O filme está ambientado na Polônia em 1982, no auge da guerra fria. O General Wojciech Jaruzelski, à frente do partido comunista, governa o país com lei marcial. Um jovem advogado, que defendia um grevista, é morto. Sua mulher tenta comunicar-se com ele, por meio de um hipnotizador. Belo e sensível filme de Kieslowski. Um filme altamente politizado, como toda sua obra, com uma carga crítica impressionante sobre o sistema comunista vigente na Polônia naquela época.
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Mais um drama pesado e doloroso de Kieslowski . Penso que o contexto histórico acabou ficando um pouco distante do meu entendimento dado minha falta de conhecimento da história da Polônia e esta transição do país dominado pela antiga URSS para o movimento Solidariedade. Tem boa condução e o drama de Ulla é forte mas o julgamento em si dá a impressão de incompleto.
"Alguém que escolheu viver… deve ser capaz de suportar muito."
Em um filme mais sério e maduro que seus anteriores, Kieslowski aborda o luto através da perspectiva. Ele abrange esse olhar e leva o longa a um caminho repleto de raízes e possibilidades. Um olhar sobre uma Polônia em alerta, ressabiada. E sobre as pessoas e suas dores, a forma como lidam com a perda e o quanto isso afeta o círculo de relações.
É um filme muito delicado ao mesmo tempo em que é duro, difícil.
A sequência final é simbólica e sintetiza todo um contexto político e social, além de colocar em evidencia o fator humano. A dor, o luto, a dificuldade em lidar com aquilo. É existir sem se viver mais.
25/02/2021
achei um pouco confuso
Muito bom, mas não excepcional como outros do Kieslowski. Tive dificuldade em entender o contexto político (pena que não li nada antes de ver o filme, porque teria as necessárias noções sobre a Lei Marcial, Solidariedade, Lech Walesa etc), por isso não me envolvi tanto com a linha narrativa do julgamento. Já a parte da esposa em luto (que lembra “A Igualdade é Azul”) gostei muito. Destaque ainda para a linda e funcional trilha sonora, com o detalhe de ser a primeira colaboração do compositor Zbigniew Preisner com o Kieslowski, parceria esta que ainda renderia ótimos momentos.
Dirigido por Krzysztof Kieślowski, Sem Fim (Bez Konca, 1985), narra a história de Ulla (Grazyna Szapolowska), uma tradutora viúva que perdeu seu marido e descobriu que o amava mais que do imaginava. No início temos o advogado Antek (Jerzy Radziwilowicz), marido de Ulla, anunciando detalhes de sua morte. O personagem não chega a ser um narrador oculto, contudo, serve como um entrelaçador das duas narrativas paralelas quando as acompanha. Ao mesmo passo em que Ulla deseja superar a tragédia e conseguir lidar com a perda, ela se encontra envolvida com o caso em que seu marido trabalhava, que dizia respeito à prisão de um integrante do “Solidariedade”, segunda história apresentada no longa.
A carreira de Kieślowski pode ser dividida em duas partes, das quais a primeira se refere às produções exclusivamente polonesas, enquanto a segunda se dá pelo estabelecimento de uma parceria com o produtor franco-romeno Marin Karmitz, fundador da companhia MK2. A última rendeu-lhe o lançamento de suas obras mais vivamente aclamadas: A Vida Dupla de Véronique (La double vie de Véronique, 1991), e a famosa Trilogia das Cores: A Liberdade é Azul (Trois couleurs: Bleu, 1993), A Igualdade é Branca (Trois couleurs: Blanc, 1994) e A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge, 1994). Enquanto a primeira abriga, igualmente, outras grandes obras, das quais incluem-se Sem Fim (Bez Konca, 1985), Acaso (Przypadek, 1981), A Cicatriz (Brizna, 1976) e Cinemaníaco (Amator, 1979).
Em sua primeira fase, Kieślowski foi influenciado pelo sistema da época, abordando problemas como a burocracia governamental atrapalhando a economia do país, as greves e principalmente o cotidiano das cidades e cidadãos poloneses de uma maneira bastante direta. Realizando suas produções após a segunda grande Guerra, o diretor vivia em uma Europa em que a Cortina de Ferro ainda estava estabelecida, ou seja, ainda havia a segregação dos países influenciados pelos Estados Unidos, e do outro lado, das nações que seguiam a União Soviética, que era o caso da Polônia. Dessa maneira, o diretor critica o governo polonês realizando reflexões acerca de seu funcionamento através de suas obras, inserindo muita das vezes, um contexto político.
