Um jovem rapaz se muda de cidade em busca de um trabalho que lhe proporcione melhores condições de vida. Porém para realizar o projeto, teve que abandonar sua noiva na cidade natal. A partir daí, muitos questionamentos passam a perturbar sua mente.
Como de costume o cinema de Ermano Olmi me deixou um pouco desconectado do roteiro, todavia seus minutos finais quando de fato adentramos no romance dissolvido das personagens embarcamos em uma poética jornada angustiosa de separação;.
Em apenas 84 minutos, com somente dois atores principais, Olmi comporta estilos muito distintos, todos postos para dialogarem com uma crise interpessoal, uma investigação social e um drama pungente. Um exercício de síntese muito invejável que, de alguma forma, parece parafrasear a famosa fórmula do bom filme de Hawks “three good scenes and no bad scenes”.
Aqui, meio às avessas, se preocupando menos com uma confecção em série que produza bons momentos do que com a redução radical de arestas, coagulando todo o clímax numa única sequência de planos poderosos: a introdução feita a partir da dança, a reconciliação por um diálogo de cartas ou a conclusão discursiva pela imagem da chuva. Um arco narrativo de crise no noivado que soma mais de uma temática, possuindo toda uma complexidade na sua jornada e, mesmo assim, é executado através da preeminência da figura do homem, subtraindo a figura da noiva e qualquer diálogo, mantendo sua grande maioria em planos que contemplam a rua e seus trabalhadores. Toda uma espécie de laconismo contida na sua mise-en-scène, na particularidade do acabamento para o todo da experiência, porque, do contrário, a obra nunca adota um único estilo para as cenas, ela está sempre experimentando suas formas, sempre criando novos sentidos para suas imagens que, às vezes, soam até opostos aos procedimentos anteriores.
Começa numa montagem temporalmente anárquica muito particular daquela virada do cinema moderno, mas que não utiliza de toda essa possibilidade de negação cronológica em prol da idiossincrasia ou do ineditismo. É uma não linearidade mais próxima de um Alain Resnais em “Hiroshima, Meu Amor”, preserva o tempo presente e o redimensiona com suas truncagens a fim de dar um novo peso para o drama. Tal como a cena inicial, que do silêncio desagradável no salão de dança, parte para momentos anteriores ligados a crise, porém, sempre continuamos ouvir a música diegética do “agora”.
Em seguida, passa para sua maior constante, seus planos crus das ruas e dos trabalhadores. As cenas que melhor proporcionam uma beleza imagética, como os operários que com suas pás criam diversos montinhos geométricos pelo infinito da paisagem. Tudo intermediado pelo protagonista que perpassa pela igreja, pelo campo, pela fábrica, pelas lojas ao anoitecer, etc. Uma visão contraditória do artificialismo autoral anterior, uma busca semidocumental aos moldes neorrealistas.
Ao final, chega-se ao momento culminante em que o espaço é convertido em palco alegórico e poético, o encontro de dois amantes que estão mais conectados através de um contraplano simbólico do que num plano em que ambos estão realmente juntos no salão. Um momento unicamente carnal, de semblantes enervados e beijos reconciliatórios, desprezando todo espaço em volta, que se transforma, muda de locação, escurece e sai fora de foco: a única continuidade vem dos corpos dos atores.
Disso, dá pra questionar incisivamente se toda essa metamorfose não é simplesmente um amontoado de retalhos soltos, se não quer se fazer um “bom filme” por cenas desconexas e arbitrárias. Contudo, seria um descaso não aperceber que sua maior qualidade reside na sutileza da linha que costura essas peças, transformando-as num acabamento sucinto.
Se é o trabalho que agrava de vez todo mal do relacionamento de Giovanni, é o mundo externo, cotidiano, que o convida a repensar sua vida. Um esquema muito simples e potente, iniciar por todo um fluxo caótico dos sentimentos do noivo para, em seguida, sentir o contraste de seu momento sabático, o protagonista como simples guia de um tour documental, desalienando sua particular relação trabalhista ao olhar para o outro. Assim, só depois de contemplar o que é o carnaval para um vizinho, um desconhecido, um terceiro, ele pode retornar a suas memórias carnavalescas e ressignificá-las. Sua crise se manifesta aguçando a visão, precisando do concreto do mundo para poder enxergar o que há mais de abstrato em si mesmo. Basicamente, um esquema muito conhecido, presente num "Romance na Itália" e em todo um gênero de restauração do matrimônio: crise/externação/renovação.
Mesmo que a obra me soe um pouco fajuta em sua visão social, quando decide demonstrar um sofrimento tão explícito do trabalhador — como o garçom que dá seu monólogo sobre seu filho doente, o que até quebra esse esquema da verbalização presente no interpessoal do noivo versus o puro contemplar do universo ao redor — ela sempre atravessa seus próprios deslizes com sua costura sutil desse ciclo que nunca se rompe: até pode ser bem caricato os patrões de terno que reclamam do homem simples de cavalo no trânsito, todavia, o que realmente interessa na cena é a subjetiva que mira para fora do carro, as imagens rústicas que mostram as casas e o mato que beira o asfalto ou mesmo o próprio homem do cavalo.
