Luc Besson é o tipo de cineasta ame ou odeie. Mesmo seu melhor filme, "O quinto elemento", de 1997, gerou controvérsia. De todo modo, em "O quinto elemento" havia uma questão e eu, confesso, gosto muito do filme, não só pelos figurinos escandalosos assinados por Jean-Paul Gaultier, mas porque há lá uma história original, envolta num roteiro bem acertado. Tudo que não podemos dizer de seu último filme, "Lucy", em cartaz nos cinemas. Pretensioso, "Lucy" quer ser o novo "2001: uma odisseia no espaço", mas não passa mesmo de uma ficção científica cheia de efeitos especiais, com Scarlett Johansson vivendo uma "Nikita" do século XXI e posando mais uma vez de mulher fatal. Pirotecnia demais, filosofia de menos embaladas em um argumento pra lá de estapafúrdio e o resultado só poderia ser: just fun! Se o objetivo for se divertir por 90 minutos vá ver o filme. Nesse caso, só não esqueça da pipoca e da coca-cola.
Como nunca antes na história do cinema pensaram um papel de vampira para Tilda Swinton? "Amantes Eternos", novo filme de Jim Jarmusch, confirma o já conhecido talento da atriz, ao mesmo tempo que cria, da forma mais sensorial possível, sequências de imagens lindas, como a de abertura, em que Eve (Tilda) e Adam (o gatíssimo Tom Hiddleston), despertam para mais uma noite de tédio, descrença e depressão, algo tão devastador quanto a fantasmagórica Detroit, que serve de casa a eles. A única coisa que parece mover os personagens é o amor! Por isso, "Amantes Eternos" é um filme romântico, mas não o romantismo açucarado, possessivo e sexual. É romântico à medida que o que os une está para além - olha que contradição - da carne. O erotismo ergue-se e toma conta no momento em que Eve e Adam estão ligados por aquilo que acreditam em comum: a música, a literatura, a arte, a ciência. E, claro, o desprezo que ambos sentem pela humanidade que, para eles, que já atravessaram os séculos e viram muito, caminha rumo à autodestruição. Enfim, um filme lindo que, para quem ama histórias de vampiro como eu, é imperdível.
O Belas Artes voltou e o último filme do Alain Resnais antes do diretor morrer é simplesmente divertidíssimo. Quem precisa de Julia Roberts comendo, amando e rezando quando se tem os personagens de Resnais em "Amar, beber, cantar"? O mise en scène, bem como toda cenografia emprestados do teatro caíram como uma luva à história que o diretor quis contar. Aliás, acho que a última investida de Resnais no cinema foi sua grande homenagem ao teatro.
Todo mundo conhece o cinema indiano pelo excesso de música, excesso de dança, excesso de cor, enfim, tudo bem ao modo da extravagância bollywoodiana mesmo! Porém, de vez em quando, nos deparamos com obras bem ao contrário desse cenário de melodrama-musical, com o qual o ocidente aprendeu a reconhecer os filmes vindos de lá. "Lunchbox" é um exemplo disso, uma prova de que, talvez, esteja surgindo um cinema independente na Índia disposto e encarar novos temas e explorar outros caminhos estéticos. O filme, dirigido pelo estreante Ritesh Batra e estrelado pelo famoso ator indiano Irrfan Khan (de "Quem quer ser um milionário e Pi), é muito bem feito, sensível ao extremo e altamente sincero ao envolver seus personagens naquilo que, para mim, é o mote central da história: a busca de afeto: seja o da esposa que já não vê no marido o companheiro de outrora;
seja no aspirante a um cargo na empresa que vê em seu companheiro de trabalho a única possibilidade de amizade possível; seja no protagonista que, viúvo e prestes a se aposentar, não acredita ser possível se apaixonar novamente.
Enfim, um filme muito bonito, que foge dos clichês de Bollywood, e oferece a quem assiste a chance de, juntos com seus personagens, pensar que "às vezes, o trem errado pode levar para o lugar certo".
