Produção norueguesa sobre a história do grande pintor expressionista norueguês realizador de obras como "o grito", "a menina doente" entre outras obras.
puts a biografia perfeita de um artista a forma como as imagens se alinham, de diferentes momentos da vida do Munch, como elas se repetem também à maneira que se remetem em lembranças e a momentos da vida que o perturbaram pra sempre... gosto que enquanto demonstra aspectos da vida dele, a narrativa também se preocupa em nos situar com alguns acontecimentos às épocas relacionadas, o contato humano através do olhar das pessoas direcionados à câmera, as falas de mulheres que se posicionam frente ao conservadorismo que enfrentavam naquele tempo... e tudo caminha para a experiência de produzir, ver e consumir a arte através do tempo, cada um a sua maneira, e artistas incompreendidos
Um experimento biográfico-documental-ficcional extremamente arrojado, é de fato. Mas é necessário um distanciamento crítico - sei que essa geração não é afeita a isso, pois se não consegue separar autor de obra, quanto mais isso, e por isso sou do time antiemocional do crítico Hal Foster contrário ao emocional Didi-Huberman - para não confundir o filme de Peter Watkins com a obra de Edvard Munch. O filme realmente tem todos os louros e méritos de reconhecimento merecidos pela ousadia e originalidade da linguagem, mas a versão televisiva não é uma obra-prima - não vi a versão encurtada, para o cinema.
O fato de o diretor mesclar documentário anacrônico com reconstituição ficcional da vida de Munch, que em si já é algo louvável pela audácia, se consolida em termos de uma estética de aproximação subjetiva com o pintor na tentativa de reprodução dos estados psíquicos obsessivos que atormentam Munch como linguagem fílmica e elemento que fundamenta a narrativa. Quanto mais a duração do filme se impõe, mais os transtornos e as memórias traumáticas de Munch invadem as situações biográficas exibidas e o processo de construção das obras, : as imagens da família morrendo em tuberculose ou da primeira amante e eterna musa, Sra. Heiberg. Essa repetição incessante pode comprometer a fruição do filme numa duração tão exaustiva do formato televisivo, podendo ser mais bem sucedida no formato compacto do cinema. Nesse caso, o filme deixa de ser um docu-drama para ser uma série-delírio (TV) e filme-delírio (cinema), longe de eu defender uma linearidade narrativa e uma objetividade documental - até porque a intervenção anacrônica documental no cenário do fim do século XIX na Noruega já dissipa essa pretensão - que se afaste de interferências autorais ou reconstruções subjetivas dos delírios de Munch, mas a repetição do delírio como proposta poética e documental é muito arriscada enquanto procedimento formal e o filme tende a prender o espectador pela relevância do personagem Munch e menos pela questão formal de construção da narrativa.
A obra de Watkins remete a um filme de Rivette, que julgo, esse sim, uma obra-prima, La Belle Noiseuse, pois na mesma extensão, o diretor propõe uma imersão nos métodos de construção de uma pintura inspirada numa musa a ponto de a mise-en-scène se fundir sensorialmente nos atritos do pintor com a tela - o que evoca a tentativa de Watkins em inserir esteticamente os delírios de Munch como processo de criação das obras, em especial a volta incessante ao quadro Criança Doente. O que diferencia La Belle Noiseuse de Munch é justamente no ritmo: enquanto o primeiro executa uma imersão no processo criativo de um pintor na modalidade ficcional e focado apenas num momento temporal, Munch é pretensioso e desenvolve isso durante um longo período biográfico, fundindo várias linguagens (documentário, ficção, imersão psíquica como linguagem) num todo só. O que, imagino, é a proposta do diretor, aproximar a narrativa da confusão mental de Munch como proposta estética e de enredo.
