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Documentário sobre o povo Wodaabe da região sul do Sahara. Herzog dedica atenção particular aos rituais de namoro e conquista, sobretudo ao Gerewol.
O Gerewol é uma espécie de "concurso de beleza" onde - através de maquiagem e movimentos corporais - os homens jovens se esforçam para serem notados pelas mulheres, que elegem o mais belo da tribo e escolhem seus parceiros.
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No sul do Saara vivem os Wodaabe, um grupo nômade que adora a beleza. Após quatro anos de terrível seca, a população Wodaabe foi quase dizimada e os poucos sobreviventes estão tentando sobreviver nas fronteiras das cidades. Os Wodaabe - um subgrupo do povo Fulani - têm a distinção de se considerarem as criaturas mais belas da criação. Eles adoram a beleza, embora agora sejam obrigados a sobreviver em um deserto de lixo, pobreza e miséria. O sul do Saara foi marcado por uma terrível seca entre 1984 e 1988, que dizimou a população Wodaabe e empurrou os sobreviventes para as fronteiras das cidades. Forçados a abandonar seus territórios ancestrais, eles se sentiram perdidos e sabiam que esse poderia ser o fim de sua cultura e de seu modo de vida nômade. As grandes chuvas de 1988, as mais fortes dos últimos sessenta anos, marcaram o fim da seca, mas os danos são profundos demais para que os Wodaabe se recuperem. Herzog não é um sonhador, ele não idealiza o passado ou algum modo de vida "puro" onde o homem vive em simbiose com a natureza. Ele mostra as terríveis condições de vida desses grupos saharianas, sua miséria, sua fome, seu desespero quando as estações mais amenas trazem grama que é imediatamente coberta por nuvens de gafanhotos. O que interessa a Herzog é ver como o homem é capaz de viver em lugares que fazem tudo para rejeitá-lo. Para ver como, apesar da terra árida e inóspita que é a deles, os Wodaabe conseguem celebrar a beleza. Um povo moribundo, o Wodaabe celebra todos os anos Geerewol, o festival da chuva e do amor. Os homens se preparam por muito tempo, se maquilham, fazem roupas preciosas e depois dançam na frente das mulheres da tribo reunidas para a ocasião. Eles alargam seus olhos e congelam seus rostos em sorrisos que mostram seus dentes branqueados, sendo a beleza dos homens determinada pela quantidade de branco visível em seus rostos. Enquanto dançam e contorcem seus rostos, as jovens mulheres sussurram umas para as outras, conversam, riem, brincam e brilham, Herzog divertiu-se filmando-as como adolescentes à porta de uma escola secundária. Após a dança, as mulheres escolhem um homem para passar a noite, às vezes para a vida. Wodaabe certamente não é um filme inesquecível de Werner Herzog, mas encontramos nele essa forma de poetizar a realidade por meio do mise en scène que o torna um dos grandes cineastas do gesto documental. Assim, o tema profundo do filme está inscrito na forma como o cineasta filma suas personagens. Ele não explica seu contexto social ou histórico, isso deixa para a antropologia, ele não age como etnólogo, ele reúne elementos de suas vidas para contar algo sobre toda a humanidade. A primeira aparição dos homens Wodaabe na tela é surpreendente. Herzog os filma em maquiagem, em close-up. Olhos largos e sorrisos de muitos dentes preenchem a imagem ao subir um coro de Ave Maria. O espectador que espera um relatório sobre a vida de um grupo africana é completamente apanhado desprevenido, a discrepância entre imagem e som dando a impressão de que Herzog está filmando um povo de outro planeta tentando se comunicar conosco; nisso Herzog não foge a tradição colonial Alemã, que dizimou tantos povos pela África...de tudo resta um pouco, afinal! Ao longo do filme, Herzog joga sobre tais contrastes, desarmando qualquer exotismo para dar substância à questão da alteridade. Uma alteridade que diz respeito tanto ao homem e à natureza (a terra inóspita, um grande tema herzogiano) quanto ao homem; pois Herzog não só mostra a incrível diferença e riqueza cultural entre o Ocidente e a África (por meio do choque causado pela imagem e pela música; afinal são eminentemente diferentes!), mas também destaca a lacuna entre os Wodaabe e os grupos que lhes estão muito próximos. A alteridade está em toda parte e nos perguntamos como a Humanidade consegue existir apesar de tudo. É o uso da Ave Maria que, em parte, causou-me estranheza, como a tentar obter um selo de qualidade humana ao documento, não sei!. Aparece mais uma vez durante a festa e quando Herzog muda abruptamente dessa para imagens terríveis das condições de vida dos Wodaabe, o refrão continua, ligando assim a celebração da beleza e da pobreza do grupo, a celebração da vida e a anunciada morte de um povo. Esse belo movimento pendular, hora aqui, hora acolá, é o coração de um filme que é simples e formalmente muito interessante, e que mais uma vez sintetiza o questionamento de Werner Herzog sobre a relação do homem com o mundo. O Filme deve ser visto e, como dizia Lévi-Strauss, deve ser pensado!
Fez-me sair do espectro da civilização ocidental para refletir sobre a vida em outras formas! Relação homem-mulher aparentemente digna. Recomendo!
No começo pensei que as mulheres estavam "fritas", até descobrir que eram homens em um concurso de beleza onde os dentes e os olhos são mais avaliados! O Ave Maria irrita mesmo no início!
Perfeito esse concurso! E que homens lindos!
Incomodei-me sobremaneira com o uso da "Ave Maria" numa das cenas iniciais, mas, afora isso, apreciei bastante a imersão antropológica do diretor, que, como de praxe em sua obra, requestiona as interações ambientais e interpessoais de maneira poética e impressiva. A tribo retratada no filme é fascinante, bem como os rituais respeitosamente perscrutados pela câmera. (WPC>)