"O homem duplicado" é o tipo de filme "ame ou odeie", por isso não adianta querer ver duas vezes (como várias críticas que li sugerem fazer) para tentar entender o filme ou pescar aquela cena que tenha passado despercebida. Vai ser trabalho em vão querer ver duas, três vezes para tentar achar, no fim, algo que dê ao filme mais sentido. O filme é caótico mesmo, porque caótica é a vida do(s) personagem(ns) interpretado(s) honestíssimamente pelo Jake Gyllenhaal, cuja vida, já tão desinteressante e repetitiva, já tão massacrada pela rotina e frustração, não encontra saída senão numa busca por si mesmo - e como toda busca de si, sempre desparatada, desordenada, desenfreada e, em grande medida, sem sentido aparente. Por isso, penso que o filme faz jus ao romance de mesmo título de Saramago, que serve de base ao seu roteiro, já que o fundamental do livro está lá: como cultivar certa singularidade num mundo cada vez mais homogeneizado? Tão homogeneizado é o mundo quanto é a fotografia amarelada que faz de Toronto uma metrópole sem brilho, seca e hostil à toda forma vida que se quer inscrita na diferença! Filmar os livros do Saramago não é tarefa simples, pois são obras extremamente alegóricas, o dificulta posicioná-las num contexto de realidade imediata. Ao fugir disso, o diretor acertou! Inseriu novas metáforas, como as aranhas gigantes, ao modo de Louise Bourgeois, e provocou ainda mais confusão na cabeça de quem adora querer saber como tudo acaba. E o final... Bom, o final é um caso à parte! A propósito: eu tô no time dos que amaram!
Se em 2013 o cinema nacional nos deu "Tatuagem", o melhor filme do ano passado, "Praia do Futuro", de Karim Aïnouz, tem tudo para ser o melhor filme brasileiro de 2014. Que coisa mais linda!!!! Que potência! É sobre quando a coragem de abandonar a si mesmo se faz tão urgente e irrevogável que só largando tudo para trás para poder reinventar-se na vida-livre! Um experimento evidentemente doloroso, que machuca os outros e fere a própria carne, mas que, no fim, se torna a única saída para a autotransformação!!! Num belo jogo de opostos entre o calor de Fortaleza e o frio de Berlim é que se dá a trajetória desse herói das águas, cuja vida ganha uma chance no momento mesmo em que, solto no mundo, ele encontra seu lugar! É de ver suspirando!!!
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Lucy
3.3 3,4K Assista AgoraLuc Besson é o tipo de cineasta ame ou odeie. Mesmo seu melhor filme, "O quinto elemento", de 1997, gerou controvérsia. De todo modo, em "O quinto elemento" havia uma questão e eu, confesso, gosto muito do filme, não só pelos figurinos escandalosos assinados por Jean-Paul Gaultier, mas porque há lá uma história original, envolta num roteiro bem acertado. Tudo que não podemos dizer de seu último filme, "Lucy", em cartaz nos cinemas. Pretensioso, "Lucy" quer ser o novo "2001: uma odisseia no espaço", mas não passa mesmo de uma ficção científica cheia de efeitos especiais, com Scarlett Johansson vivendo uma "Nikita" do século XXI e posando mais uma vez de mulher fatal. Pirotecnia demais, filosofia de menos embaladas em um argumento pra lá de estapafúrdio e o resultado só poderia ser: just fun! Se o objetivo for se divertir por 90 minutos vá ver o filme. Nesse caso, só não esqueça da pipoca e da coca-cola.
Amantes Eternos
3.7 790 Assista AgoraComo nunca antes na história do cinema pensaram um papel de vampira para Tilda Swinton? "Amantes Eternos", novo filme de Jim Jarmusch, confirma o já conhecido talento da atriz, ao mesmo tempo que cria, da forma mais sensorial possível, sequências de imagens lindas, como a de abertura, em que Eve (Tilda) e Adam (o gatíssimo Tom Hiddleston), despertam para mais uma noite de tédio, descrença e depressão, algo tão devastador quanto a fantasmagórica Detroit, que serve de casa a eles. A única coisa que parece mover os personagens é o amor! Por isso, "Amantes Eternos" é um filme romântico, mas não o romantismo açucarado, possessivo e sexual. É romântico à medida que o que os une está para além - olha que contradição - da carne. O erotismo ergue-se e toma conta no momento em que Eve e Adam estão ligados por aquilo que acreditam em comum: a música, a literatura, a arte, a ciência. E, claro, o desprezo que ambos sentem pela humanidade que, para eles, que já atravessaram os séculos e viram muito, caminha rumo à autodestruição. Enfim, um filme lindo que, para quem ama histórias de vampiro como eu, é imperdível.