Histeria atroz (Uma reflexão pessoal sobre O grito, de Edvard Munch)
O mundo das artes plásticas é, no mínimo, um tanto irônico. E por vezes, é bom que se diga, eu o considero mórbido. Porém, não vejo a morbidez nesse caso como algo menor, um defeito, um deslize. Pelo contrário. Minha relação com esse mundo das artes volta e meia precisa gerar controvérsia e há uma legítima adoração de minha parte pelo amargor, pela rigidez, pelo exótico, por aquilo que outros podem chamar prematuramente de negativo.
Em outras palavras: gosto do mórbido como reflexão. Acho-a mais do que justa. E nesse sentido poucos quadros na história mundial das artes plásticas chamaram tanto a minha atenção quanto O grito, de Edvard Munch (1863-1944).
E é preciso confessar aqui logo de cara: minha relação com a pintura não começa exatamente com o quadro em si. E sim com uma imagem que, na minha cabeça, sempre fez alusão à pintura. Falo da imagem que vejo do homem gritando no filme Pink Floyd: the wall, do diretor de cinema Alan Parker. E desde já adianto: se não há nenhuma relação entre filme e pintura, então eu cheguei até esta adoração e por conseguinte este texto por mera coincidência e nada mais.
A cultura pop nos últimos anos fez uma correlação entre O grito, de Munch, e a máscara do antagonista da série de filmes de suspense Pânico. Contudo, não gosto dessa referência. Acho até que ela diminui o trabalho do pintor.
O grito faz parte de uma série de trabalhos de Munch que ficou conhecida como A frisa da vida (ou um poema sobre o amor, a vida e a morte). E ele expunha seus quadros à ação da neve e da chuva, com o intuito de perder um pouco o controle do resultado final plástico. Em suma, um visionário de sua própria era. Detalhe: enganam-se aqueles que pensam existir apenas uma versão da tela. Só de litogravuras - que serviam de base para a criação - ele imprimiu 45, sendo que algumas foram coloridas à mão.
Muitos estudiosos interpretam a reação do personagem na tela - o grito em si - como fruto da ansiedade daqueles tempos ou do desespero pessoal do autor. E não estão completamente errados, não!
E, além disso, acredito piamente que esse sentimento do quadro perdura até os dias de hoje. Digo mais: tenho minhas dúvidas se o autor não estaria se sentindo ainda pior nesse século XXI no qual estamos tendo de encarar muitas das piores resoluções humanas de toda a nossa história. Ou seja, vivemos na prática uma espécie de histeria atroz (e vejo a tela de Munch gritando também sobre isso!).
Quando tiverem um tempo livre, procurem pela versão online do quadro na internet. Diferentemente da exatidão pintada por Goya e Leonardo da Vinci, a obra de Munch tem imagens distorcidas, já vi gente chamando até de "quase um borrão" e isso é proposital. Isso dialoga abertamente com o momento que o pintor vinha passando.
Ele parece esmiuçar o desespero de forma nítida, sem fingir sentimentos.
E nesse momento me pego refletindo sobre aqueles tempos amargos, sem a comodidade oferecida pela tecnologia (que tanto tem lobotomizado as gerações atuais!), sobre a dificuldade de criar em qualquer esfera, não somente a pintura. Era uma época em que, muitas vezes, artistas eram sinônimo de demoníacos, malditos. Portanto, qualquer obra artística, mais do que a ótica da beleza, do entretenimento, do gerar prazer aos outros, era preciso ser enxergada como um ato de sobrevivência.
E como sobreviver hoje em dia após anos e anos de artistas fundamentais como Munch, quando tudo parece tão vazio, tão raso de significado, tão fácil para uma minoria elitista cada vez mais covarde e blasé?
A meu ver, Munch elevou tanto o padrão do seu tempo que acabou por nos tornar acomodados em excesso por medo de tentar atingi-lo ou entendê-lo. E isso é muito ruim. Entretanto, ele faz algo também tão pessoal, tão acima da média, que me parece quase obrigatório estudar a vida e a obra de homens fora de série como ele.
Para isso servem (ou deveriam servir, pelo menos) as artes. O problema é a falta de curiosidade do mundo contemporâneo, cada vez mais apegado ao óbvio, ao mais do mesmo. E não é à toa que a tela está gritando até hoje!
