Em 1885, seis mulheres fogem juntas de um internato no Brasil: quatro escravas e duas jovens damas. Abrigadas numa antiga fazenda, elas descobrem sua liberdade, identidade e desejos, desafiando as estruturas sociais da época.
Antes da sessão, intuía que este seria um dos filmes favoritos do festival. Talvez até tenha sido, já que encontrei algumas pessoas mui emocionadas, ao final da sessão. Porém, encontrei outras - muito mais numerosas - constrangidas pelo que acabaram de ver: uma estranha opção por uma conciliação inconvincente, entre personagens que movimentam-se como caricaturas, a despeito das convincentes interpretações das atrizes.
A apresentação do filme - entre diretora, elenco e equipe - foi muito bonita, compondo uma espécie de jogral, valorizando os apanágios feministas e raciais da produção, financiada de maneira vultuosa. Infelizmente, apesar dos figurinos, fotografia e reconstituição de época mui acertados, o roteiro e as atuações optaram por uma chave anacrônica, que deixava o espectador sem entender direito as intenções da diretora: trata-se de uma fábula sobre liberdade, que enfeitou aspectos emancipatórios, numa conjuntura mui violenta de persecução, a fim de permitir uma projeção um tanto onírica dos anseios daquelas personagens? Poderia funcionar, mas a instituição de um quarteto de personagens brancas - que se consideram tão oprimidas quanto as jovens escravizadas (!!!) e que se movem e falam em uníssono, como se fosse um bloco único, uma única pessoa com quatro bocas e oito mãos - fez com que risos nervosos fossem ouvidos durante a projeção. Pensei comigo mesmo: "e sério isso?!"
Infelizmente, era. Ou queria ser... Quanto mais avançada, mais parecida com uma telenovela da TV Record o filme parecia, com uma encenação enfeitada que não dava conta do esvaziamento das falas e ações repetitivas, em suas tentativas recorrentes de fuga, eventualmente abstrata naquilo que se deseja, a tal da liberdade que "ninguém sabe definir, mas todo mundo deseja". Pensei que o debate posterior poderia causar uma polêmica tão desconfortável quanto aquela que cercou o ótimo filme VAZANTE, mas parece que as pessoas que gostaram da obra conseguiram validar os seus méritos. Não me oporei: de minha parte, apenas declaro que não gostei de quase nada neste filme, apesar das boas promessas, do carisma das envolvidas, da necessidade sempre renovada de falar sobre estas questões - inclusive, em prisma histórico. O problema é que justamente a História foi negligenciada, como se o pretexto de época fosse apenas uma deixa para vestir as jovens de maneiras pomposas e assegurar prêmios técnicos. Para mim, chega a ser um filme perigoso, no modo como põe, frente a frente, quatro moças negras e quatro jovens brancas, confundindo caprichos com direitos legítimos, existindo, claro, aquelas personagens que se deixaram contaminar pelos falsos elogios de quem deseja nos colonizar. Quando surge um débil personagem masculino - vilanaz no modo cordial como trata quem deseja converter em propriedade -, o filme só piora, sendo o desfecho repleto de brechas imperdoáveis, de lacunas involuntárias e mal sucedidas. Muito abaixo do esperado, infelizmente! (WPC>)
Antes da sessão, intuía que este seria um dos filmes favoritos do festival. Talvez até tenha sido, já que encontrei algumas pessoas mui emocionadas, ao final da sessão. Porém, encontrei outras - muito mais numerosas - constrangidas pelo que acabaram de ver: uma estranha opção por uma conciliação inconvincente, entre personagens que movimentam-se como caricaturas, a despeito das convincentes interpretações das atrizes.
A apresentação do filme - entre diretora, elenco e equipe - foi muito bonita, compondo uma espécie de jogral, valorizando os apanágios feministas e raciais da produção, financiada de maneira vultuosa. Infelizmente, apesar dos figurinos, fotografia e reconstituição de época mui acertados, o roteiro e as atuações optaram por uma chave anacrônica, que deixava o espectador sem entender direito as intenções da diretora: trata-se de uma fábula sobre liberdade, que enfeitou aspectos emancipatórios, numa conjuntura mui violenta de persecução, a fim de permitir uma projeção um tanto onírica dos anseios daquelas personagens? Poderia funcionar, mas a instituição de um quarteto de personagens brancas - que se consideram tão oprimidas quanto as jovens escravizadas (!!!) e que se movem e falam em uníssono, como se fosse um bloco único, uma única pessoa com quatro bocas e oito mãos - fez com que risos nervosos fossem ouvidos durante a projeção. Pensei comigo mesmo: "e sério isso?!"
Infelizmente, era. Ou queria ser... Quanto mais avançada, mais parecida com uma telenovela da TV Record o filme parecia, com uma encenação enfeitada que não dava conta do esvaziamento das falas e ações repetitivas, em suas tentativas recorrentes de fuga, eventualmente abstrata naquilo que se deseja, a tal da liberdade que "ninguém sabe definir, mas todo mundo deseja". Pensei que o debate posterior poderia causar uma polêmica tão desconfortável quanto aquela que cercou o ótimo filme VAZANTE, mas parece que as pessoas que gostaram da obra conseguiram validar os seus méritos. Não me oporei: de minha parte, apenas declaro que não gostei de quase nada neste filme, apesar das boas promessas, do carisma das envolvidas, da necessidade sempre renovada de falar sobre estas questões - inclusive, em prisma histórico. O problema é que justamente a História foi negligenciada, como se o pretexto de época fosse apenas uma deixa para vestir as jovens de maneiras pomposas e assegurar prêmios técnicos. Para mim, chega a ser um filme perigoso, no modo como põe, frente a frente, quatro moças negras e quatro jovens brancas, confundindo caprichos com direitos legítimos, existindo, claro, aquelas personagens que se deixaram contaminar pelos falsos elogios de quem deseja nos colonizar. Quando surge um débil personagem masculino - vilanaz no modo cordial como trata quem deseja converter em propriedade -, o filme só piora, sendo o desfecho repleto de brechas imperdoáveis, de lacunas involuntárias e mal sucedidas. Muito abaixo do esperado, infelizmente! (WPC>)