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Quando o Rei Português D. Sebastião perdeu a Batalha de Alcácer Quibir, seu corpo foi engolido pelas areias do Marrocos e desapareceu. Seu espírito, no entanto, organizou um exército que passou a explorar novas terras, até chegar no Brasil.
Na Ilha de Lençóis, no Nordeste do Brasil, Dom Sebastião fundou seu reino encantado. Ele vagueia na forma de um touro negro, que tem uma estrela na testa. Um dia, sua filha voltará à ilha, empunhando uma espada dourada.
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Vi pensando que era uma história fictícia, mas não, mesmo amando Joana de Verona, não me tocou e logo larguei de mão.
Assistam! Não dá pra explicar, mas senti uma conexão muito forte e especial com essa narrativa.
O filme é lindo.
Mágico e sensorial.
♥
Podemos afirmar que o Cinema Brasileiro nunca passou por um momento de maior produtividade, se não em qualidade, certamente em números concretos. A chamada "revolução digital" aproximou do audiovisual muitos outros artistas que anteriormente viam no vídeo apenas uma possibilidade, que nos dias atuais emerge como realidade predominante. Se o digital é uma realidade técnica que veio para ficar, podemos notar fenômenos como a hibridização como uma das grandes características temáticas desse novo cinema realizado em terras tupiniquins: nunca se filmou tantas ficções com cara de documentário e vice-versa.
Em seu texto "A Era do Híbrido", Carlos Alberto Mattos teoriza sobre essa "nova cara do cinema brasileiro", mas sem deixar de olhar para trás. Se hoje filmes como "Avenida Brasília Formosa" e "Branco Sai, Preto Fica" se fazem notar ao misturar o real a um mundo fantasioso – e muitas vezes fantástico –, olhar para trás é enxergar "Iracema – Uma Transa Amazônica" como um grande referencial desse "cinema de hibridismos", que parece cada dia mais deixar de ser mera manifestação pontual e se consolidar de fato como tendência contemporânea.
Nesse vasto cenário nacional, é necessário observar a produção paranaense como grande celeiro de pérolas contemporâneas. A massiva exibição de filmes aclamados em festivais pelo mundo afora provam que, mesmo apesar da grave crise econômica que afeta o estado como um todo – sendo a cultura a primeira a ser escanteada nas gestões recentes –, os realizadores da terra das araucárias resistem bravamente. Grande parte desses cineastas radicados no Paraná são originários de outros estados, e alguns deles são chaves fundamentais dessa revolução da linguagem que se mostra expressiva não somente no Sul do país, mas também em outros cenários "fora do eixo", como em Minas Gerais e estados do Nordeste.
Nomes como os de Aly Muritiba e de Rodrigo Grota recentemente ganharam destaque mundial em diversos festivais de Cinema, e aos poucos uma expressiva gama de novos realizadores emergem produzindo seus primeiros longas-metragem, que gradativamente vão conquistando seu lugar ao Sol.
Um desses casos é o de Larissa Figueiredo, brasiliense de nascimento, mas que em Curitiba se tornou uma das responsáveis pelas produções da Tu i Tam filmes, aonde após realizar obras em curta-metragem, revisita o universo de seu curta "O Rei" (2014) e em 2015 lança seu primeiro longa: "O Touro".
Os dispositivos ficcionais-documentais apresentados no filme, de prontidão já nos remetem ao supracitado "Iracema", dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Se no clássico filme que estrelava Paulo César Pereio como "Tião Brasil Grande" o que vemos é um olhar passageiro, que nos leva diante das fronteiras longínquas de um road movie, o longa assinado por Larissa nos insere em um vilarejo aonde o espaço-tempo parece viver um eterno estado de suspensão.
O filme se passa na ilha de Lençóis, no litoral maranhense, aonde a lenda afirma que o rei português Dom Sebastião havia se encantado, deixando o caráter humano para viver eternamente em condição mítica, ao contrário da versão oficial sobre a derrota na batalha de Alcácer Quibir, em Marrocos. Se para nós, espectadores, a lenda do Rei que hoje transita a ilha em noites de Lua Cheia na forma de um Touro com uma estrela na testa é a premissa principal do filme de Larissa, devemos ter em mente que para qualquer habitante da remota ilha esse caráter lendário é completamente arraigado na cultura, expressão popular e crença religiosa local, transformando tal premissa em inquestionável realidade.
O dispositivo central do filme consiste em enviar Joana de Verona – atriz lusitana – à ilha, aonde ela buscará descobrir algo sobre o conterrâneo Dom Sebastião, não mais como personagem histórico, mas como o homem que se fez mito, o encantado que se fez Touro, o Rei que desafiou a geografia e na pequena ilha no Maranhão abandonou a vida e das batalhas e adentrou na eternidade. Suas heranças imperiais já não permeiam a memória de seu povo, aqui a realidade do Rei-Touro se mistura ao folclore popular e ao rito religioso, e através do Bumba-meu-boi e de Orixás do Candomblé se inserem na natureza que, nesse local, se apresentam como o limiar do universo para os habitantes ali inseridos.
