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Data de lançamento
26 Junho 2020Duração
No centro de São Paulo, um imigrante libanês há muitos anos no Brasil é assaltado e jogado no porta-malas de seu próprio carro. Uma mulher, testemunha do acaso que passava pelo local, também é lançada no mesmo espaço. Sem nunca terem se visto na vida, os dois são obrigados a dividir o minúsculo ambiente sem saber por onde o automóvel circula.
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O filme "Dora e Gabriel" dirigido por Ugo Giorgetti mergulha em um microcosmo que reflete as complexidades e tensões de nossa sociedade contemporânea. Ambientado no claustrofóbico espaço do porta-malas de um carro, o filme tece uma narrativa que vai além do mero confinamento físico, explorando as profundezas da psique humana e as dinâmicas sociais em um contexto de crise.
Através do encontro fortuito entre um imigrante libanês e uma mulher desconhecida, o filme nos convida a refletir sobre questões universais de identidade, preconceito e solidariedade. Enquanto os dois personagens são forçados a compartilhar esse espaço exíguo, somos confrontados com as camadas de suas personalidades, suas histórias de vida e seus conflitos internos.
A genialidade de Giorgetti reside na forma como ele utiliza esse cenário limitado para explorar questões mais amplas sobre a condição humana. Os diálogos entre os personagens são carregados de significado, revelando não apenas suas diferenças individuais, mas também as tensões subjacentes em nossa sociedade.
Ao mesmo tempo, o filme serve como um espelho para os tempos sombrios em que vivemos, capturando a sensação de estar à mercê de forças além de nosso controle. Em meio ao caos e à incerteza, somos confrontados com nossos próprios medos e preconceitos, forçados a reavaliar nossas noções de identidade e solidariedade.
Em última análise, "Dora e Gabriel" é mais do que apenas um filme sobre confinamento físico; é uma meditação profunda sobre as complexidades da condição humana e as forças que moldam nossas vidas. Em um mundo cada vez mais dividido e polarizado, é um lembrete oportuno da necessidade de compreensão, empatia e solidariedade mútua.
Que filmaço!
Muito bom e que cena final, hein?
Ugo Giorgetti é genial: paulistano da gema, analisa os excluídos, a partir da lógica da espera, do confinamento... Como muitos apontaram, é quase profético que este filme tenha sido realizado pouco antes da quarentena imposta pela pandemia. E, mais que isso, os diálogos são sintomáticos: "precisamos resistir", "eles parecem boas pessoas, gente normal"... Pois é, exatamente isso, mas não apenas: além de diagnosticar muito bem o modo como surgem e se retroalimentam os preconceitos advindos das primeiras impressões, o filme propõe-se a refletir sobre os "mecanismos ideológicos do aparelho de base", numa perspectiva em que a direção fotográfica de Walter Carvalho emule tanto Alfred Hitchcock quanto Jean-Louis Baudry: aquele olho que tantas vezes invade a tela é o nosso, justamente. Ary França está incrível em sua personificação, e Natalia Gonsales empreende a delicada tarefa de equiparar os sons de um ataque de asma a um orgasmo violento, sem que isso pareça ridículo. Não obstante a condução aprisionada, não é um filme teatral, mas muito, muito cinematográfico: metalingüístico até. Rima diretamente com A CIDADE IMAGINÁRIA (sobretudo no desfecho), para focar noutra grande obra menosprezada do diretor. Os figurinos também são muito cuidadosos: a roupa listrada da mulher parece o uniforme de um campo de concentração. O ritmo é estabelecido com sobriedade: muito, muito bom! (WPC>)
Vi no festival cinema em casa do Espaço Itaú Play. É um filme bem minimalista, com uma premissa bastante interessante que se apoia nos diálogos dos dois reféns no porta malas do carro. A atriz que faz a Dora às vezes dá uma exagerada, aí perde em realismo sua atuação. Algumas falas dos criminosos que conduzem o veículo são inaudíveis, o que prejudica a compreensão de algumas situações. Um problema para este que é um filme para se "ver com os ouvidos".
Pode conter spoilers a partir daqui:
Não sei se captei de forma equivocada, mas senti que o filme possui uma dimensão política de reflexão sobre como estamos atravessando esses tempos escuros, reféns de uma quadrilha no controle, sem saber para onde estamos indo como nação. Passamos de criminoso para criminoso e continuamos trancados no porta malas, brigando entre nós para saber quem é que os bandidos queriam de fato pegar, expondo nossos preconceitos, nossas virtudes e vícios. Ora evocando unir forças ora trocando acusações e permanecendo mais e mais tempo trancados no porta malas desse automóvel sequestrado que é nosso país...
Há planos muito bons, muito bonitos, como a visão que os reféns tem de um avião passando quando o porta malas é aberto. A chegada final a um cenário inóspito de abandono é também bastante significativo e pressagia o rumo que estamos tomando enquanto povo.
Seu andamento lento só não prejudica ainda mais a película porque se trata de um filme bem curtinho. Mas confesso que acabei gostando da experiência.