O filme é sem pé nem cabeça. E esse é exatamente o seu objetivo. Busca refletir sobre o sentido da vida - ou a falta dele, sobre o absurdo que a atravessa e sobre a a tarefa humana de viver apesar do desconhecido, do absurdo e da falta de lógica. É uma reflexão difícil de apreender, mas acho que fica bem claro quando o ator que interpreta Augie sai de cena e conversa com Schubert sobre não estar entendendo lhufas da peça, ao que este lhe responde: "Não tente entender. Apenas continue contando a história". É como se fosse Deus dizendo: você ainda não sabe o seu propósito, o seu caminho, mas até agora tem interpretado bem o seu papel. Apenas continue até o destino fina. Tem franca influência existencialista Camusiana. E de bônus ainda reflete um pouco sobre o cinema: simplesmente não precisa fazer sentido, desde que seja divertido.
Apesar disso tudo, eu diria que a profundidade do tema não combinou nem com a abordagem nem com a estética adotadas. E ainda é uma experiência intelectualmente maçante, não estimulante como acredito ter sido a intenção de Wes.
O veredito é: muito pretensioso, intelectualmente punitivo e esteticamente encantador.
Esse filme me fez relembrar o que são atuações excelentes; não meramente satisfatórias e convincentes, mas excelentes. É surpreendente como DiCaprio e Winslet conseguem construir uma química catastrófica tão verossímil; e é impressionante como o roteiro consegue ser tão bem estruturado a ponto de conseguir retratar a degeneração de um relacionamento apaixonado em pura frustração, mediocridade, caos, egoísmo e ódio.
É extremamente interessante notar como são profundos os personagens principais, cada um à sua maneira. DiCaprio, por um lado, um homem feito que luta para tentar assumir suas responsabilidades e se desvincular de uma vida de sonhos, da fantasiosa "busca por propósito", imposta por sua esposa frustrada com a própria carreira. De outro lado, temos a personagem de Winslet, uma mulher imatura, incapaz de enxergar a nobreza de seu papel como mãe e esposa, por estar muito ocupada pensando no único insucesso que teve em sua vida: sua carreira. Poder-se-ia até argumentar que, movida por pura inveja, por não aguentar mais ver seu marido satisfeito com a vida absolutamente normal que levavam, enquanto ela chafurdava em miséria, April decidiu tornar a vida dos dois um inferno.
Outro ponto interessante de se notar é como essa temática, da dona de casa dos subúrbios dos anos 50 que tende ao tédio, que, por sua vez, vai degenerar em loucura ou imprudência, repete-se através de diferentes tipos de produções de diferentes épocas. Vemos isso neste filme, na série "Amor e Morte", em que Candy resolve quebrar o ritmo de sua vida monótona tendo um caso deliberado com um sujeito impensável; em "Mad Men" e em muitas outras obras. Acredito que mais do que nos fazer refletir sobre papeis sociais, na verdade, a abordagem desses temas deveria nos servir à reflexão de qual a hierarquia de prioridades e valores que temos e como encarar o tédio de forma menos devastadora e mais produtiva em nossas vidas.
Um inesperado excelente drama familiar sobre como o adoecimento, tanto físico como psíquico, às vezes vem como uma oportunidade para transformarmos dinâmicas familiares problemáticas e prejudiciais e quebrarmos ciclos geracionais.
Filme excessivamente didático, porém consegue ser divertido e, certamente, é muito agradável esteticamente. Não achei promotor de uma agenda específica; antes, achei que tenta ir pelo caminho do meio, criticando os extremos e mostrando como tanto o mundo do patriarcado, quanto o do feminismo, são imperfeitos e quebrados. Inclusive, vendo agora, me parece que a histeria coletiva não está no teor do filme e, sim, na visão contaminada de quem vê.
Além das críticas às ideologias mais conflitantes do momento, também existe uma clara abordagem do dilema existencial mais profundo do ser humano: o medo da morte e, com ele, o da falta de propósito, que aniquila o significado da existência. Vale lembrar também das várias críticas ao ideal burguês de feminilidade e de maternidade, que tenta encarcerar a mulher em estereótipos e cercear suas ambições - que não estão, necessariamente, associadas a sucesso na carreira ou no exercício exclusivo da função de mãe.
Uma das cenas que mais me chamou a atenção, e que selou o entendimento verdadeiro da proposta do filme, é quando Ken busca emprego no mundo real. É interessantíssimo observar como um filme que, em tese, crê criticamente na existência do "patriarcado", retrata um Ken tão rechaçado por sua falta de habilidades, certificações e competências "No Mundo Real". Ora, se houvesse a defesa desonesta de uma agenda, aqui retratariam Ken conseguindo empregos à revelia de sua inépcia, não?
Não sei, não sei, apenas acho que a histeria coletiva que se lançou sobre o filme, na forma de uma interpretação monocromática, é sintomática de duas doenças do mundo contemporâneo: o extremismo e a ignorância, que adjaz à falta de leitura, de bagagem cultural e de percepção.
Eu, particularmente, achei uma temporada de Oscar fabulosa, em que a indicação de dois filmes, ˜Barbie" e "American Fiction" começa a traduzir o descontentamento, o desconforto e a estupidez do mundo em que estamos vivendo, sufocado pelo politicamente correto.
