No período de guerras, próximo a Ponte de Fuefuki há uma casa de um pobre agricultor que vive com seu genro Hanpei e os netos Take, Hisa e Hanzo. História de 5 gerações de pai e filho que se estende por 60 anos. Baseado no romance realista de Shichiro Fukazawa.
Arrisco dizer que todo estudante de cinema ou todo aspirante devia passar pelo cinema de Kinoshita, pelo menos com "Balada de Narayama" e este peculiar "Fuefukigawa" e meditar com mais afinco sobre a semiótica e o experimentalismo cinematográfico. Mas, ao mesmo tempo, todos deviam ver os filmes do Kinoshita. Aprende-se muito aqui. A delicada relação pai-filho de Sadahei e Sozo, ou um pai que tenta proteger seu filho na concha (a mesma poesia das relações pai-filho de "A Balada de Narayama", que temos o oposto, o filho tentando proteger a mãe Orin no seu ninho). A recepção e efeito da guerra (mais neste e menos em "Vinte e Quatro Olhos"). O rio, ou a travessia do rio que é a travessia da vida (ou, como diz o off: a travessia do véu da vida). Os encontros e os desencontros (uma fala extremamente brilhante neste filme é: "O encontro já é separação").
Concordo com uma pesquisadora do cinema japonês, Maria Novielli (livro "História do Cinema Japonês", Editora UnB), quando diz que Kinoshita recorre à pintura para compor este filme, assim como ele recorre ao teatro para compor o "Balada de Narayama". Quando eu falo em semiótica neste filme não é por mero acaso. Basta ver como a cor azul
está sempre em torno dos cadáveres ( e se eu não estiver louco, como isso dialoga com o tom azulado dos filmes experimentais do georgiano Sergei Paradjanov).
Certamente este filme é grandioso, só não me encantei tanto quanto os filmes anteriores que vi. Não consegui entrar em sintonia com as muitas gerações que foram passando nas modulações da guerra. Mas não tira a beleza do filme nem minha simpatia por ele.
Um filme sobre o ciclo da violência das guerras feudais em uma família. Não sei porque, mas em alguns momentos, me lembrou Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez (Acho que devido a mostrar várias gerações, vários personagens, e que em alguns momentos você chega até a confundir quem é quem). Tem horas que o filme dá uma empacada e fica arrastado e monótono, mas no geral ele é bem interessante. Foi usado uma técnica para colocar cor em algumas cenas que ficou bem tosco, completamente desnecessário. Interessante notar que a cultura oriental é bem parecida com a ocidental no quesito "siga o líder como um animal estúpido" (e viva a Rede Globo!). O teor crítico e ácido é descarado e nisso o filme sobe muitos pontos.
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Possivelmente a única vez em que um consagrado diretor japonês da corrente mais tradicional se aventurou em um filme com a cara na "Nuberu Bagu". Pois em Fuefukigawa , Kinoshita flerta com as novas possibilidades do cinema japonês que na virada dos anos 1950 para os 1960, mudou completamente.
Fuefukigawa é um exercício de linguagem visual bastante incomum, embora o uso de cores aplicadas às imagens em preto e branco não fosse tão original. Mesmo no clássico Nosferatu do Murnau ou Broken Blossoms do D.W. Griffith, as cores serviam para reforçar o estado de espírito dos personagens, da situação mostrada em tela.
Um trabalho notável, e intrigante de um diretor que merece ser mais conhecido. Ótimo filme.