Andreia (Ana Moreira), Pedro (Alexandre Pinto) e Ricardo (Nelson Varela) não aceitam as coisas como elas são, não se encaixam em lado nenhum. Nunca se rendem, estão sempre à procura de alguma coisa. Têm dentro deles uma força invisível que se espalha por todo o lado. Alguma coisa dentro deles está sempre prestes a explodir.
É como um energia selvagem, um desejo de mudar as coisas, de viver de uma forma diferente. Não sabem muito bem o que querem, mas há sempre alguma coisa que os incomoda. Vivem com a necessidade constante de vertigem, de deslocação, de movimento. Recusam-se a aceitar o lugar que lhes foi imposto mesmo antes de serem capazes de escolher fosse o que fosse. Não aceitam esse lugar e é por isso que não o ocupam. Mas não têm nenhum outro.
São sobreviventes. São os mutantes portugueses, mas também existem mutantes em todos os lugares. Talvez o mundo preferisse que eles não existissem, mas eles existem.
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Dilacerador é a melhor definição. Sem qualquer perspectiva, esperança ou vislumbre de que suas vidas se adequem ao “normal de sociedade”. É sem dúvidas um dos filmes mais reflexivos sobre tema e suas estruturas, sendo passado em 1998 e infelizmente permanecendo atemporal.
Alguém sabe onde encontro?
“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”.
Essa frase da escritora Clarice Lispector cabe como uma luva nos personagens do filme “Os Mutantes” da diretora portuguesa Teresa Villaverde.
Retratando crianças e adolescentes cuja sensação de não-pertencimento é latente, Teresa Villaverde não tem medo de colocar o dedo na ferida e expor as conseqüências de uma conjunção social onde a necessidade de sobreviver (seja lá a que preço for) é a palavra de ordem. Sim. Villaverde retrata o mundo como ele se apresenta. A vida como ela é. Seu olhar frio e arguto mostra a vida de três personagens marginalizados: Andréa, Pedro e Ricardo. Os três são adolescentes. Os três passam o filme todo fugindo (ou tentando fugir) de institutos de reinserção social. Sim. Os três optam por viver na clandestinidade. Sim. Os três renegam a sociedade e são renegados por ela. Os três só “vivem” quando estão nas ruas. Sim. Os três possuem família. Ou o que sobrou dela. Sim. Numa sociedade dominada por um capitalismo de facetas nefandas, uma boca a menos para comer é coisa para se comemorar. Não há ternura. Ou coisa parecida. Não. Só há instinto de sobrevivência. A lei do mais forte reina. Por isso, esses dois meninos e essa menina precisam ser resistentes. E é esse um dos muitos aspectos interessantes desse filme. É assombroso constatar as peripécias que eles são obrigados a fazer, para continuar vivos. Aos três não é concedido o direito de ser aquilo que são. Muito pelo contrário. A responsabilidade pela própria existência (que numa linha evolutiva só seria experimentada na vida adula) traz consigo a agressividade, o desamor e os pequenos delitos. Sim. Eles também sonham. Riem. Tentam ser crianças. Mas algo falta. Algo não cola. A vida cobra um alto preço. E é preciso pagá-lo. Sim. Há algo do cineasta austríaco Michael Haneke em “Os Mutantes”. Há aquela sensação de não entender. O vazio de respostas que nem a dramaturgia dá conta. Sim. A câmera quase documental filma essas crianças com grande interesse. O filme é delas. Sobre elas. Os três atores escolhidos para o filme são soberbos. O filme não seria tão genial sem a presença deles. A atriz Ana Moreira tem um desempenho simplesmente sensacional. Sua Andréa é plena. Corpo, voz, olhar, tudo transpira realidade. É um trabalho magistral. A cena em que a personagem dá a luz ao filho, sozinha, num banheiro de posto de gasolina, é de arrepiar. É um dos inúmeros grandes momentos de um filme excepcional. Alexandre Pinto e Nelson Varela também não ficam atrás. A amizade e, sobretudo o carinho que sentem um pelo o outro é comovente. O ator Alexandre Pinto é excelente, possui um quê de Jean-Pierre Léaud (protagonista de “Os incompreendidos” do diretor francês François Truffaut) e também de Fernando Ramos da Silva ( protagonista do filme “Pixote – A lei do mais fraco” do diretor brasileiro Hector Babenco). Aliás, o roteiro de “Os Mutantes” possui grande semelhança com esses dois filmes. Sim. Não. A semelhança maior é com a própria existência. Seja na França, em Portugal ou no Brasil. Sim. “Os Mutantes” também guarda grande semelhança com a dramaturgia de Plínio Marcos, mestre da exposição de seres que habitam o submundo. Sim. Quem já leu “Querô” ou “Dois perdidos numa noite suja” sabe bem do que estou falando. Plínio Marcos foi (e ainda é) o grande poeta dos personagens “fudidos”. Foi ele quem trouxe o linguajar das ruas e jogou luz sobre os marginalizados. No entanto, o olhar de Teresa Villaverde é despojado do tom quase panfletário dos textos de Plínio Marcos. Sim. A diretora portuguesa está interessada em mostrar. Ela não possui respostas prontas. Devido a isso, “Os Mutantes” é um filme difícil, que exige a aquiescência do espectador. Não é um cinema de entretenimento. Não. Passa longe disso. É um cinema incômodo. “Devo acrescentar um algo que importa muito para a apreensão da narrativa: é que esta é acompanhada do princípio ao fim por uma levíssima e constante dor de dentes, coisa de dentina exposta”. O mesmo alerta que Clarice Lispector fez para sua “A Hora da Estrela” vale para “Os Mutantes”. E ai vai encarar?