Na Era Medieval, em meio à praga e à violência, Martin é o líder de um bando de brutais mercenários que vendem seus serviços a quem pagar mais. Após serem traídos pelo rei que os contratara, eles se vingam raptando a jovem Agnes, que estava prometida em casamento a Steven, filho do monarca.
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"Não chore por quem não sangraria por você."
Verhoeven altera o mito do "cavaleiro de armadura brilhante". A Idade Média é mostrada em sua sujeira, lama, doenças e brutalidade
A atuação de Jennifer Jason Leigh foi um divisor de águas. Agnes não é uma figura passiva; ela manipula ao seu redor com uma maestria perturbadora
O uso prático de armas de cerco, a podridão da carne e os figurinos são excepcionalmente realistas
Carne Vs. Sangue. O Fim da Era da Cavalaria. Amoralidade da Sobrevivência.
Flerta com o humor negro que às vezes sabota o peso dramático de cenas fundamentais
Um proto-ensaio sobre a natureza corruptível do ser humano. O domínio da concupiscentia sobre a razão; a busca desenfreada por prazer, poder e sobrevivência.
Onde está a Graça em um mundo que parece tê-la expulsado?
A ciência nascente tentando ordenar o caos através da técnica (as máquinas de guerra).
[spoiler]O Cardeal como figura da imprudentia, usando o sagrado para fins profanos.[spoiler]
existe algum cineasta com filmografia mais cheia de nudez que o Verhoeven?
Bom demais ver filme com alma, mas principalmente cinema fluído, sujeira, tesão, traição, complexidade. Paul Verhoeven dificilmente decepciona.
Aqui eu vou deixar o mesmo comentário que botei pro filme 'Elle', mas porque eu acho que os dois têm premissas muito parecidas: a vulnerabilidade material feminina se tornando poder. Mas resumo da ópera: filmasso. Acho que esses filmes tocam mais nós mulheres.
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Incrível, eu amo esse diretor demais. Aqui eu vou deixar um comentário que foi uma conversa que tive (por isso pode parecer embaralhado):
~ Tem spoiler ~
Tlou referenceee
Eu gosto como sutilmente os papéis vão se invertendo dentro do filme, e a gente nem percebe. O final não é claro.
A gente não sabe se ela foi estuprada, gostou da dinâmica e se arrependeu depois, ou se ela simplesmente não gostava desde o começo, mas continuava por medo, ou se ela atuava desde o primeiro estupro, e o "arrependimento" fazia parte do plano dela. Ela enganou todo mundo, até nós que assistíamos ao filme?
O Paul Verhoeven tem isso de usar o corpo feminino como uma arma simbólica, que inicialmente é visto como fraco e algo fácil de ser dominado, mas que, aos poucos, sutilmente, vai ganhando certa força, e o desejo visceral masculino acaba virando a armadilha do próprio abusador. O impulso sexual se torna o veneno que se volta contra o homem de um jeito muito provocativo e desconfortável.
Em Conquista Sangrenta acontece isso também. Você pode ver que não existe mocinho ou vilão no filme, é como a realidade é.
Existe uma razão para o filme ser lento. Tudo nesse filme é pensado, cada detalhe - é isso reflete a protagonista.
A construção dos personagens e cenário provocativas, o filme todo tem muitas camadas. O diretor costuma fazer filmes longos por causa disso: o telespectador vai absorvendo cada detalhe e vai emergindo mais na história, pra, no final, acabar não tendo muita certeza de nada, ou tendo, mas não de forma clara e cuspida. Todo filme dele é assim kkkk.
Mas pelo menos eu não acho os filmes dele maçantes ou entediantes; algumas pessoas sim. Eu acho que todos os elementos dali são necessários para a narrativa, se complementam e fazem sentido no final de tudo. Não tem nada que escape.
Em Conquista Sangrenta, a personagem também usa o sexo como arma, mas de um jeito mais inocente e instintivo, até porque ela era virgem. Basicamente uma gangue de mercenários de 1600 a sequestra e estupram, mas, em vez de darem fim nela, ela consegue seduzir o comandante. A menina racionaliza, detém controle, como a Elle. Com um olhar, um toque, um mormurinho, o destino dela muda completamente. É uma cena muuuuito ruim, muito incômoda mesmo - estupro claro de verdade, uma pessoa puxando perna, braço, abrindo ela toda, ela desesperada, tudo ruim. Só que no final, em vez de ela aceitar a própria morte, ela aperta o braço do cara e dá um gemido; por causa disso, e por ela ser bonita, ele decide deixá-la viva.
Eu gosto de como ele joga com a sexualidade masculina e a vulnerabilidade feminina de um jeito não convencional. A Elle não era mocinha, ela não era coitada, mas também não era horrível. Inclusive ela usou o próprio filho: ela previu que o cara ia atrás dela, mas preferiu que o próprio filho matasse ele, do que aceitar que precisava da polícia. Ela consegue inverter o cenário e deter 100% do poder da narrativa de um jeito imoral. Mas, também, não foi só isso. Ela quis entregar parte daquele poder ao filho, para que ele não fosse visto como um fodido pela própria esposa.
Pesquisando há um tempinho atrás, descobri que também tem a ver com uma crítica à elite francesa.
Aqui começa os comentários da outra parte da conversa:
Gostei que ele é anti-drama, os personagens são majoritariamente odiáveis e quase dissociados do que está acontecendo.
Gosto de coisa que é autosuficiente, que não parece estar fazendo esforço pra cativar audiência. O filme vai falar o que ele quer falar, e você que se foda! É um "slow-burn" também, lento mesmo. Parece que vi duas horas de filme - tiveram certas cenas redundantes, mas no geral eu não cortaria muito tempo. Tem exaustão também: ele quer que você se canse do jogo deturpado que os personagens estão fazendo.
Se fosse uma fantasia de vingança genérica, terminaria com o cara acorrentado e ela cortando o pau dele só pra ser presa no final! Do jeito que foi, ela matou o cara e vida que segue. Autodefesa, já era. E a mulher dele sabia, deu a entender isso. La aberracion.
17.04.2000