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Na contramão do imaginário socialmente estratificado em torno da epidemia da AIDS no Brasil, e da sorofobia cotidiana direcionada às pessoas que vivem com HIV, o documentário se lança no gesto de remodelar e se apropriar desses termos e imagens tão codificados, voltando-se para o olhar de sete artistas e um médico ativista sobre suas trajetórias, seus desejos e percepções. Junto às entrevistas que ancoram o filme, reverberando a provocação presente no título, reside a aposta nas formas e discursos artísticos como possibilidade de elaboração crítica e afirmação de vida no presente.
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Achei alguns dos relatos interessantes, mas não sinto que é uma proposta que converse com TODOS os públicos, no sentido informativo mesmo.
Ao meu ver, o filme cumpre metade do que se dispõe a fazer. Ou seja, mostra a AIDS sob a perspectiva de quem a tem, mas atinge apenas os convertidos. Não há depoimentos de pessoas que não sejam LGBTQIA+ e erra ao filmar duas performances (em especial, a penúltima), que servem mais para chocar e afastar, do que aproximar pessoas de fora da cena LGBTQIA+. Inclusive, o filme acaba sendo um grande desserviço, pois com essas duas últimas performances chocantes, marginaliza a comunidade LGBTQIA+ e alimenta a falsa e mofada ideia de que o HIV é uma "praga gay".
O grande problema do documentário é adotar a posição de "pregar para convertidos". Direcionado para um "nicho", Deus Tem AIDS aborda um tema extramamente pertinente, mas conversa consigo mesmo, impedindo que seu diálogo fure a bolha.
Acho extremamente interessante um documentário assumir um tom provocador, tendo em vista que o padrão deste tipo de produção concorre para ser algo complacente, meio chapa branca. Contudo, por mais que o título seja impactante, não só os argumentos não se sustentam dada a edição burocrática demais para a expectativa, como parece faltar conteúdo, principalmente para contextualizar o documentário no seu momento histórico (corrigido pelos créditos finais, em relação ao governo que presidira o Brasil e à COVID, ambos os temas tratados superficialmente no filme).
As vozes de pessoas convivendo com HIV foram escolhidas de forma muito acertada, e o melhor de tudo isso é encontrar "beleza" em suas falas. Então não espere um documentário cheio de lamúria e vitimismos, ainda que a dificuldade daqueles corpos seja latente. Se já é difícil ser um LGBTQIAPN+ num país onde mais se cometem crimes de ódio no mundo, imagine carregar o estigma social de ter o vírus. Aliás, ainda não conhecia o termo "sorofobia", repetido mais de uma vez ao longo das falas.
Há excelentes tiradas aqui, mesmo que não tão inovadoras, como a leitura de poema (que dá nome ao título) e de frases de autores acadêmicos, ou mesmo postar-se para conversar a respeito. Mas a grande sacada do filme é mesmo a sua veia artística, é aí que o filme cresce, mesmo que a câmera esteja de modo convencional demais. São nas performances transgressoras que o documentário faz jus ao título e estimula a pensar, seja provocando o libido ou manipulando sangue em um corpo nu retorcendo-se de forma plástica. Tudo com um grau de sensibilidade absurda, mas principalmente, genuinamente honesta.
Faltou um pouco de contextualização histórica, retomar a COVID e o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro soou um tanto quanto deslocado, acredito que pela naturalidade da produção, e principalmente por focar num tom artístico, o filme acabou indo inconscientemente ao caminho atemporal da coisa. No entanto, a chamada de sua sinopse ao destacar os 40 anos do surgimento da AIDS parece não abarcar esse fragmento. Acabou que o roteiro optou pelo que tinha em mãos, as experiências vivas dos indivíduos contemporâneos, que dados os ganhos e retrocessos, são resistência no sentido mais profundo do termo.
"Esse é o problema. Achar que essa conversa é só pra quem tem."
Deus tem AIDS (Brasil/2021).
Direção: Fábio Leal e Gustavo Vinagre.
Quarenta anos após o início da pandemia da AIDS, sete artistas e um médico ativista oferecem novas perspectivas sobre a sorofobia no Brasil.
Através da dança, atuação e poesia, o pulsante e importantíssimo documentário infringe as normas heterossexuais e o gênero e o sexo binário enquanto oferece uma visão contemporânea do HIV.
Um grito mobilizador contra o estigma do HIV, dando voz aos invisíveis no Brasil de Bolsonaro.
Transgressor, o filme vai além da mera informação, põe literalmente o dedo na ferida.
Esse filme indispensável está disponível no catálogo da Mubi.