Dei 3 estrelas porque o acontecimento retratado é tão fascinante quanto aterrorizante — é difícil até conceber que apenas algumas gramas de um elemento radioativo sejam capazes de causar tamanho estrago. Ainda assim, tecnicamente, a série deixa a desejar. Alguns problemas já aparecem no primeiro episódio, como reflexos na lente da câmera que quebram completamente a imersão, lembrando gravações feitas com celular. Muitas das cenas com drone seguem essa mesma linha: parecem deslocadas e pouco contribuem visualmente, como na sequência em que agentes da CNEN interceptam um caminhão com material radioativo na estrada. O roteiro também apresenta fragilidades. Além de não mencionar os nomes reais das pessoas envolvidas na tragédia, dramatiza excessivamente diversas situações, o que pode ser interpretado até como um desvirtuamento do sofrimento das vítimas em um contexto extremamente delicado. A cena em que o pai da menina coloca uma música de Elza Soares como forma de incentivo enquanto ela falece, por exemplo, beira o desrespeito. Outro ponto fraco é a trama paralela do protagonista, Márcio, que pouco acrescenta e acaba funcionando mais como distração do que como complemento narrativo. Esse tipo de recurso, aliás, é comum em produções brasileiras baseadas em fatos reais, com a inclusão de personagens fictícios que acabam recebendo mais destaque do que as figuras reais. Por outro lado, a parte sonora é excelente, especialmente o uso do Dolby Atmos, que constrói bem as ambiências com sons de pássaros, insetos, helicópteros e trechos da trilha instrumental. No fim, apesar dos problemas técnicos e narrativos, a série ainda vale a pena pelo contexto histórico que retrata, conseguindo transmitir, ao menos em parte, a dimensão dos acontecimentos.
Para mim, é a melhor temporada de Twin Peaks. As primeiras temporadas carregaram o fardo de serem disruptivas em uma época em que a TV e seus executivos ainda eram extremamente conservadores. Vimos que a pressão oriunda da emissora foi responsável por minar a estrutura narrativa pensada por David Lynch, inflando a série com tramas inúteis e desinteressantes e forçando a resolução do principal mistério antes da hora.A terceira temporada está completamente livre dessas amarras. Os frutos da inovação do início dos anos 90 foram colhidos 25 anos depois da última interação original, e nesse meio-tempo houve grande evolução em termos de investimento e liberdade criativa dentro dos shows de TV. Nesse sentido, é até muito prazeroso ver como os três núcleos principais dessa temporada funcionam. Twin Peaks mantém todas as características das temporadas anteriores, com um ar de inocência e mistério. Las Vegas remete à obra de Vince Gilligan, da paleta de cores aos personagens, com grande foco em situações cotidianas, e sua falsa lentidão narrativa, espelhando o que vivemos no mundo real. Já Buckhorn parece uma homenagem ao trabalho de Quentin Tarantino. Praticamente todos os atores da série principal retornaram, mesmo alguns debilitados por doenças avançadas, e isso demonstra o amor que sempre guardaram por essa história. Quem espera conclusões definitivas pode se frustrar, mas esse é o cerne do trabalho de Lynch e da própria série: acabar com o mistério é encerrar a capacidade do espectador de fazer suas próprias análises e vislumbres do que realmente aconteceu e do que vem pela frente.
Atuação monstruosa de Jeremiah Birkett. O seu personagem, o Tap Dance Man é uma das figuras mais perturbadoras e pitorescas que já vi. A forma em que ele "devora" uma cerveja em um dos episódios é espantosa.
Uma curiosidade é que logo antes de ser "morto" por Henry, ele faz a pose da ilustração mais conhecida de Jim Crow, que simboliza toda uma era de segregação racial nos EUA. E logo após morrer, Henry descobre que essa assombração era um homem branco fazendo black face, tal qual a pessoa que popularizou o Jim Crow ao interpretá-lo em suas apresentações.
