Data de lançamento
20 Março 2019Duração
O relacionamento entre Dee Dee Blanchard (Patricia Arquette) e sua filha Gypsy (Joey King), que acreditou ter uma grave doença durante toda a vida por causa da mãe extremamente controladora e insegura. Em busca de independência para viver um amor proibido, Gypsy decide então orquestrar um assassinato.
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Assustador saber que existiram ( e ainda existem) casos assim. Achei a série muito bem interpretada e fiel aos fatos. Todos desequilibrados mentalmente: mãe, filha e namorado.
Mais do que um true crime ou uma história sobre um assassinato, The Act é, para mim, o retrato de uma relação mãe e filha que nunca permitiu que a filha fosse, de fato, uma pessoa. O crime que dá título à série é quase um detalhe final, a consequência inevitável de algo muito mais devastador: uma vida inteira de controle, manipulação e anulação da identidade.
Gypsy é apresentada como uma garota frágil, cheia de doenças, infantilizada ao extremo — de cabeça raspada, em cadeira de rodas, alimentada por tubos, privada de coisas básicas como andar, comer, ou mesmo amadurecer. Mas essa fragilidade é uma farsa: não a dela, e sim a que a mãe, Dee Dee, fabricou. É uma maternidade que não protege, mas aprisiona. O “cuidar” se torna uma forma sofisticada de tortura. A doença da filha não é apenas sua narrativa: é a identidade pela qual Dee Dee existe diante do mundo.
Uma cena resume essa perversidade com perfeição. Gypsy, levada a uma dentista criteriosa, corre o risco de ver a farsa desmascarada. A mãe então recua e a conduz a outro profissional, disposto a mutilar sem perguntas. O resultado: todos os dentes extraídos. Diante do espelho, Gypsy se vê desdentada, chorando, com a autoestima arrancada junto com os molares. É uma cena tão simples quanto aterrorizante porque mostra que o verdadeiro horror não é o assassinato, mas o processo lento e cotidiano de destruição da identidade de uma pessoa.
A narrativa da série tenta criar suspense com idas e vindas entre passado e presente. Para mim, essas interrupções pouco acrescentam. O que realmente prende é acompanhar o processo de tomada de consciência da Gypsy, essa lenta percepção de que sua vida era uma mentira, a descoberta de desejos tão banais quanto proibidos: beber refrigerante, sentir prazer, viver o primeiro amor.
Quando o assassinato chega, ele não é o clímax, mas o sintoma. O namoro online, o plano, a execução — tudo parece consequência lógica de uma vida já apodrecida. De certo modo, foi impossível não sentir ambivalência. Gypsy é vítima de um abuso inominável, mas também é cúmplice de um crime. Ela não é apenas uma menina inocente, mas também não é uma adulta plenamente consciente — é alguém que nunca teve a chance de se desenvolver normalmente. O que fica, pra mim, não é só o julgamento moral sobre certo ou errado, mas a reflexão sobre como um vínculo capaz de dar vida também pode sufocá-la até o limite. The Act nos lembra que o horror não está no ato em si, mas no que o antecede.
Rapaz, sempre falei que essa Joey King até que atuava bem, mas muita gente vinha dizer que não por conta das bombas que ela tem no currículo, mas a gente tem de saber separar a atuação de uma pessoa do resto da obra pois ela só é responsável por aquilo que entrega e essa garota sempre entregou no mínimo autuações consistentes por mais rasas que as personagens que ela fez fossem, mas nessa série ela me surpreendeu, que performance, pra mim um ator ou atriz mostra uma atuação de excelência quando a pessoa some dentro do personagem, quando você não enxerga um traço da pessoa na interpretação, e aqui a Joey fez isso, tudo nela é atuação de mais alto nível, a postura, os trejeitos, a voz, tudo 100%, dá gosto de ver, virei fã dela agora.
