O oceano contém a história de toda a humanidade. No mar estão as vozes da Terra e de todo o espaço. A água, fronteira mais longa do Chile, também esconde o segredo de dois misteriosos botões encontrados no fundo do mar. Com mais de 4 mil km de costa e o maior arquipélago do mundo, o Chile apresenta uma paisagem sobrenatural, com vulcões, montanhas e glaciares. Nessa paisagem estão as vozes da população indígena da Patagônia, dos primeiros navegadores ingleses que chegaram ao país, e também a voz dos presos políticos chilenos. Alguns dizem que a água tem memória. Este filme mostra que ela também tem voz.
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"Esses povos tinham uma complexidade e uma riqueza... Em seus desenhos se via o cosmos inteiro, a maneira como pintavam seus corpos, como os transformavam. Para esses povos, as estrelas eram os espíritos de seus ancestrais. Me pergunto o que estão buscando esses telescópios impressionantes do norte. O que buscam? Estão buscando, no fundo, encontrar-se com esses antepassados. Fazer do universo algo mais próximo, algo mais familiar. Porque, de uma forma ou de outra, os indígenas viam as almas e os espíritos dos antepassados, dos guerreiros... e, de uma forma ou de outra, sentiam o universo como algo familiar. Aí estavam os seus mortos. Então, o que buscam os telescópios, as sondas espaciais? Trazer o universo para perto. Parece que todo o progresso é o produto de uma imensa nostalgia, de regressar a coisas que já se sabia. Se sabia de forma poética, mas essencialmente se sabia."
"Não há limite para a crueldade. Nem sequer tiveram a piedade, a compaixão de devolver os mortos. Está escrito no mais ancestral da história: o cadáver do inimigo se devolve. Se devolve para que seus entes possam continuar a vida, fazer o luto. Devolver os corpos para que os mortos terminem de morrer e os vivos continuem a viver... É tão brutal o que aconteceu no Chile e nestes países. A impunidade é um duplo assassinato. É matar duas vezes o morto. Condenar, encontrar o culpado, não é o fim do caminho. É somente o começo."
Raúl Zurita
Melhora demais em sua segunda metade quando a relação da água sai do espectro da relação com os nativos e passa a focar na terrível denuncia contra a ditadura e como o mar esconde os corpos mortos neste período. Confesso que o tom poético e a narração lenta me incomodaram um pouco.
Aquilo que NOSTALGIA DA LUZ tem de telúrico, este filme possui de existencial em relação à água. Porém, o percurso do realizador/narrador (com voz tão mansa quanto incisiva quanto Werner Herzog, em seus documentários) não recai no deslumbramento 'new age': parte dele para realizar uma reflexão histórico-antropológica mui poderosa, que desemboca, claro, numa averiguação de crimes ainda insuficientemente punidos, cometidos desde o golpe militar chileno de 1973. Um filme tão bonito quanto devastador, em relação àquilo que traz à tona. Triste, porém beatífico. Um trabalho de muito maturidade de um diretor cuja juventude militante tornou-se, desde antes, imortal em sua capacidade de registro audiovisual esquerdista. Parabéns! (WPC>)
É indescritível o que esse homem faz comigo, meu deus do céu
Um documentário sensível, delicado, forte e que emociona. Patricio Guzmán propõe, para aquele que assiste, um mix de emoções. Vale muito a pena!