Dois amigos, Kini e Adams, vivem como agricultores pobres em uma comunidade rural do Zimbábue. Eles lutam para consertar um carro velho que lhes permitam mudar para uma cidade grande e encontrar uma vida melhor.
Achava que seria mais um road movie fofinho se passando em meio a cenários africanos, mas se mostrou um filme sobre a temática que abrange todo o mundo periférico: o confronto do rural com o urbano e os dilemas da modernização, que destrói os laços afetivos, comunitários e territoriais, criando necessidades que não existiam e seduzindo com promessas que nunca são cumpridas. Os símbolos dessa modernização são para o Kini, a cidade, para o Adams, a prostituta que mede os outros pelo dinheiro, sem integridade moral (Richard Sennet, A corrosão do caráter).
A cidade só pode ter alguns chefes, alguns vitoriosos, que dependem dos derrotados, dos subordinados, para conquistarem esse lugar. A narrativa centra-se na perspectiva masculina, que é a que foi capturada pela modernidade (Rita Felski), e o dilema de botar tudo a perder contando com os ovos dentro da galinha, que é o cerne do mundo dos negócios: o investimento, a aposta, que pode dar certo ou não.
Nessa promessa, alguns estão destinados a vencer, como o Kini, e os estultos, como o Adams, a fracassar. Não aceitando ver sua amizade perdida para aquele que se tornou seu capataz, e sendo inadequado em tudo em comparação com ele, prefere morrer a assumir o papel de derrotado nessa disputa. No fundo, foi o Adams que se deixou levar pelas promessas da cidade-prostituta, enquanto o Kini se manteve íntegro, sempre disposto a perdoar o amigo, fiel à esposa, hesitante em trocá-la pela cidade, pelas promessas de riqueza.
Gosto imensamente de conferir filmes africanos que abordam os habitantes como detentores de sonhos que substituem em parte a triste condição em que muitos estão condicionados, pois, enquanto há sonhos, há vida! - Uma produção simples na estrutura, e rica nas implicações que aborda. . Resulta em uma combinação complexa das mais diversas emoções humanas - o tema amizade é Universal, e não tem fronteiras. Algo que chamou minha atenção foi o roteiro repleto de provérbios, histórias morais e afins - que contrastam com os personagens humanos em sua essência, repleto de fraquezas, ilusões e sonhos. Preciso repetir a mim mesmo, essa incrível história: . ||||Dois irmãos, em grande crise financeira. Não tinham um centavo nos bolsos. Mas, um dia, tiraram a grande sorte de se encontrarem com Deus.
E Deus disse ao mais velho: "Peça-me o que mais deseja, e eu lhe darei."- E acrescentou: "E a seu irmão concederei o que você pedir, em dobro."
O irmão mais velho pensou. Se ele me der 10 mil, isto significa que dará ao meu irmão caçula 20 mil.
O irmão mais velho pensou novamente. Se lhe pedir 10 cavalos, significa que meu irmão receberá 20 cavalos.
E o irmão mais velho disse a Deus: "Quero que me arranque um olho.” (...)||||
Achava que seria mais um road movie fofinho se passando em meio a cenários africanos, mas se mostrou um filme sobre a temática que abrange todo o mundo periférico: o confronto do rural com o urbano e os dilemas da modernização, que destrói os laços afetivos, comunitários e territoriais, criando necessidades que não existiam e seduzindo com promessas que nunca são cumpridas. Os símbolos dessa modernização são para o Kini, a cidade, para o Adams, a prostituta que mede os outros pelo dinheiro, sem integridade moral (Richard Sennet, A corrosão do caráter).
A cidade só pode ter alguns chefes, alguns vitoriosos, que dependem dos derrotados, dos subordinados, para conquistarem esse lugar. A narrativa centra-se na perspectiva masculina, que é a que foi capturada pela modernidade (Rita Felski), e o dilema de botar tudo a perder contando com os ovos dentro da galinha, que é o cerne do mundo dos negócios: o investimento, a aposta, que pode dar certo ou não.
Nessa promessa, alguns estão destinados a vencer, como o Kini, e os estultos, como o Adams, a fracassar. Não aceitando ver sua amizade perdida para aquele que se tornou seu capataz, e sendo inadequado em tudo em comparação com ele, prefere morrer a assumir o papel de derrotado nessa disputa. No fundo, foi o Adams que se deixou levar pelas promessas da cidade-prostituta, enquanto o Kini se manteve íntegro, sempre disposto a perdoar o amigo, fiel à esposa, hesitante em trocá-la pela cidade, pelas promessas de riqueza.
Gosto imensamente de conferir filmes africanos que abordam os habitantes como detentores de sonhos que substituem em parte a triste condição em que muitos estão condicionados, pois, enquanto há sonhos, há vida! - Uma produção simples na estrutura, e rica nas implicações que aborda.
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Resulta em uma combinação complexa das mais diversas emoções humanas - o tema amizade é Universal, e não tem fronteiras. Algo que chamou minha atenção foi o roteiro repleto de provérbios, histórias morais e afins - que contrastam com os personagens humanos em sua essência, repleto de fraquezas, ilusões e sonhos. Preciso repetir a mim mesmo, essa incrível história:
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||||Dois irmãos, em grande crise financeira. Não tinham um centavo nos bolsos.
Mas, um dia, tiraram a grande sorte de se encontrarem com Deus.
E Deus disse ao mais velho: "Peça-me o que mais deseja, e eu lhe darei."- E acrescentou: "E a seu irmão concederei o que você pedir, em dobro."
O irmão mais velho pensou. Se ele me der 10 mil, isto significa que dará ao meu irmão caçula 20 mil.
O irmão mais velho pensou novamente. Se lhe pedir 10 cavalos, significa que meu irmão receberá 20 cavalos.
E o irmão mais velho disse a Deus: "Quero que me arranque um olho.” (...)||||
Que lindo filme de Idrissa Ouedraogo!