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Data de lançamento
2 Março 2023Duração
Num hotel familiar, junto à costa norte portuguesa, vive um grupo de mulheres de diferentes gerações da mesma família, cujas relações entre si foram envenenadas pela amargura. Elas tentam sobreviver no hotel decadente, pois a chegada inesperada de uma neta a este espaço opressor causa problemas, revivendo ódios latentes e ressentimentos acumulados.
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Estranha forma de vida
"Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus
Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vives de forma perdida
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida
Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente
E eu não te acompanho mais
Para deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais
Se não sabes onde vais
Para deixa de bater
Eu não te acompanho mais"
Amália Rodrigues
me encantou muito a fotografia e o peso das cenas, dando destaque pros silêncios sem edição. amo diálogos assim, quase reais.
“(Não ser feliz tudo explica.)
[...]
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fína-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo,
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha”
(A mesa - Carlos Drummond de Andrade)
Depois de assistir Mal Viver, estava lendo uns poemas do Drummond à noite e algo pareceu dialogar. Talvez na secura, na dificuldade de comunicação, nos gestos atados, naquelas palavras que talvez todas esperassem, palavras “finas e meigas” que um dia podiam ter mudado tudo, mas que não conseguem nunca ser ditas, quase que num orgulho silencioso e transmitido como herança, de esconder até o fim o afeto.
Não sei o que dizer do filme, achei tocante e cortante. Tinha um clima sufocante na relação daquela família, uma aridez de superfície escondendo uma profundidade triste que habita cada personagem e que fica mais profunda e mais triste na medida da incomunicabilidade. Quando uma está se colocando como vulnerável, a outra permanece pétrea, fria. Há uma dificuldade em admitir os sentimentos - que depois, em outro momento, transbordam. Elas se dizem muita coisa, muitas vezes extremamente cruéis, palavras que parecem feitas para ferir do mesmo modo como elas mesmas estão feridas.
Mas ao mesmo tempo é um filme cheio de silêncios, de não-ditos, e, talvez principalmente, da dificuldade de dizer. O tempo todo ouvimos vozes - das personagens principais ou dos hóspedes do hotel - mas nunca parece haver diálogo. Não há comunicação. É como se estivessem falando todos embaixo d’água.
Mal viver não é o mesmo que viver mal (e esse filme ainda não vi). Mal viver está na ordem da escassez, é uma vida pouco vivida, a sensação de uma falta, como o oco nas palavras e na própria expressão sempre triste de Piedade. Não é a devastação, mas a pura falta. Não o incêndio, mas um afogar-se aos poucos. Não o ódio absoluto, mas o ressentimento diário.
É essa procura da alma, essa tentativa de mantê-la, que acaba sendo só uma tentativa fraca, débil, porque nunca são encarados de fato os conflitos que vão deixando cada uma infeliz. Nunca são ditas as palavras que poderiam mudar as coisas. As conversas sempre acabam indo pela tangente. Quando parece que algo de real vai ser enfrentado, há quase que uma mudança de assunto, mesmo que dê para ver que há muito sentimento por trás de cada banalidade. Não é o suficiente. Não dá para fugir para sempre dos diálogos difíceis. O que ocorre é um transbordamento, que vem na forma de violência – nas palavras e nos gestos; contra o outro e contra si mesmo.
Quando se vive nessa economia de efusões, o amor é de fato uma coisa cruel, dolorida, difícil. E uma das coisas que gosto no filme é do retrato psicológico que ele vai construindo dessas personagens, um retrato muito complexo e complicado de suas psiques e de suas relações. É como se cada cena tornasse tudo um pouquinho mais complicado do que na cena anterior. Quando achávamos que tinha entendido o que está envolvido nessas relações familiares, surge um outro elemento, uma fala, um gesto, um olhar, uma outra forma de não reciprocar, e que vai dando a dimensão do emaranhado confuso de dores que faz parte de uma família, especialmente uma que não consegue se comunicar.
Lindamente dirigido e atuado, mas chato como uma briga de família
Acho que são dois filmes, viver mal e mal viver. A capa de um está no título do outro.