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Camponeses contam a amizade com os 'Paulistas' (militantes do PCdoB), que protagonizaram a guerrilha do Araguaia (1972-1974). Eles revelam as atrocidades cometidas pelo exército brasileiro na região, no período da ditadura militar.
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A Guerrilha do Araguaia sob a Ótica do Exército Brasileiro - 1973.
Durante o período da ditadura militar, o Exército Brasileiro tratou a Guerrilha do Araguaia como uma operação de contraguerrilha e segurança interna. Na visão oficial das Forças Armadas à época, o foco instalado na região do rio Araguaia, entre Pará, Maranhão e Goiás, era compreendido como um grupo subversivo armado que representava risco à estabilidade institucional do Estado.
O enquadramento do conflito: "Ameaça interna e influência externa"
Para o comando militar de 1973, o PCdoB havia enviado militantes urbanos para a selva com o objetivo de criar um "foco guerrilheiro" nos moldes da Revolução Cubana. Os documentos militares da época classificavam a área como uma "República de Marabá", uma zona libertada onde o Estado não exercia soberania. Assim, a ação era justificada internamente como combate à insurgência armada e defesa da integridade territorial e da ordem constitucional vigente naquele momento. A proximidade com o contexto da Guerra Fria também era usada para argumentar que o movimento recebia inspiração de modelos revolucionários estrangeiros.
A mudança de doutrina em 1973: Operação Marajó
Após as duas primeiras campanhas de 1972, avaliadas como ineficazes por envolverem muitos soldados convencionais em terreno de selva, o Estado-Maior do Exército adotou a doutrina de contraguerrilha. A Operação Marajó foi planejada com base em três pilares, segundo a lógica militar:
Primeiro, o uso de tropas especializadas e reduzidas, com paraquedistas e comandos, atuando em pequenos destacamentos e sem identificação para evitar alertar o inimigo.
Segundo, o isolamento operacional da área, com controle de acesso e censura, para impedir a comunicação dos guerrilheiros com o exterior e negar logística ao grupo.
Terceiro, a conquista da população local, por meio da cooptação de posseiros como guias, já que estes conheciam as trilhas e os deslocamentos na floresta.
O desfecho tático de 1973
Do ponto de vista militar, 1973 foi o ano de êxito operacional. O ataque ao acampamento Chafurdão em 25 de dezembro de 1973, que resultou na morte de Maurício Grabois, foi considerado o golpe de comando que desarticulou a estrutura de liderança da guerrilha. Com a morte dos quadros principais e a dispersão dos demais combatentes, o Exército considerou o foco militarmente neutralizado ainda no final daquele ano. Os combates residuais se estenderam até 1974 e 1975, mas sem capacidade de reorganização do grupo.
A doutrina de "não deixar rastro"
Na documentação militar, a ausência de prisioneiros e de processos formais era justificada pela natureza da guerra na selva. O argumento era de que não havia condições logísticas para manter, transportar e julgar capturados em área de conflito ativo, e que os enfrentamentos terminavam com a morte dos combatentes no local. Os sepultamentos em valas não identificadas foram tratados como procedimento de campo para evitar contaminação e para não criar locais de memória que pudessem ser usados politicamente.
Os depoimentos mostram como os guerrilheiros chegaram à região, tentando se integrar à comunidade, ensinando os moradores a ler e escrever, prestando auxílio médico e falando sobre política. Para muitos camponeses, eles não eram "comunistas", mas simplesmente "os paulistas" ou "o pessoal da cidade".
O filme expõe a brutalidade da repressão do Exército, que não se dirigiu apenas aos guerrilheiros, mas de forma indiscriminada contra a população local. Os camponeses eram vistos como suspeitos de colaborar com a guerrilha e, por isso, sofreram torturas, prisões arbitrárias, execuções e humilhações.
Após o fim do conflito, os moradores foram coagidos ao silêncio por décadas, ameaçados para que não contassem o que viram e viveram. O filme funciona como um ato de rompimento desse silêncio, dando voz e protagonismo a essas pessoas.
manooooooo que FODAAAAAAAAAAA
É difícil apontar a pior mancha deixada pela Ditadura Civil-Militar de 64, mas talvez a guerrilha do Araguaia (que não foi guerrilha, foi massacre) seja a mais macabra delas. O horror de uma guerra que aconteceu na calada da noite, longe das metrópoles, contra inimigos que os próprios soldados sequer sabiam quem eram. Passado o conflito, esses mesmos soldados foram descartados, largados à própria sorte, cheios de estresse pós-traumático e outros transtornos psicológicos irreversíveis. O documentário mostra que o sadismo do Exército não poupou ninguém no Araguaia. Guerrilheiros do PCdoB pagaram um alto preço, mas também índios, mulheres (algumas delas grávidas que perderam seus bebês), idosos e crianças. Essa gente simples continuou sendo perseguida mesmo depois da redemocratização do país, e várias morreram nos anos seguintes devido represálias. Quando deixa-se que a História seja varrida para debaixo do tapete é isso que acontece. Revisionismo histórico é um bang foda.
Acredito que o ponto mais importante na realização de documentários como Camponeses no Araguaia é oferecer direito de fala, voz mesmo, àqueles que sofreram tanto por tanto tempo sem oportunidade de contar a verdade... Em tempos de tentativa de revermos nosso passado de violência durante a ditadura, de punir quem deve ser punido, lembrar para não esquecer os crimes, enfim, hoje se faz ainda mais necessário rever e conversar sobre filmes como esse.