Patricia Arquette também não fica por baixo, mas a personagem dela tem menos com o que trabalhar em relação a Gypsy, mas ela acompanha no mesmo nível e entrega uma personagem que hora você empatiza e hora abomina, pela história apresentada na série
ela também foi vítima de uma mãe abusiva e com isso projetou na sua mente uma realidade paralela onde ela era uma mãe totalmente diferente da que a sua foi, uma mãe que estaria sempre ao lado da filha e cuidaria dela, mas fez isso de um jeito totalmente distorcido e doentio, não tinha como ser diferente, uma pessoa doente nunca proverá um ambiente saudável para aqueles que estão ao lado dela.
Gypsy por sua vez não era delirante como a mãe, ela foi alienada a vida inteira por ela, levada a acreditar que era menos do que poderia ser, que era doente, limitada, fraca, quando ela tentava ser mais a mãe dava um jeito de forçá-la a se manter dependente dela pois ela não enxergava outra vida a não ser aquela onde era uma super mãe abnegada que sempre sabia o que fazer pra Gypsy, ela nunca teve chance de ter autonomia sobre a própria vida, vivia em uma prisão física a psicológica, foi enganada desde sempre e teve a vida roubada.
Depois de tudo isso vou ser sincero, não acho que a
Gypsy pelo que me foi mostrado seja uma pessoa ruim, claro que existia maneiras melhores dela tentar se livrar da mãe, óbvio, mas olha a cabeça dela, já era maior de idade a muito tempo a ainda se comportava como uma criança, era ignorante sobre o mundo e as possibilidades do que poderia fazer, isso misturado ao ódio que ela foi sentindo culminou no crime, eram duas pessoas adoecidas em embate, nada de bom iria sair disso nunca, pra mim a Gypsy tinha de ser absolvida e o garoto internado em uma clínica mantendo acompanhamento psiquiátrico, ele também era doente e foi levado a crer em uma situação onde ele estava fazendo algo bom.
É isso, grande série, os dois primeiros episódios ficam meio em segunda marcha, mas do três em diante a série engata muito e o nível só cresce, atuações magistrais em uma história densa e macabra, espero que a Joey King escolha melhor o que fazer, alguns dos últimos trabalhos dela tem manchado a sua carreira, é triste ver o potencial que ela tem desperdiçado fazendo essas tranqueiras, que um dia ela possa tem um material tão bom quanto esse em mãos e voltar a brilhar de novo, torço muito por isso.
‘The Act’: quando o amor entre mãe e filha vira uma história de abuso e horror
Minissérie original da Hulu, 'The Act' dramatiza a verdadeira história de Dee Dee e Gypsy, conhecidas mundialmente por um dos crimes mais bizarros dos EUA.
Histórias de abuso entre mãe e filha/filho não são novidades na dramaturgia. Só para citar duas séries recentes, temos Bates Motel e o tóxico relacionamento entre Norma e Norman, e Objetos Cortantes, em que toda tensão e problemática gira em torno da mãe de Camile e Amma. The Act, minissérie original da plataforma Hulu, também aborda esta complexa dinâmica sobre relacionamento abusivo parental, mas a diferença é que ela é baseada numa das histórias reais mais absurdas já vistas nos últimos tempos. A nossa grávida de Taubaté perde feio para a grande encenação de Gypsy e Dee Dee.
Se você não sabe do que eu estou falando, vale a pena ver a minissérie sem nenhum detalhe, mas a produção não se preocupa muito em esconder o que aconteceu. Portanto, aqui vai um breve resumo: em 2016, uma reportagem do BuzzFeed viralizou no mundo inteiro ao contar a história de Dee Dee e Gypsy Rose Blancharde, mãe e filha que ganharam a atenção da mídia ao expor o drama que viviam.
Dee Dee vivia integralmente para Gypsy, sua filha que, desde pequena, apresentava doenças gravíssimas. “Quem perguntasse sobre o diagnóstico de Gypsy ouvia como resposta uma longa lista de problemas de saúde: anomalias cromossômicas, distrofia muscular, epilepsia, asma severa, apneia do sono, problemas na vista. Sempre fora assim, dizia Dee Dee, desde a época em que Gypsy era bebê. Ela passou um tempo na UTI neonatal. Teve leucemia quando era pequena”, revela um trecho do artigo.
