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Data de lançamento
25 Maio 2016Duração
Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela.
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Eu não me lembro se esse filme foi polêmico quando saiu, porém entendo quem considera os filmes do Paul Verhoeven problemáticos. Não gosto de Showgirls justamente por isso, aliás. E acho que aqui também há questões: até que ponto é romantizado ou relativizado o abuso sofrido pela protagonista.
Por outro lado, acho interessante como ela vê esse homem que é vizinho dela como alguém que é parecido com o pai dela. Este homem que ataca sua vizinhança de modo tão brutal. Talvez ela até se pergunte se é possível que ele siga outro caminho. E acho que ao final ela entende que não, que ela não pode tentar novamente salvar um monstro.
Não sei, é uma protagonista interessante, com muitos fantasmas, que tenta não envolver a polícia justamente devido ao seu passado, que é salva pelo filho, ou seja, com uma cumplicidade que seu pai tentou ter com ela.
Interessante, no mínimo.
Pra quem gostou, recomendo O Matador, do Almodovar. Me lembrou, não sei porque.
Mas que filme louco, mas gostei...
Tão esquisito e bizarro que achei estar assistindo um filme do David Cronenberg. 🙃
Incrível, eu amo esse diretor demais. Aqui eu vou deixar um comentário que foi uma conversa que tive (por isso pode parecer embaralhado):
~ Tem spoiler ~
Tlou referenceee
Eu gosto como sutilmente os papéis vão se invertendo dentro do filme, e a gente nem percebe. O final não é claro.
A gente não sabe se ela foi estuprada, gostou da dinâmica e se arrependeu depois, ou se ela simplesmente não gostava desde o começo, mas continuava por medo, ou se ela atuava desde o primeiro estupro, e o "arrependimento" fazia parte do plano dela. Ela enganou todo mundo, até a nós que assistíamos ao filme?
O Paul Verhoeven tem isso de usar o corpo feminino como uma arma simbólica, que inicialmente é visto como fraco e algo fácil de ser dominado, mas que, aos poucos, sutilmente, vai ganhando certa força, e o desejo visceral masculino acaba virando a armadilha do próprio abusador. O impulso sexual se torna o veneno que se volta contra o homem de um jeito muito provocativo e desconfortável.
Em Conquista Sangrenta acontece isso também. Você pode ver que não existe mocinho ou vilão no filme, é como a realidade é.
Existe uma razão para o filme ser lento. Tudo nesse filme é pensado, cada detalhe - e isso reflete a protagonista.
A construção dos personagens e cenário provocativas, o filme todo tem muitas camadas. O diretor costuma fazer filmes longos por causa disso: o telespectador vai absorvendo cada detalhe e vai emergindo mais na história, pra, no final, acabar não tendo muita certeza de nada, ou tendo, mas não de forma clara e cuspida. Todo filme dele é assim kkkk.
Mas pelo menos eu não acho os filmes dele maçantes ou entediantes; algumas pessoas sim. Eu acho que todos os elementos dali são necessários para a narrativa, se complementam e fazem sentido no final de tudo. Não tem nada que escape.
Em Conquista Sangrenta, a personagem também usa o sexo como arma, mas de um jeito mais inocente e instintivo, até porque ela era virgem. Basicamente uma gangue de mercenários de 1600 a sequestra e estupram, mas, em vez de darem fim nela, ela consegue seduzir o comandante. A menina racionaliza, detém controle, como a Elle. Com um olhar, um toque, um mormurinho, o destino dela muda completamente. É uma cena muuuuito ruim, muito incômoda mesmo - estupro claro de verdade, uma pessoa puxando perna, braço, abrindo ela toda, ela desesperada, tudo ruim. Só que no final, em vez de ela aceitar a própria morte, ela aperta o braço do cara e dá um gemido; por causa disso, e por ela ser bonita, ele decide deixá-la viva.
Eu gosto de como ele joga com a sexualidade masculina e a vulnerabilidade feminina de um jeito não convencional. A Elle não era mocinha, ela não era coitada, mas também não era horrível. Inclusive ela usou o próprio filho: ela previu que o cara ia atrás dela, mas preferiu que o próprio filho matasse ele, do que aceitar que precisava da polícia. Ela consegue inverter o cenário e deter 100% do poder da narrativa de um jeito imoral. Mas, também, não foi só isso. Ela quis entregar parte daquele poder ao filho, para que ele não fosse visto como um fodido pela própria esposa eternamente.
Pesquisando há um tempinho atrás, descobri que também tem a ver com uma crítica à elite francesa.
Aqui começa os comentários da outra parte da conversa:
Gostei que ele é anti-drama, os personagens são majoritariamente odiáveis e quase dissociados do que está acontecendo.
Gosto de coisa que é autosuficiente, que não parece estar fazendo esforço pra cativar audiência. O filme vai falar o que ele quer falar, e você que se foda! É um "slow-burn" também, lento mesmo. Parece que vi duas horas de filme - tiveram certas cenas redundantes, mas no geral eu não cortaria muito tempo. Tem exaustão também: ele quer que você se canse do jogo deturpado que os personagens estão fazendo.
Se fosse uma fantasia de vingança genérica, terminaria com o cara acorrentado e ela cortando o pau dele só pra ser presa no final! Do jeito que foi, ela matou o cara e vida que segue. Autodefesa, já era. E a mulher dele sabia, deu a entender isso. La aberracion.
Tema sensível: estupro
O filme tem duas coisas que gosto muito, mas as principais são ser muito surpreendente e ter Isabelle Huppert (Michèle Leblanc).
Ótimo ritmo. Em alguns momentos mais lento, como que para dar tempo de os sentimentos, como tensão e desconforto, chegarem /á superfície. Em outros, mais acelerado, te tirando fôlego e certezas.
A gente nunca sabe exatamente para onde Michèle Leblanc está nos levando, mas sabemos que é perigoso. O final é o que se espera de um bom final de filme.