cinema e da arte pra transformar isso.( as cenas na qual o protagonista come também de certa forma passam essa mensagem).
-A cena do protagonista matando e depois comendo o repolho da filha pra mim simbolizou o desejo que ele tinha de matar a propria filha, desejo esse que apesar de não dito chegou ate a filha e por isso ele grita o nome dela em 2 outras ocasiões enquanto ela tenta ir embora. Na primeira naquela cena da chuva,quando ela foge com o dinheiro,na segunda quando ela realmente abandona ele, tambem em uma cena de chuva, apos eles sairem do barco e ela pisar na mão dele, impedindo que ele subisse na arvore junto a ela e o irmão.
- o Tsai é realmente muito bom em mostrar como o ambiente pode expressar os sentimentos dos protagonistas
Tsai Ming-liang provoca o espectador com temas como vazio, solidão, individualidade, exploração, silêncio, destruição, entre outros. "Cães Errantes" é um filme para sentir profundamente o que os personagens estão tentando demonstrar a partir de situações que, para alguns, podem ser consideradas fúteis.
— As rachaduras nas paredes são por causa de fantasmas?
— A parede está doente.
— Como assim?
— A casa é uma pessoa. Fica doente, fica velha. As rachaduras nas paredes são como rugas. Está vendo? Toda casa tem uma história.
O filme parece ter uma fenda temporal, um ponto de quebra, que é evidenciado pela mulher de espírito maternal do mercado, no momento em que vai ao prédio alimentar os cachorros no prédio abandonado. Mas estes estão já de fastio. Adentrando as instalações, ela para e observa longamente um mural representando um rio de pedras, um rio seco. Mural que na verdade é parte do seu próprio passado. Nos momentos finais em que essa mulher resgata as crianças de serem lançadas pelo pai embriagado num rio em tempestade, uma elipse nos joga no interior de uma casa degradada e lá estão as crianças e uma mulher mais jovem, que parece ser a mãe. Ela sai com o pai das crianças para alimentar aqueles mesmos cachorros, daquele mesmo prédio, adentrando-o para contemplarem longamente aquele mesmo mural.
Os cães, o mural, o vazio, as marcas nas paredes, tudo são substâncias do qual esses personagens são feitos. As longas sequências paradas, quase obsessivas em que os dois contemplam são excessivas, potencializam as introjeções e perplexidade dos próprios, ao se observarem nos reflexos que todas essas marcas, umidade, fendas e paredes arruinadas carregam, como traços de suas biografias.