Com isso, as duas ganharam doações do país todos e participavam de inúmeros programas de TV. O problema é que era tudo mentira. Dee Dee enganava não somente as pessoas, mas sua própria filha, que de fato acreditava estar doente. Conforme Gypsy vai crescendo, ela vai em busca de independência para viver um amor proibido e decide orquestrar um assassinato. A história já foi contada em 2017, em um documentário da HBO, Mommy Dead and Dearest, mas a proposta de The Act é vermos o cotidiano de mãe e filha e o que acontecia por trás das paredes da casa onde elas viviam.
Seria, de fato, um desperdício imenso não contar tudo isso por meio da teledramaturgia. É claro que os fatos já são chocantes, o que deixa a história naturalmente interessante, mas tudo soaria péssimo sem uma atuação acima da média. Por isso, a plataforma Hulu chamou Patricia Arquette (Escape at Dannemora, Medium) e Joey King (A Barraca do Beijo) para interpretarem duas personagens difíceis de serem feitas sem cair no caricato. O resultado é um deleite. Tanto King quanto Arquette conseguem entregar um trabalho sóbrio, calculado e sem afetação. Os momentos de explosão existem, mas aparecem pontualmente, tudo para que, no final, nós recebamos o impacto necessário. O destaque de King é que, embora entendamos que claramente ela é uma vítima, sua personagem nunca soa unilateral, podendo às vezes ser tão psicótica quanto sua mãe. Afinal, ela é seu único modelo de referência para a vida.
Ainda assim, é Patricia Arquette quem se entrega de corpo e alma a uma personagem cheia de nuances. Seu tom de voz afável e doce, em contraste com um olhar doente e assustador, é algo que facilmente lhe garantirá indicações em premiações. O trabalho da atriz é tão fantástico que é possível sentir empatia e compaixão pela personagem, mesmo quando ela faz coisas terríveis e incute na filha insegurança e medo. Mesmo nesses momentos, Arquette soa como uma mãe preocupada e que carrega um fardo sozinha, injustiçada pelo mundo.
Há alguns problemas no roteiro, claro. A minissérie vai bem em quase todos os episódios, mas há alguns furos, diálogos expositivos e histórias de fundo que não funcionam muito bem, como os vizinhos de Gypsy e Dee Dee. Em certo momento também percebemos que o roteiro está criando uma barriga para esticar a história, que facilmente poderia ter seis episódios e não oito. Nada disso, entretanto, faz a história perder o impacto.
Sufocante, The Act é um thriller clássico com ares de terror, ao mesmo tempo em que soa como uma fábula, um conto de fadas sombrio. A cada episódio vamos nos envolvendo, espectadores passivos de uma história que, vista agora, parece absurda demais para que ninguém tenha se dado conta. Ao nos lembrar que a realidade sempre será muito mais perturbadora do que a ficção, The Act é um retrato de abuso psicológico sobre até onde um ser humano pode aguentar. E afinal, quem pode julgar Gypsy?
PS: Esse filme é baseado em outro filme que é baseado em fatos reais. Síndrome de Münchhausen por procuração é um tipo de abuso infantil tipicamente materno e consiste em convencer a criança de que ela é doente, provocando inclusive vários sintomas falsos por meio de medicamentos e afins.
Mas por qual razão a mãe fez isso?
Viver de doações e fraudes com a farsa da doença da filha.
E ela sofreu a vida toda com uma mãe narcisista e passou isso em sua relação com a filha mas de um jeito ainda pior.
E tem um outro filme, onde a mãe dá até remédio de cachorro para filha ficar paraplégica e dependente dela, com varias doenças causadas por consumos errados de medicamento. Sim, é o filme "Fuja!" tem na Netflix para quem está interessado. Essa também é bem interessante a trama.
Ótimas e irritantes interpretações.
Como tem gente louca nesse mundo
Gostei e recomendo
02.05.2024