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Asteroid City
3.1 236 Assista AgoraO filme é sem pé nem cabeça. E esse é exatamente o seu objetivo. Busca refletir sobre o sentido da vida - ou a falta dele, sobre o absurdo que a atravessa e sobre a a tarefa humana de viver apesar do desconhecido, do absurdo e da falta de lógica. É uma reflexão difícil de apreender, mas acho que fica bem claro quando o ator que interpreta Augie sai de cena e conversa com Schubert sobre não estar entendendo lhufas da peça, ao que este lhe responde: "Não tente entender. Apenas continue contando a história". É como se fosse Deus dizendo: você ainda não sabe o seu propósito, o seu caminho, mas até agora tem interpretado bem o seu papel. Apenas continue até o destino fina. Tem franca influência existencialista Camusiana. E de bônus ainda reflete um pouco sobre o cinema: simplesmente não precisa fazer sentido, desde que seja divertido.
Apesar disso tudo, eu diria que a profundidade do tema não combinou nem com a abordagem nem com a estética adotadas. E ainda é uma experiência intelectualmente maçante, não estimulante como acredito ter sido a intenção de Wes.
O veredito é: muito pretensioso, intelectualmente punitivo e esteticamente encantador.
Foi Apenas um Sonho
3.6 1,3K Assista AgoraEsse filme me fez relembrar o que são atuações excelentes; não meramente satisfatórias e convincentes, mas excelentes. É surpreendente como DiCaprio e Winslet conseguem construir uma química catastrófica tão verossímil; e é impressionante como o roteiro consegue ser tão bem estruturado a ponto de conseguir retratar a degeneração de um relacionamento apaixonado em pura frustração, mediocridade, caos, egoísmo e ódio.
É extremamente interessante notar como são profundos os personagens principais, cada um à sua maneira. DiCaprio, por um lado, um homem feito que luta para tentar assumir suas responsabilidades e se desvincular de uma vida de sonhos, da fantasiosa "busca por propósito", imposta por sua esposa frustrada com a própria carreira. De outro lado, temos a personagem de Winslet, uma mulher imatura, incapaz de enxergar a nobreza de seu papel como mãe e esposa, por estar muito ocupada pensando no único insucesso que teve em sua vida: sua carreira. Poder-se-ia até argumentar que, movida por pura inveja, por não aguentar mais ver seu marido satisfeito com a vida absolutamente normal que levavam, enquanto ela chafurdava em miséria, April decidiu tornar a vida dos dois um inferno.
Outro ponto interessante de se notar é como essa temática, da dona de casa dos subúrbios dos anos 50 que tende ao tédio, que, por sua vez, vai degenerar em loucura ou imprudência, repete-se através de diferentes tipos de produções de diferentes épocas. Vemos isso neste filme, na série "Amor e Morte", em que Candy resolve quebrar o ritmo de sua vida monótona tendo um caso deliberado com um sujeito impensável; em "Mad Men" e em muitas outras obras. Acredito que mais do que nos fazer refletir sobre papeis sociais, na verdade, a abordagem desses temas deveria nos servir à reflexão de qual a hierarquia de prioridades e valores que temos e como encarar o tédio de forma menos devastadora e mais produtiva em nossas vidas.
Garra de Ferro
3.9 203Um inesperado excelente drama familiar sobre como o adoecimento, tanto físico como psíquico, às vezes vem como uma oportunidade para transformarmos dinâmicas familiares problemáticas e prejudiciais e quebrarmos ciclos geracionais.
Barbie
3.8 1,7K Assista AgoraFilme excessivamente didático, porém consegue ser divertido e, certamente, é muito agradável esteticamente. Não achei promotor de uma agenda específica; antes, achei que tenta ir pelo caminho do meio, criticando os extremos e mostrando como tanto o mundo do patriarcado, quanto o do feminismo, são imperfeitos e quebrados. Inclusive, vendo agora, me parece que a histeria coletiva não está no teor do filme e, sim, na visão contaminada de quem vê.
Além das críticas às ideologias mais conflitantes do momento, também existe uma clara abordagem do dilema existencial mais profundo do ser humano: o medo da morte e, com ele, o da falta de propósito, que aniquila o significado da existência. Vale lembrar também das várias críticas ao ideal burguês de feminilidade e de maternidade, que tenta encarcerar a mulher em estereótipos e cercear suas ambições - que não estão, necessariamente, associadas a sucesso na carreira ou no exercício exclusivo da função de mãe.
Uma das cenas que mais me chamou a atenção, e que selou o entendimento verdadeiro da proposta do filme, é quando Ken busca emprego no mundo real. É interessantíssimo observar como um filme que, em tese, crê criticamente na existência do "patriarcado", retrata um Ken tão rechaçado por sua falta de habilidades, certificações e competências "No Mundo Real". Ora, se houvesse a defesa desonesta de uma agenda, aqui retratariam Ken conseguindo empregos à revelia de sua inépcia, não?
Não sei, não sei, apenas acho que a histeria coletiva que se lançou sobre o filme, na forma de uma interpretação monocromática, é sintomática de duas doenças do mundo contemporâneo: o extremismo e a ignorância, que adjaz à falta de leitura, de bagagem cultural e de percepção.
Eu, particularmente, achei uma temporada de Oscar fabulosa, em que a indicação de dois filmes, ˜Barbie" e "American Fiction" começa a traduzir o descontentamento, o desconforto e a estupidez do mundo em que estamos vivendo, sufocado pelo politicamente correto.