Os vivos pedem vingança. Os mortos minerais e vegetais pedem vingança. É a hora do protesto geral. É a hora dos voos destruidores. É a hora das barricadas, dos fuzilamentos. Fomes, desejos, ânsias, sonhos perdidos, misérias de todos os países, uni-vos!
Respeito as interpretações e me cerco aqui do meu "pensar-filme" para analisar (dessa vez, mais sensível, pois é da terrinha).
O processo de construção da história é bem confuso, mas se conecta no final após muita elaboração subjetiva. Definitivamente, não é fácil entender alguma ou qualquer coisa - o filme não ajuda. Isso, por isso mesmo, pode ser o motivo das cinco ou zero estrelas. Devido a importância dessa construção - e baseado nela - eu acredito que o filme mostra demais o que pouco precisa ser visto. O caminho oposto também me parece verdadeiro: o que pouco se vê é o que mais clama ser visto.
Atrelado a isso, reconheço uma estética de luz, câmera, posicionamento e silêncio. Confesso que esses elementos são chaves na construção de belas cenas, porém foram demasiadamente expostos e, por isso, desgastados. Sinto que o longa retoma aspectos do teatro e talvez fosse melhor que se explorasse no próprio palco a construção dessa narrativa.
Enquanto assisto e ele me incomoda, como foi o caso desses, eu fico imaginando quais seriam as outras possibilidades de conserta-lo, sabe? E eu acho que já que o filme se passa no ceará e fala sobre o extermínio de um grande numero de pessoas, talvez fosse mais interessante o background do cangaço e explorar a velha sabedoria dos moradores do interior, que talvez possa ter sido personificado na figura daquele senhor de bengala. Os elementos culturais são fortíssimos, mas eles se transvestem e confundem mais do que esclarece.
Em ano que tivemos 'Shaolin do Sertão' e 'Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois' representando o cinema cearense brasil afora (em salas comerciais/festivais), o longa do coletivo audiovisual Alumbramento vem encontrando seu espaço com muita dignidade. Essencialmente por ser anos-luz diferente dos título citado, com uma áurea investigativa única e de determinação muito intensa. E justamente por não obedecer (ou pelo menos não aparentar) muitos critérios sistemáticos para dividir seus núcleos, 'O Último Trago' é um filme muito livre. Passeando por entre um realismo penetrado em fantasia, aventura-se para além de uma narrativa clássica. Um devaneio físico de expressão forte e sincera demais para que fique em um limbo codificado. A nota acima é somente uma primeira impressão muito instável, já que o filme merece muitas revisitas para, quem sabe, crescer cada vez mais. Um filme a se pensar.
O roteiro é rico mesmo não se amarrando por completo, mas a parte técnica do filme não está no mesmo nível.
Nos primeiros dois terços, o filme hipnotiza pelo experimentalismo do som e da imagem. O uso das cores, da luz e da sombra, a composição e enquadramento das cenas são lindos de se ver. O problema do longa é quando ele desiste de ser majoritariamente contemplativo para trazer uma lógica narrativa que justifique as imagens apresentadas até então. Tal esforço culmina no quase totalmente embaraçoso/ bizarro/ comprometedor último ato. Ainda assim, merece ser visto e experimentado. É preciso, no mínimo, coragem pra fazer algo assim. E sim, isso é cinema!
Eu diria que a palavra que define O Último Trago é irregular. Tem momentos que são maravilhosos, e outros que chegam a dar vergonha alheia. Mas num geral, eu gostei do filme e achei um dos filmes mais interessantes do Alumbramento. Adoro Samya de Lavor, mas, sinceramente, não entendi seu prêmio no Festival de Brasília.