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Eneida, 83 anos, faz uma jornada rumo a seu passado, em busca da filha primogênita, que não vê há mais de duas décadas. Com a ajuda de sua filha do meio, a cineasta Heloisa Passos, embarca em uma odisseia para tentar derrubar o muro que divide a família, transitando por momentos de descobertas e medo, de esperança e incerteza.
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Gostei. Documentário de qualidade, a vida real.
Um documentário que vai ficar marcado na minha memória.
A escolha sobre como contar a história é linda e me carregou desde o início. A câmera de pertinho me fez sentir parte da família, quase. E me fez também encontrar questões da minha família que, apesar de vinda da periferia, vive dramas parecidos.
E sabe o mais legal de tudo? São os momentos e as pessoas que não vemos. E é o que preenche tudo aquilo que vemos nos olhos de Eneida.
Obrigado por este trabalho, Heloisa. Virei seu fã.
Eneida é de uma qualidade de outro nível, fisga o espectador sem sequer pedir licença, apreciei as tomadas de decisão na narrativa de Heloísa Passos, tudo isso logo quando pensei que esse doc não me serviria, que o mesmo não conversaria comigo. Agora, cá entre nós, como queria saber de pertinho todos os detalhes dessa fofoca. Bom, foi a sacada inteligente que não nos deixará dormir ou jamais esquecer essa senhora e o que ela fez de verdade.
Crítica: ‘Eneida’ nos mergulha em uma dor maternal – É Tudo Verdade
Conhecida por seu excelente trabalho como diretora de fotografia, a curitibana Heloisa Passos nos convida a uma imersão nos dramas de sua própria família. Eneida, documentário exibido no festival É Tudo Verdade, tem o nome de sua mãe, a história de sua mãe, a dor de sua mãe e uma sensação indigesta coletiva.
No longa-metragem, integrante da mostra competitiva do festival, a diretora ajuda a mãe a entrar em contato com sua filha mais velha, com quem rompeu laços há mais de duas décadas, sem que, inicialmente, tenhamos plena compreensão do que teria levado a isso.
Em Eneida, Heloisa Passos é diretora, mas também personagem de um drama familiar que, à sua maneira, pode ser percebido por muitos de nós. Como não vemos sua irmã, resta ao público tentar recompor essa colcha de retalhos para compreender em que momento a relação entre mãe e filha se deteriora.
A câmera de Heloisa tem um olhar fixo para Eneida, personagem que dá título ao documentário. Um de seus méritos é adentrar a trama (e o drama) sem permitir se contaminar por ele, um exercício duríssimo para quem também conta a história de um pedaço apartado de si.
Para retratar a ausência e compor essa importante parte de Eneida, a diretora busca nas memórias, tangíveis e intangíveis, fragmentos capazes de preencher o vazio. Fotos, uma história sobre um berço, sobre uma casa antiga, as memórias de uma sobrinha. Tudo é material para dar contexto e substância ao filme.
Nos breves momentos que a diretora quebra seu compromisso com o público e parece tomar partido na trama (e, repito, no drama), o que surge não é o rompimento de um pacto. Na realidade, esses breves respiros sugerem mais um comprometimento com a verdade dos fatos, isto é, a impossibilidade da negação do eu, do que a toca. Em última instância, do que a torna humana.
Há, é claro, quem possa ver nesses detalhes a contaminação do acordo tácito entre cineasta e público, que espera ver, ali, para si, a crueza das imagens sem a interferência de quem as capta. Prefiro, aqui, aceitar que não estamos na selva e que seu realizador não interfere na história, apenas se esforça em capturá-la, aceitando, para isso, seu papel de coadjuvante.
A trama do documentário parece, por vezes, previsível, que já a vimos em outro lugar. No entanto, o desfecho tem sua peculiaridade, e evidencia o caráter humano da obra, que nos aproxima de pessoas que, às vezes, estão mais próximas pelos dramas do que pela geografia. E, não menos importante, tenta amenizar as penas de dona Eneida, afinal, “dor compartilhada é dor amenizada”[1].
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[1] Frase atribuída a Santo Agostinho.
No início, temia detestar: não consigo simpatizar com sofredores ricos nem caio na esparrela emocional de quem faz chantagens emocionais com o conceito empresarial de família. A diretora, entretanto, é muito hábil ao manusear um tema tão delicado, partindo de uma chaga pessoal para expor as suas proposições éticas e estéticas do que seja um documentário: o que acontece fora de campo é extremamente impressionante, no sentido de que, às vezes, é melhor imaginar que testemunhar. Ou menos doloroso, ao menos. Alguns enquadramentos fazem-nos pensar em Lucrecia Martel, por exemplo. O estratagema dos áudios regravados não soa trapaceiro, mas protetoral. E focar muito mais no cotidiano sadio da sofrida Eneida (que joga voleibol, toma banhos refrescantes e gosta de Carnaval) que no dilema de reconciliação foi algo efetivamente emocionante, de maneira que, quando tudo conflui naquele desfecho potente, o afeto que sentimos por todas as personagens envolvidas naquele drama é verdadeiro, sincero, profundo. Uma aula de ressignificação de nossos preconceitos. Muito bom - e necessário enquanto relato audiovisual de enfrentamento. Concordemos ou não com as táticas de perseguição de quem sente-se machucado pelos desentendimentos duradouros... (WPC>)