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Emergência Radioativa
3.9 198 Assista AgoraDei 3 estrelas porque o acontecimento retratado é tão fascinante quanto aterrorizante — é difícil até conceber que apenas algumas gramas de um elemento radioativo sejam capazes de causar tamanho estrago. Ainda assim, tecnicamente, a série deixa a desejar.
Alguns problemas já aparecem no primeiro episódio, como reflexos na lente da câmera que quebram completamente a imersão, lembrando gravações feitas com celular. Muitas das cenas com drone seguem essa mesma linha: parecem deslocadas e pouco contribuem visualmente, como na sequência em que agentes da CNEN interceptam um caminhão com material radioativo na estrada.
O roteiro também apresenta fragilidades. Além de não mencionar os nomes reais das pessoas envolvidas na tragédia, dramatiza excessivamente diversas situações, o que pode ser interpretado até como um desvirtuamento do sofrimento das vítimas em um contexto extremamente delicado. A cena em que o pai da menina coloca uma música de Elza Soares como forma de incentivo enquanto ela falece, por exemplo, beira o desrespeito.
Outro ponto fraco é a trama paralela do protagonista, Márcio, que pouco acrescenta e acaba funcionando mais como distração do que como complemento narrativo. Esse tipo de recurso, aliás, é comum em produções brasileiras baseadas em fatos reais, com a inclusão de personagens fictícios que acabam recebendo mais destaque do que as figuras reais.
Por outro lado, a parte sonora é excelente, especialmente o uso do Dolby Atmos, que constrói bem as ambiências com sons de pássaros, insetos, helicópteros e trechos da trilha instrumental.
No fim, apesar dos problemas técnicos e narrativos, a série ainda vale a pena pelo contexto histórico que retrata, conseguindo transmitir, ao menos em parte, a dimensão dos acontecimentos.
Twin Peaks (3ª Temporada)
4.4 623 Assista AgoraPara mim, é a melhor temporada de Twin Peaks. As primeiras temporadas carregaram o fardo de serem disruptivas em uma época em que a TV e seus executivos ainda eram extremamente conservadores. Vimos que a pressão oriunda da emissora foi responsável por minar a estrutura narrativa pensada por David Lynch, inflando a série com tramas inúteis e desinteressantes e forçando a resolução do principal mistério antes da hora.A terceira temporada está completamente livre dessas amarras. Os frutos da inovação do início dos anos 90 foram colhidos 25 anos depois da última interação original, e nesse meio-tempo houve grande evolução em termos de investimento e liberdade criativa dentro dos shows de TV. Nesse sentido, é até muito prazeroso ver como os três núcleos principais dessa temporada funcionam. Twin Peaks mantém todas as características das temporadas anteriores, com um ar de inocência e mistério. Las Vegas remete à obra de Vince Gilligan, da paleta de cores aos personagens, com grande foco em situações cotidianas, e sua falsa lentidão narrativa, espelhando o que vivemos no mundo real. Já Buckhorn parece uma homenagem ao trabalho de Quentin Tarantino. Praticamente todos os atores da série principal retornaram, mesmo alguns debilitados por doenças avançadas, e isso demonstra o amor que sempre guardaram por essa história. Quem espera conclusões definitivas pode se frustrar, mas esse é o cerne do trabalho de Lynch e da própria série: acabar com o mistério é encerrar a capacidade do espectador de fazer suas próprias análises e vislumbres do que realmente aconteceu e do que vem pela frente.
Eles (1ª Temporada)
4.1 566 Assista AgoraAtuação monstruosa de Jeremiah Birkett. O seu personagem, o Tap Dance Man é uma das figuras mais perturbadoras e pitorescas que já vi. A forma em que ele "devora" uma cerveja em um dos episódios é espantosa.
Uma curiosidade é que logo antes de ser "morto" por Henry, ele faz a pose da ilustração mais conhecida de Jim Crow, que simboliza toda uma era de segregação racial nos EUA. E logo após morrer, Henry descobre que essa assombração era um homem branco fazendo black face, tal qual a pessoa que popularizou o Jim Crow ao interpretá-lo em suas apresentações.