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Duração
O carro desliza por uma estrada. Dentro dele estão Cristiano e sua mãe, Vitória. Estão indo para Desterro. “Tempo que não vou lá. Fui duas vezes e só. Fim do mundo aquele lugar”, fala Vitória antes de descrever um pouco o caráter do irmão Balbino e da sociedade destrambelhada daquela cidade.
Desterro é uma cidade interessante. Visualmente não difere muito de outras cidades pequenas do Nordeste do Brasil, localizada entre a Zona da Mata e o Semi-Árido. São nas particularidades que podemos detectar suas nuances, seus desvelos, seus delírios.
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“Desterro é uma imensa prisão, mãe. Igual a todo lugar que não seja invenção. Desterro é a utopia do mal com cara de província. O véu de tranquilidade dos erros. É por isso que a gente tem que obedecer pouco.”
"a desobediência é a unica forma de manter a liberdade"
Ainda que tenha sido lançado como minissérie televisiva, os méritos cinematográficos são imensos. Por algum motivo, não sabia de sua feitura e o encontrei casualmente numa transmissão do Canal Brasil, numa madrugada aleatória. Fiquei deslumbrado: o roteiro é ótimo, os diálogos impressionam, a composição dos personagens é intensa e algumas interpretações chamam a atenção pelo vigor eminentemente nordestino (Alberto Pires é um vilão monstruoso e hipnótico; Marcélia Cartaxo demora para aparecer em cena, mas, quando o faz, brilha; e Jesuíta Barbosa convence bastante e, felizmente, tira muito a roupa!). Em termos técnicos, o filme é deslumbrante, com ênfase elogiosa para a soberba trilha musical de Dj Dolores. Não dá para saber onde um e outro diretor tomam controle das situações filmadas, mas gosto bem mais do Hilton Lacerda que do Lírio Ferreira, e atribuo ao primeiro os melhores momentos do telefilme. O entrelaçamento de diversos contos de autores diferentes num mesmo enredo foi um detalhe genial, apresentando sintomas de incoesão apenas no quarto episódio, lamentavelmente inferior aos demais, como se estivesse apenas entulhando seqüências isoladas que enfadam pelo excesso, o ritmo se esvai... No primeiro episódio, o tom de apresentação narrativa e a adoção de um benfazejo realismo mágico; no segundo, meu favorito, a grandiloqüência do sexo enquanto tônico vital e desencadeador de tragédias; no terceiro, adaptado do sergipano Antônio Carlos Viana, meu genial conterrâneo falecido há alguns anos, o deslumbramento da crônica rural, em termos nordestinamente autocríticos; em relação à decepção no quarto episódio, já falei algo; e, quanto ao epílogo, a reiteração de alguns filosofemas anteriores (agora melhor justificados nos mantras desobedientes dos personagens) e o desfecho em aberto, como ocorre nos bons contos brasileiros. Uma gratíssima surpresa esta minissérie: que seja mais conhecida daqui por diante. Está disponível via GloboPlay! (WPC>)
o fim da família é o fim do mundo, porque sem família não há origem, não há mundo conhecido, não há mais a possibilidade de recuo, de retorno. um mundo sem princípio se difere de um mundo sem-fim, um mundo eterno e estático, de um tempo em que nada muda ou é modificado. este é o círculo de desterro, como é dito na cena da banheira: uma serpente que morde o próprio rabo. eterno retorno do mesmo. onde está o diferimento na repetição? como ser outro dentre os irmãos? como destacar-se? é possível libertar-se da família, deste jugo, desta voz de ordem? por isso, é claro, trata-se de uma grande história de violência (vide a fortíssima cena do casamento). o estrangeiro na família, este kafka sem pai presente que reaparece nos trabalhos de lírio ferreira, é quem busca quebrar com o passado e firmar uma nova história. o corte quebra com este tempo, como que a destruí-lo. falar em fim do mundo é perseguir o futuro como se já o vivesse. é estar longe da experiência, porque tudo é antecipado ou calculado. a superação do conhecido ou seu esquecimento? a disputa diária, familiar, geracional e a que muitos se referem apenas como amor. outros são mais cautelosos, atentos à guerra. os personagens aqui parecem encarar abismos diferentes. como se uns estivessem de ponta-cabeça, e o abismo destes fosse o céu (celan). uns voltados à imobilidade eterna do sempre-foi. outros à ahistoricidade do devir. o tempo é violento. o tempo é quem inventa a morte. as imagens são lindas e poderosas, como aquele corte do gozo dos meninos para o pescoço pingando sangue da galinha. o começo e o fim reunidos. a violência presente em ambos. urano diz: "o presente como futuro"! sem imitação mas com renovação, um novo começo que recria as palavras, recomeça o verbo, refaz a ação. a mudança é a revolução. onde a base da tradição deve ser inquestionada e obedecida, o diálogo deixou de existir. assim deve ser, ou ela não se sustenta. a consciência é a doença que não é bem-vinda: é o sem senso, o olhar crítico, o novo sentido, a virada ao avesso. olhar mais uma vez o mesmo. há algo de novo, algum novo fim do mundo aqui, alguma nova maldição. fazer do presente um novo futuro e não repeti-lo eternamente e sem-fim. sonhar com o fim, ter visões da idade da terra.
A sociedade pernambucana em forma de minissérie. Apaixonado! ♡