Em cada encontro com os locais, Joana aprende que o Touro ali está e ali permanecerá, assim como outros elementos que fazem parte dessa realidade. Em uma sequência memorável (em minha opinião a melhor do filme), a atriz se une às locais para retirar água de um poço, onde aprende sobre as Mães D'água, entidades que utilizam da mesma água no período noturno. Acreditar no imaginário popular local é talvez a única forma sincera de compreender as diversas nuances apresentadas sobre essa sociedade em específico. Assim como diversos exemplos clássicos da cinematografia mundial, "O Touro" é filme que só se justifica através da fé.
O tempo, representado aqui como uma "eternidade que gagueja", se revela muito mais estagnado do que cíclico, ao contrário de muitos filmes da já explicitada cinematografia híbrida contemporânea brasileira, tendo como "Serras da Desordem" de Andrea Tonacci um de seus maiores representantes no que se refere a tal especificidade. Se a realidade do índio Carapiru parece um eterno fractal de oposições entre o presente e o passado, em "O Touro" Joana revela em uma frase sintomática um dos sentimentos mais íntimos do filme, em um diálogo com um jovem local, afirmando que na ilha – ao contrário deles – todos parecem ser velhos ou crianças. Esse caráter de "vidas no início" e de "vidas no fim" suspende totalmente a passagem do tempo como algo circular e de renovação, a ele só compete a natureza ao redor, e não seus moradores.
A natureza é, por sua vez, de uma grandiosidade monumental. Se as imagens captadas pela câmera que incessantemente flana pelo cenário natural são incapazes de dar uma dimensão de sua grandiosidade mesmo em uma imagem de padrão cinemascope, é através do som que somos esmagados diante de nossa insignificância em relação ao mundo. A ambientação sonora é, provavelmente, o maior destaque do longa-metragem apresentado, é nele que a natureza nos envolve tanto para dentro quanto para fora do filme, é nesse uníssono estrondoso que nos fazemos tão presentes no mundo quanto o Touro ali encantado. Se o tempo ali não é cíclico, ao menos a natureza onipresente nos dá a dimensão de quem está no controle – e definitivamente não somos nós, humanos. É somente nesse cenário que compreendemos a dimensão do que é ter abandonado o caráter mortal e tornar-se mito, o que nos encaminha para o clímax do filme.
No turning point decisivo aonde a realidade documental será totalmente abandonada, Joana visita os escombros de uma escola, já reconquistada pela natureza, com as areias dos lençóis maranhenses literalmente invadindo seu espaço, dando vestígios sobre uma realidade que ali não mais se faz presente, enquanto crianças brincam e curiosas observam o ato de explorar, o ato documental de se fazer filme. Esse limiar entre universo mítico e espaço geográfico é cruzado quando a personagem enfim resolve encarar o Touro, acertar-lhe a estrela na testa com sua espada dourada. As cenas do "abandono da realidade" aqui parecem dialogar com obras como "Ex-Isto", de Cao Guimarães, realizador até então renomado como documentarista, que na obra citada encena a chegada de Descartes nos trópicos, em livre adaptação do livro "Catatau", de Paulo Leminski.
Joana rema, Joana se transforma enquanto pessoa para poder se situar no mesmo plano mítico/místico em que o Touro-fantasma errante de Dom Sebastião a aguarda. Sua mudança se revela em caráter estritamente interno, já que o denso universo construído no filme é incapaz de se modificar através da ação do homem. É necessário fazer-se mito, fazer-se encantamento, é necessário olhar para dentro para compreender o que há fora como parte imutável de uma natureza onipotente.
É, como mencionado anteriormente, necessário que haja fé. E ao se permitir ter fé (mesmo em casos similares aos meus – ateu que só concebe um conceito de divindade através da verdadeira arte), nos deparamos com uma grata surpresa e certamente um dos grandes destaques não só da 39ª Mostra de Internacional Cinema de São Paulo, mas da cinematografia nacional contemporânea.
A protagonista, alienígena dentro da comunidade litorânea que visita, observa, aprende sobre e participa das tradições e do folclore de um povo supersticioso. Mas a cineasta Larissa Figueiredo tem uma carta na manga que utiliza, com propriedade, no terceiro ato, quando modifica a natureza da narrativa e revela suas verdadeiras e subversivas intenções, pondo-nos a questionar tudo o que acabamos de ver. E se eu contar mais estrago a graça.