Uma experiência de procedimentos e sentimentos complexos, mas que encontra sua melhor qualidade numa grave redução e costura do essencial, transformar a não linearidade, o realismo subjacente e a evocação da memória num simples conto de renovação matrimonial.
Como de costume o cinema de Ermano Olmi me deixou um pouco desconectado do roteiro, todavia seus minutos finais quando de fato adentramos no romance dissolvido das personagens embarcamos em uma poética jornada angustiosa de separação;.
Em apenas 84 minutos, com somente dois atores principais, Olmi comporta estilos muito distintos, todos postos para dialogarem com uma crise interpessoal, uma investigação social e um drama pungente. Um exercício de síntese muito invejável que, de alguma forma, parece parafrasear a famosa fórmula do bom filme de Hawks “three good scenes and no bad scenes”.
Aqui, meio às avessas, se preocupando menos com uma confecção em série que produza bons momentos do que com a redução radical de arestas, coagulando todo o clímax numa única sequência de planos poderosos: a introdução feita a partir da dança, a reconciliação por um diálogo de cartas ou a conclusão discursiva pela imagem da chuva. Um arco narrativo de crise no noivado que soma mais de uma temática, possuindo toda uma complexidade na sua jornada e, mesmo assim, é executado através da preeminência da figura do homem, subtraindo a figura da noiva e qualquer diálogo, mantendo sua grande maioria em planos que contemplam a rua e seus trabalhadores. Toda uma espécie de laconismo contida na sua mise-en-scène, na particularidade do acabamento para o todo da experiência, porque, do contrário, a obra nunca adota um único estilo para as cenas, ela está sempre experimentando suas formas, sempre criando novos sentidos para suas imagens que, às vezes, soam até opostos aos procedimentos anteriores.
Começa numa montagem temporalmente anárquica muito particular daquela virada do cinema moderno, mas que não utiliza de toda essa possibilidade de negação cronológica em prol da idiossincrasia ou do ineditismo. É uma não linearidade mais próxima de um Alain Resnais em “Hiroshima, Meu Amor”, preserva o tempo presente e o redimensiona com suas truncagens a fim de dar um novo peso para o drama. Tal como a cena inicial, que do silêncio desagradável no salão de dança, parte para momentos anteriores ligados a crise, porém, sempre continuamos ouvir a música diegética do “agora”.
Em seguida, passa para sua maior constante, seus planos crus das ruas e dos trabalhadores. As cenas que melhor proporcionam uma beleza imagética, como os operários que com suas pás criam diversos montinhos geométricos pelo infinito da paisagem. Tudo intermediado pelo protagonista que perpassa pela igreja, pelo campo, pela fábrica, pelas lojas ao anoitecer, etc. Uma visão contraditória do artificialismo autoral anterior, uma busca semidocumental aos moldes neorrealistas.
Ao final, chega-se ao momento culminante em que o espaço é convertido em palco alegórico e poético, o encontro de dois amantes que estão mais conectados através de um contraplano simbólico do que num plano em que ambos estão realmente juntos no salão. Um momento unicamente carnal, de semblantes enervados e beijos reconciliatórios, desprezando todo espaço em volta, que se transforma, muda de locação, escurece e sai fora de foco: a única continuidade vem dos corpos dos atores.
Disso, dá pra questionar incisivamente se toda essa metamorfose não é simplesmente um amontoado de retalhos soltos, se não quer se fazer um “bom filme” por cenas desconexas e arbitrárias. Contudo, seria um descaso não aperceber que sua maior qualidade reside na sutileza da linha que costura essas peças, transformando-as num acabamento sucinto.
Se é o trabalho que agrava de vez todo mal do relacionamento de Giovanni, é o mundo externo, cotidiano, que o convida a repensar sua vida. Um esquema muito simples e potente, iniciar por todo um fluxo caótico dos sentimentos do noivo para, em seguida, sentir o contraste de seu momento sabático, o protagonista como simples guia de um tour documental, desalienando sua particular relação trabalhista ao olhar para o outro. Assim, só depois de contemplar o que é o carnaval para um vizinho, um desconhecido, um terceiro, ele pode retornar a suas memórias carnavalescas e ressignificá-las. Sua crise se manifesta aguçando a visão, precisando do concreto do mundo para poder enxergar o que há mais de abstrato em si mesmo. Basicamente, um esquema muito conhecido, presente num "Romance na Itália" e em todo um gênero de restauração do matrimônio: crise/externação/renovação.
Mesmo que a obra me soe um pouco fajuta em sua visão social, quando decide demonstrar um sofrimento tão explícito do trabalhador — como o garçom que dá seu monólogo sobre seu filho doente, o que até quebra esse esquema da verbalização presente no interpessoal do noivo versus o puro contemplar do universo ao redor — ela sempre atravessa seus próprios deslizes com sua costura sutil desse ciclo que nunca se rompe: até pode ser bem caricato os patrões de terno que reclamam do homem simples de cavalo no trânsito, todavia, o que realmente interessa na cena é a subjetiva que mira para fora do carro, as imagens rústicas que mostram as casas e o mato que beira o asfalto ou mesmo o próprio homem do cavalo.
Uma experiência de procedimentos e sentimentos complexos, mas que encontra sua melhor qualidade numa grave redução e costura do essencial, transformar a não linearidade, o realismo subjacente e a evocação da memória num simples conto de renovação matrimonial.
Obra- prima!