Sem fim não escapa desse ponto. Vivenciando um sistema extremamente repressivo, o personagem Derek (Artur Barcis), ex-cliente do marido de Ulla, que era advogado, luta contra um governo restritivo em oposição à lei marcial da Polônia, que durou de 1981 a 1983 e causou a morte de centenas de ativistas da oposição. Tal regime baseava-se em anular alguns dos direitos fundamentais do cidadão, como o direito de ir e vir, e principalmente o de se reunir e de manifestar opiniões contrárias acerca do governo. Decretou-se também que qualquer indivíduo que realizasse práticas a favor da conspiração opositora seria preso e enfrentaria um julgamento sumário por traição à nação, que poderia acarretar em até cinco anos de confinamento. Nesse sentido, Derek enfrenta um julgamento por tornar-se organizador de uma greve, opondo-se ao sistema.
Apesar de seu cunho político bastante explícito, pode ser árduo para o espectador que não está diretamente ligado ou vivenciou a época entender essa parcela da narrativa, pois Kieślowski não explica o contexto histórico. Isso porque não pretendia-se que Sem Fim fosse divulgado nos demais países europeus ou no mercado estadunidense, tornando-se mais acessível somente posteriormente à queda da Cortina de Ferro e dos governos totalitários do leste europeu.
O desempenho civil no filme de Kieślowski é mesclado com uma incursão no território sobrenatural juntamente com um aprofundamento dos sentimentos humanos. Isso porque o personagem de Antek –subtende-se que é seu espírito- perpassa toda a trama, observando as situações em que sua mulher enfrenta e seus pensamentos menos externalizados. Apesar de afirmar que não filma metáforas, o diretor cria situações e conexões em que o espectador consegue ler através do seu próprio olhar. Um paradoxo foi formado, pois essa inserção ao meio sobrenatural e o constante contato que a protagonista mantém com seu marido –através das sessões promovidas pelo hipnotismo- pode subtender que os fios sociais excluídos pela lei marcial continuam intactos noutra dimensão. E isso pode ser visualizado quando no começo, Antek indica esse contato prévio com Ulla.
No início da primeira sequência,
Antek é filmado sentado em uma cadeira contando detalhes de sua “passagem” enquanto sua mulher adormece, e logo, quando a câmera deixa de mostra-lo, com um plano médio em Ulla, e após voltar a mostrar toda a extensão do quarto, ele some. Tal fato ocorre porque ele é quem manterá esse laço vivo, e somente durante as sessões de hipnose, em momentos em que um cão o vê, ou quando Ulla comete suicídio no final do roteiro, é que sua presença será sentida. Devemos ressaltar que somente quando seu antigo cliente é liberto após o julgamento, fazendo uma analogia, é que os laços de Antek e Ulla se reavivam novamente.
Essas conexões de Kieślowski tornam Sem Fim uma de suas mais poéticas obras. Os sentimentos da protagonista feminina, suas relações e principalmente a conexão entre Ulla e Antek é uma das causas disso. Não conseguimos identificar se a protagonista possui a capacidade de sentir o marido a todo instante – assim como ele sente ela. Não obstante, ao mesmo tempo ela constata-se impulsionada a ter um envolvimento com o caso de Derek. Portanto a estrutura define as conexões entre os personagens e suas histórias, o que torna a trama frágil nesse sentido.
Ainda durante a primeira sequência, percebemos a quebra da “quarta parede” existente no cinema. Na narrativa clássica, os personagens tendem a receber a orientação de não olhar para a câmera, formando assim, uma parede virtual que é chamada de quarta parede. Contudo, há uma quebra na narrativa canônica em relação a isso.
Já na primeira sequência conseguimos observar que Antek conta sua história direcionando seu olhar diretamente para as lentes de filmagem. Após o telefone tocar e Ulla entrar em quadro, a câmera passa a substituir a percepção visual do recém-falecido. Todavia, só conseguimos observar que a história é contada sob o olhar de Antek – que torna-se o narrador quando não está em quadro- na cena em que Ulla vai ao cemitério. Durante a visita ela acende algumas velas e quebra a parede virtual olhando para a câmera, e logo após diz as palavras “eu te amo”, repetindo as falas posteriormente do mesmo modo.
Ao mesmo tempo em que o filme ocorre sob o olhar de Antek, sua paleta de cores também reflete o sentimento e a situação do personagem. Com a predominância de cores pastéis e principalmente do cinza, as cenas manifestam certa melancolia, isso porque Antek se encontra impossibilitado de manter um contato direto com sua família e não consegue interferir em ações ou situações em que perpassam. Contudo, as cores vão muito além da percepção de Antek. Representam também o olhar de Ulla, Derek, e o de sua mulher. Ulla está passando por um momento desesperador, no qual ao mesmo tempo em que deseja superar a morte do marido, tenta manter determinada aproximação de seu último caso. A mulher de Derek e ele estão impossibilitados de manter contato por conta da prisão, possibilitando que o ar de tristeza e dificuldades apareçam sob suas vidas. Ademais, as cores faz alusão à situação política da Polônia, que estava mergulhada no sistema comunista que reprimia seus cidadãos. Portanto, toda a forma do filme funciona como um reflexo dos personagens, seus sentimentos e contexto histórico em que vivem.