P.S atrasado: mais de duas semanas depois de escrever este artigo leio numa matéria do Estado de São Paulo que pesquisadores tentam explicar para os fãs de artes plásticas porque O grito está desbotando, perdendo suas cores originais. E me pego pensando: não será isso proposital numa época em que tudo parece ter perdido completamente o seu sentido original? Talvez seu autor esteja cansado de gritar em vão e prefira desaparecer. Ou talvez seja apenas eu, este projeto de autor, vendo demais e enlouquecendo novamente.
O ano era 1886. Edvard Munch exibia pela primeira vez, em Kristiania (hoje Oslo), sua obra mais dolorosa e pessoal, “The Sick Child” (que revisitaria inúmeras vezes ao longo da vida), na qual sua amada irmã Johanne Sophie é confortada no leito de morte pela tia, momentos antes de sucumbir a uma tuberculose, aos 14 anos, mesma doença que vitimou sua mãe e que quase o matou. A pintura, com traços e marcas profundas sobre a tela, como se demonstrassem um estado de espírito intranquilo – ruptura drástica com o naturalismo e impressionismo da época –, causou controvérsia e indignação moral entre público e crítica, que a considerou feia, grotesca e inacabada, recepção hostil que se revelaria constante durante quase toda a trajetória artística do Munch.
Doença, morte, incomunicabilidade, solidão, ciúmes, isolamento, impotência e perplexidade do ser humano diante daquilo que não está sob seu controle. Esses são os temas centrais da obra do pintor norueguês, cuja infância e juventude marcadas pela dor, perda e traumas foram fatores propulsores para aquilo que o distinguiria de todos os pintores da época: o desejo inexorável de expressar sua visão subjetiva de mundo através da arte. Munch, então, foi além. A mera representação objetiva da realidade e da beleza concreta não teria lugar em sua busca por uma solução artística. Sua arte então seria a arte do coração, dos recônditos da psique, do sentimento, uma janela da alma para temas atemporais que sempre assombrariam a humanidade. Pintaria rostos vazios ou demasiado expressivos, com traços desfigurados e olhares partidos, corpos que se tocam, mas que não se tocam. Pintaria a angústia do não pertencimento, o sexo, a enfermidade, a ansiedade, a melancolia. "Na minha arte, eu tento explicar a vida e o seu significado a mim mesmo.", disse uma vez.
O primoroso docudrama de 1974 do Peter Watkins reconta, em suas 3h31min de duração e com uma atenção aos detalhes sem precedentes, todos esses momentos-chave da história da vida do Munch, dramatizando eventos reais com uma narrativa documental: sua conturbada relação com a família sempre convalescente, a morte da irmã mais nova, o fanatismo religioso do pai, as discussões acaloradas com poetas simbolistas e amigos boêmios e niilistas que tanto o influenciaram, o rompimento com a moralidade da época, os relacionamentos frustrados e disfuncionais, o rechaço público em galerias, a falta de reconhecimento, a busca pela verdade e pelo amor.
A câmera do Watkins, sempre atenta, investiga detalhes das pinturas, rostos, expressões e olhares – repetidamente, os atores e o próprio Munch encaram a câmera, como se revelassem no olhar negação, aflição, indolência, conflito, desalento ou até compreensão. É como se víssemos o mundo através dos olhos do Munch. A constante transposição de cenas não-cronológicas e a-lineares, muitas delas da sua infância, quando foi atacado pela tuberculose, e a fotografia enevoada e púrpura do filme criam uma espécie de fratura permanente na narrativa que serve para ilustrar a mente atormentada e conflitiva do pintor. Em uma das cenas mais devastadoras, Munch é objeto de escrutínio público em uma exibição e ao fundo ouvimos seu choro de miséria, vindo de outro tempo-lugar. Curiosamente, os personagens são interpretados por não-atores, dentre os quais muitos realmente não gostavam da obra do Munch e por isso suas opiniões violentas contra o pintor eram indesculpavelmente sinceras.
