Últimas opiniões enviadas
Não funciona nem como série e nem como documento historiográfico. Os excessos melodramáticos — um pouco por conta de algumas atuações ruins — tornam os episódios maçantes. Existe um abismo colossal que divide o fato da ficção e a série como um todo é tomada por vacilações narrativas, tornando-a em algo que parece ser vagamente inspirado no evento real. Há coisas boas na série, como abordar os papéis desempenhados por profissionais médicos, físicos etc. Entretanto, ao concluir-se fiquei com a impressão de que a série buscou sobrecarregar algumas personas com uma espécie de 'mea culpa' — a cena da fotografia no último episódio é o ápice do exagero melodramático. Em "Emergência Radioativa" (2026), o tom novelesco sobressai. Talvez se fosse produzida pela Globoplay, a narrativa e a direção poderiam ter ido para outro rumo, algo que, em hipótese, pudesse se aproximar do episódio do Linha Direta que, como registro histórico, é muito competente.
Em suma não há muito do que reclamar. Stranger Things é — conforme a moda diz — "sabooorrr" nostalgia. Trata-se de uma nostalgia estética, que delineou toda a narrativa da série, e também a nostalgia evocadora de comparativos com as temporadas anteriores.
É possível que a série dos irmãos Duffer seja o maior sinalizador de declínio na indústria cultural. Afinal, estamos diante de um produto esvaziado cujas presunções beiram a letargia do audiovisual domesticado — refiro-me à afetividade — e a incessante reafirmação de que "estamos a entregar um desfecho sólido".
Possivelmente isso pode ser lido como uma crítica absurda — e até sem sentido para alguns —, mas conforme o texto foi aberto: não há do que reclamar. E realmente, essa quinta temporada entrega o começo, o meio e o fim — é o que esperam, indiferente das ambiguidades narrativas. Em 2016, ano em que a série veio à luz, falava-se de um Big Data que ajudou a arquitetar “a maior obra de arte do algoritmo da Netflix” — segundo um digital creative, no mesmo ano. À época os algoritmos mapeavam a inércia crônica cultural e traçavam o passo a passo para o agora. Stranger Things tornou-se aquilo que não sabíamos que queríamos, embora quiséssemos desesperadamente reviver o tempo. Em alguns casos, esse tempo nem mesmo aporta o passado das pessoas; no mínimo teriam que ter nascido entre o fim dos anos 60 e o início dos anos 70. Digamos que a série ajudou a proliferar a síndrome de Neymar "saudades do que não vivemos", considerando que muitos de nós não vivemos a década emulada por Stranger Things, mas ainda assim imploramos pelo retorno do neon, dos sintetizadores e da loucura plástica.
Não é como se a obra dependesse do tempo para existir e ser consumida, ao contrário, as produções culturais independem de seu tempo estético para existir — imagina: é preciso ter vivido os anos 30 e 40 para entender qualquer obra que tem a Segunda Guerra Mundial como plano de fundo. Mas, pela ótica da crítica cultural, não se pode negar o caráter de necessidade em Stranger Things, a vontade pelo neon, sintetizadores e loucura plástica que corroboram o alicerce estético da obra, e toda essa necessidade aponta para um fetichismo cuja “verdade em tudo isso é que o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 113).
Ao fim, a última temporada da majestosa obra-prima do Big Data é um produto vazio oriundo de um desejo — subconsciente — pelo passado, é, conforme afirma Fredric Jameson, a exaustão da indústria e “os produtores de cultura não têm mais para onde se voltar senão para o passado: a imitação de estilos mortos, [...] no museu imaginário de uma cultura agora global.” Stranger Things (2025) não é só o desejo pelo passado, mas também o desespero por Stranger Things (2016), tornou-se um simulacro do pastiche — lê-se com redundância porque é isso que a série foi — as luzes neon, os sintetizadores e a loucura plástica são o fio-fino estético para reforçar a incessante narrativa que desde a sua segunda temporada repete-se em elipse: o fim é o começo.
Os núcleos narrativos separados — que se encontram no fim de cada temporada a cabo de revelar algo maior —, as tensões emotivas adolescentes, a ameaça desconhecida que ao fim de cada temporada se mostra cada vez maior — na última considera-se que é continuar a vida a partir de muitos traumas; grandes como o vazio de um mundo negativo — são os retalhados costurados por uma estética pensada como uma operação comercial, como uma necessidade a partir da animosidade do presente. Afinal, o passado é tudo o que temos de concreto — pensando a partir de uma materialidade dialética histórica. Contudo, o fim de Stranger Things é melancólico e diz muito menos sobre o próprio tempo do que diz sobre os anos 80, as crianças cresceram e os adolescentes atingiram a vida adulta e as necessidades seguem.
Logo menos o passado retornará seja na música, no cinema e agora na indústria dos videogames, a verdade é que, na indústria cultural, por mais que seja um consenso que a nostalgia é um fetiche — explorado por essas estéticas para assegurar produtivamente as obras culturais — o que não se compreende é o temor pelo futuro. É possível dizer que a indústria esteja mirando no que já deu certo a fim de mitigar os prejuízos econômicos em uma indústria que cada vez mais ruma ao declínio — e o fim do mundo nunca chega —, mas enquanto esperamos o novo “um luto atroz recomeça.” (Barthes, 2011, p. 136)
Últimos recados
eu tbm
Acho que esse curta-metragem dispensa qualquer exercício crítico. Contudo, é interessante ver pessoas, algumas sem o hábito de consumir filmes com inúmeras violências estetizadas, reagem à subversão das personagens e à fragmentação moral.