Amar, Beber e Cantar
3.0 42 Assista AgoraO Belas Artes voltou e o último filme do Alain Resnais antes do diretor morrer é simplesmente divertidíssimo. Quem precisa de Julia Roberts comendo, amando e rezando quando se tem os personagens de Resnais em "Amar, beber, cantar"? O mise en scène, bem como toda cenografia emprestados do teatro caíram como uma luva à história que o diretor quis contar. Aliás, acho que a última investida de Resnais no cinema foi sua grande homenagem ao teatro.
Lunchbox
4.1 149 Assista AgoraTodo mundo conhece o cinema indiano pelo excesso de música, excesso de dança, excesso de cor, enfim, tudo bem ao modo da extravagância bollywoodiana mesmo! Porém, de vez em quando, nos deparamos com obras bem ao contrário desse cenário de melodrama-musical, com o qual o ocidente aprendeu a reconhecer os filmes vindos de lá. "Lunchbox" é um exemplo disso, uma prova de que, talvez, esteja surgindo um cinema independente na Índia disposto e encarar novos temas e explorar outros caminhos estéticos. O filme, dirigido pelo estreante Ritesh Batra e estrelado pelo famoso ator indiano Irrfan Khan (de "Quem quer ser um milionário e Pi), é muito bem feito, sensível ao extremo e altamente sincero ao envolver seus personagens naquilo que, para mim, é o mote central da história: a busca de afeto: seja o da esposa que já não vê no marido o companheiro de outrora;
seja no aspirante a um cargo na empresa que vê em seu companheiro de trabalho a única possibilidade de amizade possível; seja no protagonista que, viúvo e prestes a se aposentar, não acredita ser possível se apaixonar novamente.
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O Homem Duplicado
3.7 1,8K Assista Agora"O homem duplicado" é o tipo de filme "ame ou odeie", por isso não adianta querer ver duas vezes (como várias críticas que li sugerem fazer) para tentar entender o filme ou pescar aquela cena que tenha passado despercebida. Vai ser trabalho em vão querer ver duas, três vezes para tentar achar, no fim, algo que dê ao filme mais sentido. O filme é caótico mesmo, porque caótica é a vida do(s) personagem(ns) interpretado(s) honestíssimamente pelo Jake Gyllenhaal, cuja vida, já tão desinteressante e repetitiva, já tão massacrada pela rotina e frustração, não encontra saída senão numa busca por si mesmo - e como toda busca de si, sempre desparatada, desordenada, desenfreada e, em grande medida, sem sentido aparente. Por isso, penso que o filme faz jus ao romance de mesmo título de Saramago, que serve de base ao seu roteiro, já que o fundamental do livro está lá: como cultivar certa singularidade num mundo cada vez mais homogeneizado? Tão homogeneizado é o mundo quanto é a fotografia amarelada que faz de Toronto uma metrópole sem brilho, seca e hostil à toda forma vida que se quer inscrita na diferença! Filmar os livros do Saramago não é tarefa simples, pois são obras extremamente alegóricas, o dificulta posicioná-las num contexto de realidade imediata. Ao fugir disso, o diretor acertou! Inseriu novas metáforas, como as aranhas gigantes, ao modo de Louise Bourgeois, e provocou ainda mais confusão na cabeça de quem adora querer saber como tudo acaba. E o final... Bom, o final é um caso à parte!
A propósito: eu tô no time dos que amaram!
Praia do Futuro
3.4 937 Assista AgoraSe em 2013 o cinema nacional nos deu "Tatuagem", o melhor filme do ano passado, "Praia do Futuro", de Karim Aïnouz, tem tudo para ser o melhor filme brasileiro de 2014. Que coisa mais linda!!!! Que potência! É sobre quando a coragem de abandonar a si mesmo se faz tão urgente e irrevogável que só largando tudo para trás para poder reinventar-se na vida-livre! Um experimento evidentemente doloroso, que machuca os outros e fere a própria carne, mas que, no fim, se torna a única saída para a autotransformação!!! Num belo jogo de opostos entre o calor de Fortaleza e o frio de Berlim é que se dá a trajetória desse herói das águas, cuja vida ganha uma chance no momento mesmo em que, solto no mundo, ele encontra seu lugar! É de ver suspirando!!!