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Sinopse
Baseado em obra de Dostoiévski. Através de flashbacks, o filme mostra a história de uma mulher frustrada por não conseguir se adaptar ao comportamento e caráter do marido, o que a leva ao suicídio.
Lembro-me de certa vez ter lido um comentário negativo sobre You Were Never Really Here vindo de alguém que ficou muito descontente com suas cenas de tentativa de suicídio. O argumento era de que o filme romantizava o ato em questão e fazia isso devido a ausência da violência, recorrendo à elipses. O curioso do pensamento era como a autora usava de contraponto Sam Peckinpah, preconizando a ética de suas imagens por abrigarem uma violência visceral, pra ela, provavelmente, o horror em sua plenitude.
Disso, dá pra evidenciar uma falácia óbvia que o filme de Bresson consegue confrontar muito bem: a generalização involuntária de que toda elipse desemboca numa higienização. Realmente, há muitos exemplos monstruosos, até recentes, que confirmam parte da afirmação, porém, os grandes artistas sabem que uma elipse de pés mortos em Bresson é o antípoda dos pés mortos de um Jojo Rabbit.
Toda uma reflexão que me foi rememorada graças à particularidade da encenação bressoniana conseguir mostrar, especialmente aqui, a ascese como excelente par da tragédia. Novamente, não através da romantização, mas, em seu lugar, a crueza das ações dramáticas.
Particularidade dramatúrgica já mui ouvida por qualquer um que conheça, mesmo que pouco, o autor, mas que deve ter sua reflexão redobrada neste seu primeiro filme colorido, visto que (em mais de uma cena) o questionamento, ou ao menos a elucidação, do tal método idiossincrático, é invocado através dos contrastes das famosas atuações robóticas em torno aos intertextos da dramaturgia clássica, que se iniciam numa ida do casal ao cinema e percrustam mais fundo até a longa cena da peça de Shakespeare, esta última, com conclusão muito interessante, que justifica o devotamento da câmera sobre ela. É quando a mulher que nomeia a obra chega em casa descontente, pegando seu livro da peça, constatando que suprimiram uma passagem, aparentemente, essencial, a que Hamlet aconselha o ator, "sê moderado nos gestos, por que até mesmo na torrente e na tempestade, direi melhor, no turbilhão das paixões, você deve sempre manter a medida, e adquirir inclusive uma certa doçura".
Daí, desta "certa doçura", que está o trunfo de se lidar com essa história que já começa pela fatalidade, a objetivação incisiva do drama que culmina numa dose de desolação perante um relacionamento destinado a chafurdar. O que ocorre muito antes de um impactante plano final onde, simplesmente, se fecha um caixão. Um salto de cenas do apelo do protagonista ao pedido de casamento para o fim da cerimônia em si é um grande exemplo, é uma elipse que comumente seria usada para fins cômicos, mas, aqui, não é nada mais que o discorrer da história através deste efeito super redutor. Um afastamento radical do drama que evoca o paradoxo ao atrai-lo de volta.
Assim, cria-se aos poucos um discurso determinista muito coeso sobre o relacionamento, o casamento e o amor em si. Pode-se até argumentar que o estopim do declínio do casal se dá por uma diferença de classes ou por uma natural opressão masculina, mas, ao meu ver, tais ideias nunca sairão do campo das sugestões. Há, logo de início, um estranho flerte ou, sugestão de flerte, no cinema, sem explicação, em seguida, uma revolta com a condição de casal, expressa num inesperado abandono do buquê de flores e, até mesmo, um flagrante de traição onde, simplesmente, o marido tira sua mulher do outro e vai embora. É uma recusa de porquês que resulta numa pura presenciação da derrocada, não há o que se falar sobre as atitudes, só é possivel contemplar o declínio.
A narração expressa pelo marido é grande agente do tal determinismo em torno da história. É uma constante de explicações onde, obviamente, só se elucida a visão de um lado, só que isso não traz ironia ou absurdo numa espécie de jogo em que "ouvimos a mentira e vemos a verdade", o que acontece é que assistimos o vazio das motivações e escutamos a tentativa de preenche-lo. Aí que surge esse sentimento de irreversibilidade, através de toda uma condição de um relacionamento incomunicável que nunca deu chance do contrário, sendo a mise en scène reducionista chave mestra do processo, por, como já dito, nunca dar chance de aprofundar os porquês devido sua insistente objetivação das ações.
Por fim, é um retrato melancólico e determinante sobre relacionamento(s) que não quer se expressar como um épico poético, tal qual um Bergman iria esmiuçar com grandiloquência poucos anos depois. É muito mais que isso, é um haikai acachapante. Trágico e sábio.
