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Data de lançamento
8 Março 2024Duração
Da infância humilde em um tradicional bairro de São Paulo à entrada na televisão, Laura Cardoso se reencontra com a atriz Dira Paes e ganha depoimentos de diversos colegas.
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“O segredo é amar o que você faz, com seriedade e dedicação. Aí não tem fim, vai até Deus querer.”
Palavras de quem passou a vida fazendo arte com seriedade e dedicação. Uma das maiores atrizes do no Brasil.
Imortal!
>Maratona Laura Cardoso - Assistido em 28 de Agosto de 2026
Algumas pessoas passam pela história. Outras deixam marcas tão profundas que, depois de partirem, continuam presentes no cotidiano de quem ficou.
Laura Cardoso pertence a essa segunda categoria.
Sua morte, aos 98 anos, encerra uma das carreiras mais extensas e respeitadas da cultura brasileira, mas não encerra a presença de uma artista que acompanhou o país durante quase oito décadas. Laura não apenas participou da evolução da dramaturgia nacional. Ela viveu suas diferentes fases, ajudou a construí-las e acabou se tornando parte delas.
Talvez por isso seja tão difícil falar de sua despedida usando apenas a palavra “atriz”.
Laura foi também memória.
Memória de uma televisão que ainda estava começando. Memória do rádio como grande veículo de entretenimento. Memória dos grandes teleteatros, das novelas que paravam o país, dos personagens que entravam nas casas brasileiras todos os dias.
Quando Laura começou, a televisão ainda nem existia no Brasil.
Aos 15 anos, a jovem Laurinda de Jesus Cardoso já havia decidido que queria viver da interpretação. Nascida no Bixiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses de origem humilde, encontrou no radioteatro o primeiro caminho para realizar esse sonho.
Foi ali que começou uma jornada que parecia não ter fim.
No rádio, conheceu Fernando Balleroni, que seria seu marido e companheiro de vida. Depois, acompanhou a chegada da televisão e se tornou uma das pioneiras de um meio que mudaria para sempre a maneira como os brasileiros consumiam histórias.
Década após década, Laura continuou trabalhando.
Enquanto estilos mudavam, emissoras surgiam e desapareciam, novas gerações de artistas ocupavam o espaço da dramaturgia e a tecnologia transformava a televisão, ela permanecia.
Mais de cem trabalhos.
Mais de sessenta novelas.
Cinema, teatro, séries, teleteatro, dublagem.
Uma carreira tão extensa que seria impossível reduzi-la a uma única personagem.
E talvez essa seja justamente a característica mais fascinante de Laura Cardoso: ela nunca ficou presa a uma imagem.
Podia ser doce ou cruel. Poderosa ou vulnerável. Engraçada ou trágica. Sofrida ou extravagante.
Em *Mulheres de Areia*, foi Isaura. Em *A Viagem*, Dona Guiomar. Em *Irmãos Coragem*, Sinhana. Em *Chocolate com Pimenta*, Vó Carmem. Em *Caminho das Índias*, Lakshmi. Em *Rainha da Sucata*, Iolanda.
E havia ainda tantas outras.
Personagens que, em mãos menos experientes, poderiam simplesmente cumprir sua função dentro de uma história. Com Laura, ganhavam personalidade própria.
Era comum acontecer algo curioso quando ela aparecia.
A cena mudava.
Não necessariamente porque o roteiro exigisse, mas porque Laura tinha presença. Um olhar, uma pausa, uma maneira particular de pronunciar uma frase eram suficientes para transformar uma participação em um momento memorável.
Foi assim também em *Gabriela*, em 2012.
Dona Doroteia poderia ter sido apenas mais uma personagem dentro de uma novela repleta de figuras fortes. Laura, entretanto, encontrou nela uma combinação irresistível de severidade, amargura, preconceito e comicidade.
O público abraçou a personagem.
O famoso “Jesus, Maria, José” virou bordão, e Laura mostrou que experiência não significava acomodação. Aos 90 e poucos anos de idade, ainda era capaz de criar uma personagem que provocava conversa, risos e comentários por todo o país.
Depois veio Caetana, em *O Outro Lado do Paraíso*.
Criada para uma participação inicialmente menor, a personagem cresceu com a resposta do público e acabou permanecendo na trama. Laura transformou a cafetina em uma das figuras mais marcantes da novela.
Em *A Dona do Pedaço*, em 2019, fez sua última novela.
Mas não foi o fim.
Laura ainda apareceria na televisão, participaria de homenagens e continuaria sendo lembrada por uma emissora e por um público que acompanhavam sua história há gerações.
