Possui Spoilers. Leia após ter assistido a série, e fica minha recomendação, é muito boa.
"DTF St. Louis" começa parecendo uma comédia de humor negro sobre sexo, infidelidade, fetiches e crise de meia-idade, mas aos poucos revela que seu verdadeiro assunto é muito mais melancólico: a necessidade humana de ser visto, desejado, compreendido e, sobretudo, de sentir que se é importante para alguém. A minissérie usa Floyd, Clark, Carol e Richard para desmontar a aparência de normalidade suburbana e mostrar que ninguém é realmente tão simples quanto parece visto "da casa do outro lado da rua", porque por trás de casamentos, empregos, rotinas e fachadas aparentemente estáveis existem solidão, vergonha, insegurança corporal, ressentimento, medo de envelhecer, desejo de liberdade e uma profunda dificuldade de comunicar aquilo que realmente se sente. Floyd é o personagem que concentra melhor essa tragédia, pois sua busca por validação sexual esconde algo muito mais básico: a necessidade de saber que ainda tem valor, que ainda pode ser desejado e que sua existência faz diferença para alguém; sua crise de meia-idade não nasce apenas do envelhecimento, mas da percepção dolorosa de que algumas possibilidades já se fecharam e de que a vida talvez tenha se tornado muito menor do que aquilo que um dia imaginou. A série também acerta ao mostrar que sexo, novidade e desejo podem funcionar como tentativas de anestesiar crises existenciais que eles não conseguem resolver: o aplicativo DTF promete prazer casual e liberdade, mas a história demonstra que não existe intimidade completamente neutra, porque toda experiência carrega expectativas, ego, ciúme, comparação, memória e consequência. Clark, por sua vez, talvez seja o personagem mais moralmente interessante porque confunde sexualidade com conexão e parece buscar em Carol algo que, no fundo, talvez estivesse tentando encontrar em Floyd: intimidade, amizade, vulnerabilidade e a possibilidade de ser ridículo, inseguro e humano diante de outro homem sem precisar transformar tudo em performance. É justamente aí que a minissérie faz um comentário muito forte sobre masculinidade e solidão masculina, mostrando como homens adultos podem estar cercados de pessoas e ainda assim não possuir relações nas quais consigam dizer simplesmente "não estou bem", e como o sexo acaba às vezes ocupando espaços emocionais que deveriam também pertencer à amizade, à ternura e ao afeto não sexual. Carol também é tratada com mais complexidade do que a simples figura da esposa infiel, pois sua busca por desejo, autonomia e novidade é mostrada como sintoma de um casamento que já estava se desfazendo antes de Clark, reforçando uma das ideias mais maduras da série: grandes rupturas raramente surgem do nada, mas costumam apenas revelar rachaduras antigas feitas de silêncio, frustração, distância e ressentimento. Quando o mistério finalmente revela que Floyd não foi assassinado, mas tirou a própria vida, toda a estrutura policial se transforma numa ironia cruel, porque a pergunta "quem matou Floyd?" se mostra inadequada diante de uma tragédia que não possui um único culpado, uma única arma ou um único motivo, mas uma longa cadeia de vergonha, rejeição, solidão, perda de identidade, medo de fracassar como marido e pai, insegurança com o próprio corpo e sensação de não haver mais saída. Isso também torna Richard fundamental, porque Floyd constrói grande parte de seu sentido de propósito em torno do desejo de protegê-lo e ser importante para ele, e o olhar do garoto no momento final é interpretado por Floyd como a confirmação de que fracassou justamente naquilo que mais importava. A série, porém, evita transformar essa dor numa equação moral simples e prefere insistir em algo mais desconfortável: compreender alguém não significa absolvê-lo, mas também não precisamos reduzir uma pessoa ao pior erro que cometeu. É por isso que a palavra que melhor resume a moral de DTF St. Louis talvez seja "ternura": responsabilidade e compaixão não são opostas, e uma pessoa pode ter errado, ferido os outros e ainda assim continuar merecendo humanidade, escuta e a possibilidade de dizer que está desmoronando antes que seja tarde demais. No fim, a minissérie é muito menos sobre sexo do que sobre pessoas tentando usar sexo, desejo, casamento, status e novidade para responder a uma pergunta muito mais simples e devastadora: "eu importo para alguém?". Sua maior força está justamente em transformar personagens ridículos, confusos e moralmente falhos em figuras profundamente humanas, e em lembrar que a aparência de normalidade não significa ausência de sofrimento, que intimidade sempre deixa marcas e que talvez a forma mais importante de cuidado seja oferecer presença antes que alguém pareça precisar desesperadamente dela.