Vi poucos filmes que conseguiram criar uma dimensão tão pessoal da vida de um artista e de sua obra, ajudando a compreendê-las em um nível tão profundo e emocional. Talvez apenas Lust for Life, do Vincente Minnelli, sobre Van Gogh, chegue tão perto. Ou os documentários sobre o Crumb (Crumb, do Terry Zwigoff) e sobre o Chet Baker (Let's Get Lost, do Bruce Weber). Se antes apenas admirava, com certa distância, o Edvard Munch, com o filme do Watkins ele se tornou o meu favorito. Não apenas pela consistência e autenticidade de sua obra, mas pela sua resiliência enquanto artista, de não ceder às mentes mesquinhas e continuar acreditando em sua visão, buscando aperfeiçoá-la sempre, mesmo que isso lhe custasse a sanidade mental. Eis um homem que enfrentou toda uma sorte de intempéries, tragédias pessoais e ataques às suas obras durante a vida inteira e mesmo assim não abdicou de sua arte. Ao contrário, mergulhou cada vez mais no seu universo, dançou com seus demônios, abraçou sua loucura e seguiu até o fim de seus dias. Um extraordinário tratado sobre perseverança e humanidade sobre quem era, sem dúvidas, o Bresson do expressionismo.
Assisti pela segunda vez e estou sem fôlego de consciência, raciocínio. Me deixei consumir completamente pela aura e história do filme, nos diz exatamente sobre o que Munch queria dizer por si em suas obras. E é bom refletir e reconhecer o que isso diz respeito a nós mesmo e a sociedade em si, nós, como seres humanos e suas psiques frágeis. A opinião pública da época é um exemplo de não julgarmos qualquer modelo novo de arte, mesmo que nos estranhe, mesmo que tenha má crítica popular ou da mídia, mesmo que seja feia e doente e etc. Amo Munch, e amo esse filme que é o melhor do gênero biográfico que eu já assisti.
puts a biografia perfeita de um artista
a forma como as imagens se alinham, de diferentes momentos da vida do Munch, como elas se repetem também à maneira que se remetem em lembranças e a momentos da vida que o perturbaram pra sempre... gosto que enquanto demonstra aspectos da vida dele, a narrativa também se preocupa em nos situar com alguns acontecimentos às épocas relacionadas, o contato humano através do olhar das pessoas direcionados à câmera, as falas de mulheres que se posicionam frente ao conservadorismo que enfrentavam naquele tempo...
e tudo caminha para a experiência de produzir, ver e consumir a arte através do tempo, cada um a sua maneira, e artistas incompreendidos
Um experimento biográfico-documental-ficcional extremamente arrojado, é de fato. Mas é necessário um distanciamento crítico - sei que essa geração não é afeita a isso, pois se não consegue separar autor de obra, quanto mais isso, e por isso sou do time antiemocional do crítico Hal Foster contrário ao emocional Didi-Huberman - para não confundir o filme de Peter Watkins com a obra de Edvard Munch. O filme realmente tem todos os louros e méritos de reconhecimento merecidos pela ousadia e originalidade da linguagem, mas a versão televisiva não é uma obra-prima - não vi a versão encurtada, para o cinema.
O fato de o diretor mesclar documentário anacrônico com reconstituição ficcional da vida de Munch, que em si já é algo louvável pela audácia, se consolida em termos de uma estética de aproximação subjetiva com o pintor na tentativa de reprodução dos estados psíquicos obsessivos que atormentam Munch como linguagem fílmica e elemento que fundamenta a narrativa. Quanto mais a duração do filme se impõe, mais os transtornos e as memórias traumáticas de Munch invadem as situações biográficas exibidas e o processo de construção das obras, : as imagens da família morrendo em tuberculose ou da primeira amante e eterna musa, Sra. Heiberg. Essa repetição incessante pode comprometer a fruição do filme numa duração tão exaustiva do formato televisivo, podendo ser mais bem sucedida no formato compacto do cinema. Nesse caso, o filme deixa de ser um docu-drama para ser uma série-delírio (TV) e filme-delírio (cinema), longe de eu defender uma linearidade narrativa e uma objetividade documental - até porque a intervenção anacrônica documental no cenário do fim do século XIX na Noruega já dissipa essa pretensão - que se afaste de interferências autorais ou reconstruções subjetivas dos delírios de Munch, mas a repetição do delírio como proposta poética e documental é muito arriscada enquanto procedimento formal e o filme tende a prender o espectador pela relevância do personagem Munch e menos pela questão formal de construção da narrativa.