Em 2024, esteve no especial *Tributo*, da Globo. Em 2025, apareceu na vinheta de fim de ano da emissora e participou da inauguração de sua Calçada da Fama nos Estúdios Globo.
Aos 98 anos, Laura ainda era notícia.
Isso diz muito.
Porque longevidade, por si só, não explica uma carreira como a dela. O que explica é a capacidade de permanecer relevante sem deixar de ser autêntica.
Laura não precisava disputar espaço com ninguém.
Seu lugar já estava garantido.
E não apenas pelos prêmios.
Vieram três Prêmios Grande Otelo, cinco APCA, dois Prêmios Shell, dois Troféus Imprensa e a Ordem do Mérito Cultural, recebida em 2006.
Vieram também o cinema e o teatro.
Ela esteve em filmes como *Terra Estrangeira* e participou de montagens teatrais que mostraram que sua arte nunca pertenceu exclusivamente à televisão. No palco, encarou clássicos e textos de diferentes estilos. Na dublagem, sua voz também encontrou um espaço especial na memória popular, inclusive como Betty, de *Os Flintstones*, nos anos 1960.
Era uma artista completa.
Mas existe algo ainda maior do que uma lista de trabalhos.
Existe a afeição.
Laura Cardoso despertava uma espécie de carinho que ultrapassava a admiração profissional. Talvez porque seu rosto estivesse associado a personagens vistos durante décadas. Talvez porque transmitisse uma impressão de familiaridade. Talvez porque tivesse a capacidade rara de parecer, ao mesmo tempo, uma grande estrela e alguém que poderia estar sentada ao nosso lado conversando.
É difícil encontrar muitos artistas com esse tipo de vínculo.
Laura se tornou familiar para o Brasil.
E quando alguém familiar parte, a sensação é diferente.
Não parece apenas que uma celebridade morreu.
Parece que uma parte de uma época desapareceu.
Com Laura, vai embora uma testemunha privilegiada da própria transformação da cultura brasileira. Ela viu o rádio perder espaço para a televisão, viu a dramaturgia se reinventar, acompanhou mudanças sociais e artísticas e trabalhou ao lado de diferentes gerações de profissionais.
Sua carreira é quase uma linha do tempo do entretenimento nacional.
Mas sua maior obra talvez esteja justamente naquilo que não pode ser arquivado.
Nas lembranças.
Na cena que alguém nunca esqueceu.
Na novela que uma família assistia reunida.
Na personagem que virou assunto no dia seguinte.
Na voz reconhecida imediatamente.
Naquela sensação de encontrar Laura na televisão e pensar: “Ela está aqui.”
Agora ela não estará mais fisicamente.
Mas continuará aparecendo.
Toda vez que uma produção antiga for reprisada. Toda vez que alguém descobrir uma personagem que não conhecia. Toda vez que um ator jovem estudar os grandes nomes da dramaturgia brasileira. Toda vez que alguém falar sobre profissionalismo, longevidade e paixão pelo ofício.
Laura estará presente.
Porque algumas carreiras terminam.
Algumas obras permanecem.
E existem artistas que conseguem se transformar na própria memória de um país.
Laura Cardoso conseguiu.
A garota que começou no rádio aos 15 anos terminou a vida como uma das maiores referências da interpretação brasileira.
Não precisou de um único papel para ser lembrada.
Precisou de uma vida inteira.
Uma vida dedicada à arte, aos personagens e ao público.
Por quase 80 anos, Laura Cardoso entrou em nossas histórias.
Agora, entra definitivamente na história do Brasil.
E talvez a melhor despedida seja justamente aquela que resume tudo o que ela foi:
uma atriz que nunca deixou de acreditar no poder de interpretar.
Uma artista que nunca pareceu cansada de criar.
E uma mulher cujo trabalho fez milhões de brasileiros sentirem que, de alguma maneira, ela também fazia parte de suas próprias vidas.
Laura se foi.
A atriz, não.
A atriz continuará em cena enquanto houver memória.
E memória, quando é verdadeira, não morre.
OBS: Em entrevista à revista Quem, em 2019, a atriz falou sobre a finitude. “É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é. Só não diz a hora que vem”, afirmou.
E declarou: “Amo a vida, agradeço a Deus por ter chegado a essa idade, mas a gente um dia vai embora”.
Emocionante. Laura Cardoso tem uma força no olhar. É incrível como nas pequenas cenas que mostraram vê-se as personagens, não a atriz. Incrível, incrível. E a emoção da Dira Paes passou para cá. Nossa, foi inspirador.