Fazia tempo que uma série não me conquistava tanto. Complexa, provocativa e muito humana, DTF entrega uma reflexão sensível sobre masculinidade, suas contradições, vulnerabilidades e os papéis que a sociedade espera dos homens.
Deve-se ser muito engenhoso para compreender o que se pode levar a sério e o que é a comédia do roteiro. Eu penso que isso vem de um roteiro esperto, que não entrega as cartas todas de uma vez nem propõe delimitações rígidas do que são os gêneros de suspense, de investigação e de comédia. No entanto, eu não sei se isso me agradou tanto assim. Talvez o tempo faça com que eu goste mais.
Harbour e Bateman estão muito bem em seus respectivos papéis. Eu fiquei em dúvida se eu não gosto da atuação da Linda Cardellini ou se eu só não vou com a cara da personagem dela.
Em relação à resolução do mistério, era o mais óbvio que poderia ter acontecido. Acho que a atração pela série não está no mistério, mas no quão estranha ela é.
Ah, e só para mencionar, estou completamente viciado na versão de "Let the Sunshine In" do grupo The Fifth Dimension, que compõe a abertura da série (muito boa por sinal).
Possui Spoilers. Leia após ter assistido a série, e fica minha recomendação, é muito boa.
"DTF St. Louis" começa parecendo uma comédia de humor negro sobre sexo, infidelidade, fetiches e crise de meia-idade, mas aos poucos revela que seu verdadeiro assunto é muito mais melancólico: a necessidade humana de ser visto, desejado, compreendido e, sobretudo, de sentir que se é importante para alguém. A minissérie usa Floyd, Clark, Carol e Richard para desmontar a aparência de normalidade suburbana e mostrar que ninguém é realmente tão simples quanto parece visto "da casa do outro lado da rua", porque por trás de casamentos, empregos, rotinas e fachadas aparentemente estáveis existem solidão, vergonha, insegurança corporal, ressentimento, medo de envelhecer, desejo de liberdade e uma profunda dificuldade de comunicar aquilo que realmente se sente. Floyd é o personagem que concentra melhor essa tragédia, pois sua busca por validação sexual esconde algo muito mais básico: a necessidade de saber que ainda tem valor, que ainda pode ser desejado e que sua existência faz diferença para alguém; sua crise de meia-idade não nasce apenas do envelhecimento, mas da percepção dolorosa de que algumas possibilidades já se fecharam e de que a vida talvez tenha se tornado muito menor do que aquilo que um dia imaginou. A série também acerta ao mostrar que sexo, novidade e desejo podem funcionar como tentativas de anestesiar crises existenciais que eles não conseguem resolver: o aplicativo DTF promete prazer casual e liberdade, mas a história demonstra que não existe intimidade completamente neutra, porque toda experiência carrega expectativas, ego, ciúme, comparação, memória e consequência. Clark, por sua vez, talvez seja o personagem mais moralmente interessante porque confunde sexualidade com conexão e parece buscar em Carol algo que, no fundo, talvez estivesse tentando encontrar em Floyd: intimidade, amizade, vulnerabilidade e a possibilidade de ser ridículo, inseguro e humano diante de outro homem sem precisar transformar tudo em performance. É justamente aí que a minissérie faz um comentário muito forte sobre masculinidade e solidão masculina, mostrando como homens adultos podem estar cercados de pessoas e ainda assim não possuir relações nas quais consigam dizer simplesmente "não estou bem", e como o sexo acaba às vezes ocupando espaços emocionais que deveriam também pertencer à amizade, à ternura e ao afeto não sexual. Carol também é tratada com mais complexidade do que a simples figura da esposa