A obra de Watkins remete a um filme de Rivette, que julgo, esse sim, uma obra-prima, La Belle Noiseuse, pois na mesma extensão, o diretor propõe uma imersão nos métodos de construção de uma pintura inspirada numa musa a ponto de a mise-en-scène se fundir sensorialmente nos atritos do pintor com a tela - o que evoca a tentativa de Watkins em inserir esteticamente os delírios de Munch como processo de criação das obras, em especial a volta incessante ao quadro Criança Doente. O que diferencia La Belle Noiseuse de Munch é justamente no ritmo: enquanto o primeiro executa uma imersão no processo criativo de um pintor na modalidade ficcional e focado apenas num momento temporal, Munch é pretensioso e desenvolve isso durante um longo período biográfico, fundindo várias linguagens (documentário, ficção, imersão psíquica como linguagem) num todo só. O que, imagino, é a proposta do diretor, aproximar a narrativa da confusão mental de Munch como proposta estética e de enredo.
Histeria atroz
(Uma reflexão pessoal sobre O grito, de Edvard Munch)
O mundo das artes plásticas é, no mínimo, um tanto irônico. E por vezes, é bom que se diga, eu o considero mórbido. Porém, não vejo a morbidez nesse caso como algo menor, um defeito, um deslize. Pelo contrário. Minha relação com esse mundo das artes volta e meia precisa gerar controvérsia e há uma legítima adoração de minha parte pelo amargor, pela rigidez, pelo exótico, por aquilo que outros podem chamar prematuramente de negativo.
Em outras palavras: gosto do mórbido como reflexão. Acho-a mais do que justa. E nesse sentido poucos quadros na história mundial das artes plásticas chamaram tanto a minha atenção quanto O grito, de Edvard Munch (1863-1944).
E é preciso confessar aqui logo de cara: minha relação com a pintura não começa exatamente com o quadro em si. E sim com uma imagem que, na minha cabeça, sempre fez alusão à pintura. Falo da imagem que vejo do homem gritando no filme Pink Floyd: the wall, do diretor de cinema Alan Parker. E desde já adianto: se não há nenhuma relação entre filme e pintura, então eu cheguei até esta adoração e por conseguinte este texto por mera coincidência e nada mais.
A cultura pop nos últimos anos fez uma correlação entre O grito, de Munch, e a máscara do antagonista da série de filmes de suspense Pânico. Contudo, não gosto dessa referência. Acho até que ela diminui o trabalho do pintor.
O grito faz parte de uma série de trabalhos de Munch que ficou conhecida como A frisa da vida (ou um poema sobre o amor, a vida e a morte). E ele expunha seus quadros à ação da neve e da chuva, com o intuito de perder um pouco o controle do resultado final plástico. Em suma, um visionário de sua própria era. Detalhe: enganam-se aqueles que pensam existir apenas uma versão da tela. Só de litogravuras - que serviam de base para a criação - ele imprimiu 45, sendo que algumas foram coloridas à mão.
Muitos estudiosos interpretam a reação do personagem na tela - o grito em si - como fruto da ansiedade daqueles tempos ou do desespero pessoal do autor. E não estão completamente errados, não!