Bem mediano.
Lembro-me de certa vez ter lido um comentário negativo sobre You Were Never Really Here vindo de alguém que ficou muito descontente com suas cenas de tentativa de suicídio. O argumento era de que o filme romantizava o ato em questão e fazia isso devido a ausência da violência, recorrendo à elipses. O curioso do pensamento era como a autora usava de contraponto Sam Peckinpah, preconizando a ética de suas imagens por abrigarem uma violência visceral, pra ela, provavelmente, o horror em sua plenitude.
Disso, dá pra evidenciar uma falácia óbvia que o filme de Bresson consegue confrontar muito bem: a generalização involuntária de que toda elipse desemboca numa higienização. Realmente, há muitos exemplos monstruosos, até recentes, que confirmam parte da afirmação, porém, os grandes artistas sabem que uma elipse de pés mortos em Bresson é o antípoda dos pés mortos de um Jojo Rabbit.
Toda uma reflexão que me foi rememorada graças à particularidade da encenação bressoniana conseguir mostrar, especialmente aqui, a ascese como excelente par da tragédia. Novamente, não através da romantização, mas, em seu lugar, a crueza das ações dramáticas.
Particularidade dramatúrgica já mui ouvida por qualquer um que conheça, mesmo que pouco, o autor, mas que deve ter sua reflexão redobrada neste seu primeiro filme colorido, visto que (em mais de uma cena) o questionamento, ou ao menos a elucidação, do tal método idiossincrático, é invocado através dos contrastes das famosas atuações robóticas em torno aos intertextos da dramaturgia clássica, que se iniciam numa ida do casal ao cinema e percrustam mais fundo até a longa cena da peça de Shakespeare, esta última, com conclusão muito interessante, que justifica o devotamento da câmera sobre ela. É quando a mulher que nomeia a obra chega em casa descontente, pegando seu livro da peça, constatando que suprimiram uma passagem, aparentemente, essencial, a que Hamlet aconselha o ator, "sê moderado nos gestos, por que até mesmo na torrente e na tempestade, direi melhor, no turbilhão das paixões, você deve sempre manter a medida, e adquirir inclusive uma certa doçura".
Daí, desta "certa doçura", que está o trunfo de se lidar com essa história que já começa pela fatalidade, a objetivação incisiva do drama que culmina numa dose de desolação perante um relacionamento destinado a chafurdar. O que ocorre muito antes de um impactante plano final onde, simplesmente, se fecha um caixão. Um salto de cenas do apelo do protagonista ao pedido de casamento para o fim da cerimônia em si é um grande exemplo, é uma elipse que comumente seria usada para fins cômicos, mas, aqui, não é nada mais que o discorrer da história através deste efeito super redutor. Um afastamento radical do drama que evoca o paradoxo ao atrai-lo de volta.
Assim, cria-se aos poucos um discurso determinista muito coeso sobre o relacionamento, o casamento e o amor em si. Pode-se até argumentar que o estopim do declínio do casal se dá por uma diferença de classes ou por uma natural opressão masculina, mas, ao meu ver, tais ideias nunca sairão do campo das sugestões. Há, logo de início, um estranho flerte ou, sugestão de flerte, no cinema, sem explicação, em seguida, uma revolta com a condição de casal, expressa num inesperado abandono do buquê de flores e, até mesmo, um flagrante de traição onde, simplesmente, o marido tira sua mulher do outro e vai embora. É uma recusa de porquês que resulta numa pura presenciação da derrocada, não há o que se falar sobre as atitudes, só é possivel contemplar o declínio.
A narração expressa pelo marido é grande agente do tal determinismo em torno da história. É uma constante de explicações onde, obviamente, só se elucida a visão de um lado, só que isso não traz ironia ou absurdo numa espécie de jogo em que "ouvimos a mentira e vemos a verdade", o que acontece é que assistimos o vazio das motivações e escutamos a tentativa de preenche-lo. Aí que surge esse sentimento de irreversibilidade, através de toda uma condição de um relacionamento incomunicável que nunca deu chance do contrário, sendo a mise en scène reducionista chave mestra do processo, por, como já dito, nunca dar chance de aprofundar os porquês devido sua insistente objetivação das ações.
Por fim, é um retrato melancólico e determinante sobre relacionamento(s) que não quer se expressar como um épico poético, tal qual um Bergman iria esmiuçar com grandiloquência poucos anos depois. É muito mais que isso, é um haikai acachapante. Trágico e sábio.
Algum site para assistir ao filme??
Dominique sendo maravilhosa com tanta frieza.
"Eu estava certo do seu amor.
Ela me amava.
Ou desejava me amar?
Ou desejava amar."