Numa pequena cidade francesa, Julien Davenne (François Truffaut) é um jornalista cuja esposa morreu há uma década. Ele guarda todos os pertences pessoais da mulher num quarto verde. Quando um incêndio destrói o local, ele constrói um memorial em sua homenagem e a todos os outros mortos que passaram pela sua vida.
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Truffaut fala sobre a morte e o lute, na história de um viúvo que mantem em sua casa um quarto em que referencia a memória de sua esposa dez anos depois de sua morte. Tem uma bela fotografia e música, boas atuações, mas não é o melhor do diretor.
Este é um filme profundo, sério e desolador. Todas as cenas são envoltas em uma atmosfera densa, lúgubre e opressiva. É um filme árido, pausado, de tintas góticas, intimista e de difícil leitura para o grande público. Importante e curioso trabalho cinematográfico dirigido e estrelado por François Truffaut, "O Quarto Verde", é um drama sensível, que mostra a faceta de um homem viúvo, que convive com o passado, cujas lembranças não o deixa seguir uma vida normal. Cinema setentista francês de qualidade.
Se junta aos filmes poucos desenvolvidos de Truffaut.Tem seu valor,principalmente na narrativa do personagem principal.Traz alguns bons mistérios ao longo e segredos que fazem bem ao filme.Trata-se também do último filme atuado pelo diretor.
Se, certamente, não é uma das melhores obras que já vi sobre a morte (de amantes e artistas), provavelmente, é uma das mais sensíveis. Daquelas que conseguem germinar um exatíssimo tom pra se lidar com o tema.
Disso, o que eu mais gosto de todo o filme é como as imagens do diretor são fúnebres num grau perfeito dentro de um termômetro de sensibilidade. Tudo sobre a obscuridade dos planos e dos fades vagarosos somados às cores sóbrias e homogêneas que circundam o diretor-ator de austeridade monotônica. Mas que, mesmo assim, nunca se tornam algo puramente sombrio, pois o 1:1,66 da razão de aspecto (uma tela um pouquinho mais “quadrada”), não é apenas enclausurante, na verdade, antes de tudo, ela é íntima e nostálgica, sempre corroborando os planos de distância tão próxima à pele dos atores. Logo, gera-se uma amálgama formal que, tal como Davenne, se empenha em encontrar o tal sentimento justo: uma particularíssima solenidade para lidar com “nossos cadáveres”, entre o amor e o funéreo.
Assim, percebe-se que o filme de François tem como ponto principal a enunciação sobre a morte e, diante disso, há que se dizer que a sequência inicial é uma bela exemplificação de um dos auges desta expressão. Fusões de um Truffaut assimilado às imagens de guerra, depois, o personagem do diretor escandalizando o velório da esposa do amigo, em seguida, um leilão de peças de um falecido, adiante, a demonstração de imagens de mortos de guerra para um garoto, precedendo, o protagonista escritor de um jornal cheio de clientes já falecidos... Ou seja, não se anuncia tudo de uma vez, existe uma sutileza que percorre os avanços da história. A ligação de cada bloco narrativo diferente é concretizada pelos mortos, pela memória e pela persistência de Julien. Cenas, inicialmente, insólitas e esparsas postas para serem conectadas através dessa perseverança abstrata que guiará o filme e o personagem. Uma bela maestria para engendrar o discurso.
Todavia, ao contrário da bela crítica do Pascal Bonitzer , não consigo encontrar por aqui toda essa obra-prima discursiva que se fala, justamente por não gostar tanto de alguns de seus rumos formais — afinal, seja falando sobre Deus ou sobre a eternidade, seja falando sobre gangrena ou sobre qualquer outra doença moribunda, a única coisa que importa é o tratamento estético que se dá ao conteúdo enunciado. O crítico da Cahiers assinala muito bem todo o viés simbólico que as imagens do Truffaut contêm (e, sobre elas, realmente consigo ver até maior profundidade do que já via nesse tratamento, em especial sobre a cena da estátua de cera, e como ela é importantíssima para diferenciar o fetiche e o amor, se opondo ao Buñuel de Ensayo de un Crimen radicalmente), mas apesar desses signos potentes — e, sobre eles, vale prestar bastante atenção nessa figura do diretor/ ator/ crítico de cinema, que, junto às fotografias de artistas de sua capela, formam uma base importantíssima para a polissemia da enunciação —, penso que em certo momento o filme passa a mitigar o desenvolvimento de seu discurso, esticando-se vagarosamente e passando sob a pena de requentar esse mesmo amor à preservação, que já atingiu o cume de sua performance desde a ideia do santuário de velas.
Pior ainda, para mim, é quando o discurso tenta dar uma pequena guinada com seu “plot twist”. Truffaut não consegue entregar o drama que toda a cena final parece pedir. Seria o momento de conjunção da morte, quando sua teimosia o leva a encontrar aqueles a quem foi tão fiel, mas esse encontro climático continua a ser executado pela mesma austeridade monotônica anterior (e que era muito bem usada até então). Cria-se uma cena final excessivamente calculada e, por isso, bastante asséptica. O “drama” é realizado do mesmo modo que Cecilia acende uma vela às pressas, sem nem mesmo respirar sobre o que acabara de acontecer, atropelando seus personagens para fechar a metáfora. São escolhas (ou inabilidades) que pesam o desdobramento da carta de amor que se escreve ao longo do filme.
Diferente de mim, Pascal parece ver uma grande beleza em cada um desses momentinhos, mesmo naqueles que me soam mais despropositados, como o roubo do garoto mudo que ele compara a Doinel e ao garoto selvagem do cineasta. E, apesar de eu não ter visto o último filme citado, o que me faz divergir bastante da opinião é pensar numa verdadeira obra-prima como Un Jeu Brutal. Um filme com bem menos recursos que realiza uma enunciação gigantescamente mais ambiciosa e desenvolvida, sem qualquer elo dramático mais fraco dentro de sua cadeia discursiva que desculpabiliza sua tibieza em prol de alguma referência mais obscura que "acrescenta à locução", mesmo seus momentos mais crípticos possuem uma construção exímia. Do contrário, o garoto encontrado na chuva, soa-me, muito mais, como a latência dessa inabilidade que se mostraria de vez ao final do filme, e não como algum outro pequeno acréscimo ao fundamento da mensagem. É como se o cineasta conseguisse trabalhar muito bem naquela tônica mais homogênea de solenidade, porém, nos pequenos momentos de aguçamento seu esquema fosse quebrado. Na exata hora de se acompanhar a tal requisição dramática mais intensa, tanto o autor quanto o ator parecem incapazes de fazê-lo.
Longe das melhores coisas que o diretor já fez, mas, ainda assim, um filme de tons escuros e cores pálidas que nos entrega lentes que permitem enxergar essa tal beleza fúnebre que os olhos do autor veem diante da arte e seus esquecidos. Que saudades de ver um filminho gostoso assim do Truffaut...
Tarde demais para entender que o luto deve ser vivido e processado e não internalizado como um estado permanente.