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Data de lançamento
26 Abril 1985Duração
Durante as filmagens de "Paris, Texas", o diretor Wim Wenders viaja por duas semanas para o Japão, inspirado pelos filmes de Yasujiro Ozu, para procurar a Tóquio que não existe mais. Inclui uma entrevista com Chishu Ryu e uma com Yuharu Atsuta, respectivamente o ator favorito e fotógrafo de Ozu.
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É como Empire of Signs, com o fantasma de Yasujiro Ozu assombrando os espaços e as pessoas envolvidos com os seus filmes, inclusive o próprio Wim Wenders, que busca uma Tóquio subterrânea, engolida pelo desenvolvimento econômico, cultural e pela influência ocidental — logo no início da era pós-guerra, Ozu produziu uma certa quantidade de filmes com a expansão ocidental como plano de fundo.
Em Empire of Signs, Roland Barthes transita em um Japão que, ao primeiro contato — distante —, é um espaço de “signos vazios”. O ponto, no ensaio de Barthes, são as experiências cotidianas e os sentidos atribuídos aos objetos, às ações, aos textos, às comidas e às crenças. Há um ponto em comum entre Tokyo-Ga e o ensaio de Barthes: tanto o semiólogo quanto Wenders são estrangeiros e desconhecem a hierarquia sígnica linguística. É a partir dessa “limitação” linguística que Barthes estabelece o Japão como um espaço linguístico neutro — pela ótica ocidental —, e que as funcionalidades cotidianas são, dentro de um sistema de signos práticos, não arbitrárias e reflexivas, não porque o sentido não tenha uma cadeia linguística, mas porque o objeto — quando significado pelo Ocidente — é forma e prática.
Wenders, assim como Barthes, é um transeunte em um espaço de signos conflitantes, e o Japão que o diretor contesta é, além de temporalmente distante, uma experiência intimista e organizada hierarquicamente por Ozu. Em uma perspectiva mais neutra, o semiólogo fala sobre uma terceira via do sentido, cujo discurso se abstém de posição e contraposição, do maniqueísmo linguístico, e o Japão, como objeto de Wenders, suspende-se, repousando no campo da poética. Wenders não decifrou o Japão, nem Barthes o decodificou; o sentido é o próprio Ozu, como um intérprete dos signos.
Ao fim, a figura de Ozu vai muito além dos pressupostos movidos pela curiosidade a respeito de uma cultura emergente — na década de 80, o Japão já estava consagrado como um polo industrial, tecnológico e cultural. O diretor japonês tornou-se, para Wenders, um tradutor dos signos “abstratos” que o alemão via à tela.
O que torna isso tudo interessante é que, anos mais tarde, precisamente em 2023, o diretor buscou sua própria hierarquização linguística do Japão: Perfect Days.
Mesmo nunca tendo sequer ouvido falar no diretor homenageado, Wim Wanders imprime neste documentário a sua busca incessante por aquilo que só viu por meio das telas, que não sabe se vai encontrar e mesmo se é que ainda existe. Pode-se dizer que é uma verdadeira busca de fé, aquele apelo que só pesquisadores de fato sabem o que é.
Em sua sensibilidade mais que característica, por meio das câmeras, o diretor nos faz passear por Tóquio, em longas tomadas contínuas, nos dando a sensação de sermos os próprios turistas e a câmera o nosso próprio olhar.
Se ele logrou em sua premissa inicial eu tenho minhas dúvidas: vejo que a busca por imagens que remetessem às épocas passadas retratadas por Ozu de fato se perderam, no entanto, Wanders foi capaz de nos trazer as "novas" imagens do cotidiano das mais diversas camadas dos moradores de Tóquio, e acho que é justamente isso de que se trata a pesquisa - partir de uma premissa, coletar o que se encontra dela e apurar isso sobre uma nova perspectiva.
A entrevista final é de uma sensibilidade enorme, belíssimo documentário sobre a observação e os paralelos de Tokyo, Ozu e do cinema no geral. Wim Wenders filma Tokyo como se fosse Berlin.
Acredito que o filme funcione melhor para quem já viu as obras do Yasujiro Ozu. Não foi o meu caso, e pretendo corrigir isso. Mas analisando apesar dessa carência, senti um certo ar de julgamento, de desprezo pela contemporaneidade por parte do Wenders, principalmente no texto, dando a entender que a Tóquio do passado era melhor, mais verdadeira do que a da época do documentário. Isso se reflete nas imagens, a partir das quais pode-se concluir que os japoneses tinham se tornado, nos anos 80, meros zumbis americanizados. Ainda assim, suas imagens não deixam de ser belas.
É curioso como ao mesmo tempo em que em diversas cenas ele diz em voz-off que a Tokyo dos anos 80 é muito diferente da Tokyo dos anos 40-60 de Ozu, as filmagens todas parecem perfeitamente com as dos filmes do Ozu, como se essa distância toda não existisse, como se o que determinasse o olhar fosse apenas quem o produz.
Em tempo: excelente trilha sonora