E, além disso, acredito piamente que esse sentimento do quadro perdura até os dias de hoje. Digo mais: tenho minhas dúvidas se o autor não estaria se sentindo ainda pior nesse século XXI no qual estamos tendo de encarar muitas das piores resoluções humanas de toda a nossa história. Ou seja, vivemos na prática uma espécie de histeria atroz (e vejo a tela de Munch gritando também sobre isso!).
Quando tiverem um tempo livre, procurem pela versão online do quadro na internet. Diferentemente da exatidão pintada por Goya e Leonardo da Vinci, a obra de Munch tem imagens distorcidas, já vi gente chamando até de "quase um borrão" e isso é proposital. Isso dialoga abertamente com o momento que o pintor vinha passando.
Ele parece esmiuçar o desespero de forma nítida, sem fingir sentimentos.
E nesse momento me pego refletindo sobre aqueles tempos amargos, sem a comodidade oferecida pela tecnologia (que tanto tem lobotomizado as gerações atuais!), sobre a dificuldade de criar em qualquer esfera, não somente a pintura. Era uma época em que, muitas vezes, artistas eram sinônimo de demoníacos, malditos. Portanto, qualquer obra artística, mais do que a ótica da beleza, do entretenimento, do gerar prazer aos outros, era preciso ser enxergada como um ato de sobrevivência.
E como sobreviver hoje em dia após anos e anos de artistas fundamentais como Munch, quando tudo parece tão vazio, tão raso de significado, tão fácil para uma minoria elitista cada vez mais covarde e blasé?
A meu ver, Munch elevou tanto o padrão do seu tempo que acabou por nos tornar acomodados em excesso por medo de tentar atingi-lo ou entendê-lo. E isso é muito ruim. Entretanto, ele faz algo também tão pessoal, tão acima da média, que me parece quase obrigatório estudar a vida e a obra de homens fora de série como ele.
Para isso servem (ou deveriam servir, pelo menos) as artes. O problema é a falta de curiosidade do mundo contemporâneo, cada vez mais apegado ao óbvio, ao mais do mesmo. E não é à toa que a tela está gritando até hoje!
P.S atrasado: mais de duas semanas depois de escrever este artigo leio numa matéria do Estado de São Paulo que pesquisadores tentam explicar para os fãs de artes plásticas porque O grito está desbotando, perdendo suas cores originais. E me pego pensando: não será isso proposital numa época em que tudo parece ter perdido completamente o seu sentido original? Talvez seu autor esteja cansado de gritar em vão e prefira desaparecer. Ou talvez seja apenas eu, este projeto de autor, vendo demais e enlouquecendo novamente.
“Quero vida. Aquilo que está vivo."
O ano era 1886. Edvard Munch exibia pela primeira vez, em Kristiania (hoje Oslo), sua obra mais dolorosa e pessoal, “The Sick Child” (que revisitaria inúmeras vezes ao longo da vida), na qual sua amada irmã Johanne Sophie é confortada no leito de morte pela tia, momentos antes de sucumbir a uma tuberculose, aos 14 anos, mesma doença que vitimou sua mãe e que quase o matou. A pintura, com traços e marcas profundas sobre a tela, como se demonstrassem um estado de espírito intranquilo – ruptura drástica com o naturalismo e impressionismo da época –, causou controvérsia e indignação moral entre público e crítica, que a considerou feia, grotesca e inacabada, recepção hostil que se revelaria constante durante quase toda a trajetória artística do Munch.
Doença, morte, incomunicabilidade, solidão, ciúmes, isolamento, impotência e perplexidade do ser humano diante daquilo que não está sob seu controle. Esses são os temas centrais da obra do pintor norueguês, cuja infância e juventude marcadas pela dor, perda e traumas foram fatores propulsores para aquilo que o distinguiria de todos os pintores da época: o desejo inexorável de expressar sua visão subjetiva de mundo através da arte. Munch, então, foi além. A mera representação objetiva da realidade e da beleza concreta não teria lugar em sua busca por uma solução artística. Sua arte então seria a arte do coração, dos recônditos da psique, do sentimento, uma janela da alma para temas atemporais que sempre assombrariam a humanidade. Pintaria rostos vazios ou demasiado expressivos, com traços desfigurados e olhares partidos, corpos que se tocam, mas que não se tocam. Pintaria a angústia do não pertencimento, o sexo, a enfermidade, a ansiedade, a melancolia. "Na minha arte, eu tento explicar a vida e o seu significado a mim mesmo.", disse uma vez.