infiel, pois sua busca por desejo, autonomia e novidade é mostrada como sintoma de um casamento que já estava se desfazendo antes de Clark, reforçando uma das ideias mais maduras da série: grandes rupturas raramente surgem do nada, mas costumam apenas revelar rachaduras antigas feitas de silêncio, frustração, distância e ressentimento. Quando o mistério finalmente revela que Floyd não foi assassinado, mas tirou a própria vida, toda a estrutura policial se transforma numa ironia cruel, porque a pergunta "quem matou Floyd?" se mostra inadequada diante de uma tragédia que não possui um único culpado, uma única arma ou um único motivo, mas uma longa cadeia de vergonha, rejeição, solidão, perda de identidade, medo de fracassar como marido e pai, insegurança com o próprio corpo e sensação de não haver mais saída. Isso também torna Richard fundamental, porque Floyd constrói grande parte de seu sentido de propósito em torno do desejo de protegê-lo e ser importante para ele, e o olhar do garoto no momento final é interpretado por Floyd como a confirmação de que fracassou justamente naquilo que mais importava. A série, porém, evita transformar essa dor numa equação moral simples e prefere insistir em algo mais desconfortável: compreender alguém não significa absolvê-lo, mas também não precisamos reduzir uma pessoa ao pior erro que cometeu. É por isso que a palavra que melhor resume a moral de DTF St. Louis talvez seja "ternura": responsabilidade e compaixão não são opostas, e uma pessoa pode ter errado, ferido os outros e ainda assim continuar merecendo humanidade, escuta e a possibilidade de dizer que está desmoronando antes que seja tarde demais. No fim, a minissérie é muito menos sobre sexo do que sobre pessoas tentando usar sexo, desejo, casamento, status e novidade para responder a uma pergunta muito mais simples e devastadora: "eu importo para alguém?". Sua maior força está justamente em transformar personagens ridículos, confusos e moralmente falhos em figuras profundamente humanas, e em lembrar que a aparência de normalidade não significa ausência de sofrimento, que intimidade sempre deixa marcas e que talvez a forma mais importante de cuidado seja oferecer presença antes que alguém pareça precisar desesperadamente dela.
Recomendo, nota 9/10. Disponível na HBO MAX.
Eu sou igual ao investigador tentando entender os gostos de alguns kkk
Muito boa, porém em alguns momentos senti que estavam subestimando a inteligência do espectador
Fazia tempo que uma série não me conquistava tanto. Complexa, provocativa e muito humana, DTF entrega uma reflexão sensível sobre masculinidade, suas contradições, vulnerabilidades e os papéis que a sociedade espera dos homens.
É uma série que causou estranhamento como poucas.
Deve-se ser muito engenhoso para compreender o que se pode levar a sério e o que é a comédia do roteiro. Eu penso que isso vem de um roteiro esperto, que não entrega as cartas todas de uma vez nem propõe delimitações rígidas do que são os gêneros de suspense, de investigação e de comédia. No entanto, eu não sei se isso me agradou tanto assim. Talvez o tempo faça com que eu goste mais.
Harbour e Bateman estão muito bem em seus respectivos papéis. Eu fiquei em dúvida se eu não gosto da atuação da Linda Cardellini ou se eu só não vou com a cara da personagem dela.
Em relação à resolução do mistério, era o mais óbvio que poderia ter acontecido. Acho que a atração pela série não está no mistério, mas no quão estranha ela é.
Ah, e só para mencionar, estou completamente viciado na versão de "Let the Sunshine In" do grupo The Fifth Dimension, que compõe a abertura da série (muito boa por sinal).