Nesta primeira parte de sua trilogia Budista, Akio Jissoji conta a história de Masao e Yuri, um casal de irmãos que vive uma relação incestuosa sem culpa, mas é surpreendido por uma série de conseqüências que atingem as pessoas ao seu redor. Abarcando temas como o nosso poder de escolha e a fé, o filme trata-se, acima de tudo, de uma experiência meditativa, apesar do seu tema controverso.
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Acostumados às percepções do obscurantismo cristão pelo cinema ocidental, vide Bergman ou mesmo Von Trier, um filme que questiona uma realidade metafísica budista é deveras interessante e iluminador. O filme de Akio Jissoji, além de belamente filmado, presta atenção aos detalhes: aos interiores tradicionais japoneses, à percepção distanciada da modernidade, ao conflito entre ambas e entre as gerações, além de um certo toque de absurdo. Quando tudo é transiente e nada se mantém, por que alguém se ateria às imposições morais? Não somente na questão sexual, que ocorre entre irmãos, entre genro e madrasta, aprendiz e mestre, monges e estátuas, trabalhador e patrão, numa subversão indicativa de algo mais amplo, ou seja, o recrudescimento da moral num ambiente de liberdade aparente. Mas também na questão da arte e do fazer artístico, na relação entre pais e filhos, na questão do dever e do direito às liberdades individuais. O final me parece uma homenagem ao final de O Sétimo Selo, mas com a mensagem invertida. A inquietação acerca de uma criança nascida de uma relação incestuosa, que poderia nascer com alguma mal-formação, desaparece ao vermos o menino forte e saudável ao final, que resume a posição reflexiva do filme e não de acusação superficial. O monólogo final com o monge também é de uma beleza e poesia intensa.
Uma das fotografias mais lindas que já vi. Poesia em forma de filme.
"Sou obcecado por estátuas budistas porque todas elas te olham com o mesmo sorriso misterioso. Este é exatamente o semblante do nada".
"Mujo" (título original do filme), é um termo Budista que se refere à crença de que nada neste mundo dura para sempre, que tudo é impermanente e transitório.
Este filme foi vencedor do Leopardo de Ouro em Locarno 1970.
O curioso para mim foi a busca pelo filme. Assisti por um acaso online nove anos atrás e acabei não memorizando nome, diretor e muito menos ano. Em contrapartida a memória da fotografia, da direção de arte e do movimento da câmera ficaram. Daí começa a odisséia de vários outros filmes vistos "por engano"na busca por este. Filmes excelentes, inclusive. Se hoje não me causou o impacto que causou há nove anos, já acho que me valeu, ao menos, a viagem.
acho que fui com muita expectativa