O primoroso docudrama de 1974 do Peter Watkins reconta, em suas 3h31min de duração e com uma atenção aos detalhes sem precedentes, todos esses momentos-chave da história da vida do Munch, dramatizando eventos reais com uma narrativa documental: sua conturbada relação com a família sempre convalescente, a morte da irmã mais nova, o fanatismo religioso do pai, as discussões acaloradas com poetas simbolistas e amigos boêmios e niilistas que tanto o influenciaram, o rompimento com a moralidade da época, os relacionamentos frustrados e disfuncionais, o rechaço público em galerias, a falta de reconhecimento, a busca pela verdade e pelo amor.
A câmera do Watkins, sempre atenta, investiga detalhes das pinturas, rostos, expressões e olhares – repetidamente, os atores e o próprio Munch encaram a câmera, como se revelassem no olhar negação, aflição, indolência, conflito, desalento ou até compreensão. É como se víssemos o mundo através dos olhos do Munch. A constante transposição de cenas não-cronológicas e a-lineares, muitas delas da sua infância, quando foi atacado pela tuberculose, e a fotografia enevoada e púrpura do filme criam uma espécie de fratura permanente na narrativa que serve para ilustrar a mente atormentada e conflitiva do pintor. Em uma das cenas mais devastadoras, Munch é objeto de escrutínio público em uma exibição e ao fundo ouvimos seu choro de miséria, vindo de outro tempo-lugar. Curiosamente, os personagens são interpretados por não-atores, dentre os quais muitos realmente não gostavam da obra do Munch e por isso suas opiniões violentas contra o pintor eram indesculpavelmente sinceras.
Vi poucos filmes que conseguiram criar uma dimensão tão pessoal da vida de um artista e de sua obra, ajudando a compreendê-las em um nível tão profundo e emocional. Talvez apenas Lust for Life, do Vincente Minnelli, sobre Van Gogh, chegue tão perto. Ou os documentários sobre o Crumb (Crumb, do Terry Zwigoff) e sobre o Chet Baker (Let's Get Lost, do Bruce Weber). Se antes apenas admirava, com certa distância, o Edvard Munch, com o filme do Watkins ele se tornou o meu favorito. Não apenas pela consistência e autenticidade de sua obra, mas pela sua resiliência enquanto artista, de não ceder às mentes mesquinhas e continuar acreditando em sua visão, buscando aperfeiçoá-la sempre, mesmo que isso lhe custasse a sanidade mental. Eis um homem que enfrentou toda uma sorte de intempéries, tragédias pessoais e ataques às suas obras durante a vida inteira e mesmo assim não abdicou de sua arte. Ao contrário, mergulhou cada vez mais no seu universo, dançou com seus demônios, abraçou sua loucura e seguiu até o fim de seus dias. Um extraordinário tratado sobre perseverança e humanidade sobre quem era, sem dúvidas, o Bresson do expressionismo.
Assisti pela segunda vez e estou sem fôlego de consciência, raciocínio. Me deixei consumir completamente pela aura e história do filme, nos diz exatamente sobre o que Munch queria dizer por si em suas obras. E é bom refletir e reconhecer o que isso diz respeito a nós mesmo e a sociedade em si, nós, como seres humanos e suas psiques frágeis. A opinião pública da época é um exemplo de não julgarmos qualquer modelo novo de arte, mesmo que nos estranhe, mesmo que tenha má crítica popular ou da mídia, mesmo que seja feia e doente e etc. Amo Munch, e amo esse filme que é o melhor do gênero biográfico que eu já assisti.