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  • Roberto

    Essa confusão sou eu
    (Embora pareça em sua superfície apenas uma narrativa sobre o bloqueio criativo de um artista, Oito e meio, de Federico Fellini, se trata na verdade de tudo o que acontece num projeto cinematográfico antes das câmeras serem ligadas e o diretor gritar "ação!")

    Eu me tornei cinéfilo e consequentemente um interessado em escrever sobre filmes - embora não me considere um crítico especializado - para poder enxergar além da própria sétima arte. Sempre fui um fascinado pelo set de filmagem e a todo momento procuro no mercado editorial livros contendo histórias sobre os bastidores dos grandes longa-metragens. E nessas procuras me dou conta, às vezes, de que a película, o resultado do projeto, é um reles detalhe. Quero mesmo é conhecer a história desses artistas e o que eles fizeram de suas próprias vidas e carreiras.

    Pois bem: volta e meia me pego pensando na reflexão proposta por este parágrafo e chego à conclusão de que o melhor exemplo que eu poderia dar para explicar de forma cinematográfica o que escrevi é a obra-prima Oito e meio, do cineasta italiano Federico Fellini. E digo mais: em se tratando de um filme em que o próprio diretor confessava em entrevistas estar incompleto - daí o título da obra, que é seu nono longa-metragem -, é impressionante a genialidade dele. Fellini era realmente um mestre que deixará saudades eternas, na Itália e no resto do mundo.

    Guido Anselmi, protagonista desta jóia rara (e interpretado por Marcello Mastroianni), é um cineasta que foi da glória e o reconhecimento à crise de inspiração - ou, como costumam chamar alguns, o bloqueio criativo - e agora sente-se sugado em todos os sentidos. Contudo, ele promete um novo filme à seus produtores e é justamente nesse momento que os problemas começam.

    Sempre envolto por belas mulheres e fazendo a todo momento digressões que remetem à sua infância, uma época em que era mais livre e não precisava dar satisfações sobre cada passo que dava, ele se vê engolido por um mercado exibidor que o enxerga apenas como uma reles engrenagem dentro de um processo criativo. E à medida que o tempo passa e o roteiro ou mesmo uma ideia geral do que seja o projeto não surge sua angústia atinge um nível nunca antes alcançado em toda a sua carreira.

    Logo, ele precisa ganhar tempo. E faz isso através de sucessivas mentiras ou evitando contatos e conversas mais longas sobre tudo o que verse a respeito do "novo e genial filme que virá".

    Há pontos interessantíssimos a serem evidenciados no longa, que não somente refletem bem a personalidade de Guido, mas também o fato de ele ser um grande alter-ego do diretor. Em primeiro plano destaco a trilha sonora, belíssima, que ilustra bem o clima nonsense, de preocupação constante do diretor em crise (cheguei a acreditar, em alguns momentos, estar diante de uma "ópera do absurdo"). Logo a seguir, cabe aqui o meu elogio à maneira como Fellini flerta com o surrealismo nesta narrativa visual. Ele, que sempre viu sua obra associada ao sonho e ao delírio, aqui - a meu ver, pelo menos - realiza o seu projeto que mais remete ao mestre Salvador Dalí. Talvez muitos que leiam esta crítica achem um exagero da minha parte, mas honestamente tive de fato essa impressão. E finalmente, a presença da figura das musas (são muitas!) de Guido, uma referência clara aos gregos, mas também às paixões do próprio Fellini.

    Há um embate claro entre o filme que Guido deseja realizar, um trabalho apaixonante, autobiográfico e sem licenças poéticas, e toda a expectativa gerada por aqueles que o cercam e fazem a máquina da indústria cinematográfica girar. Em outras palavras: Oito e meio é um filme sobre bastidores. sobre aquilo que não vemos, mas acontece em todas as produções do gênero.

    Refiro-me às brigas entre a equipe de filmagem; a dificuldade do realizador em manter seu casamento vivo; as difíceis, quase insuportáveis, audições para escolha de elenco; a crítica e a imprensa em geral perseguindo o realizador de forma insistente, à procura de informações sobre o que ele fará a seguir, etc etc etc e hajam incômodos e desnecessários etc que só contribuem para atrasar ainda mais o projeto.

    O que vemos antes das câmeras serem ligadas e o diretor gritar "ação!" está tudo ali, de forma nua e crua, sem rodeios ou invencionices. Toda a bagunça da pré-produção, as ideias primárias que não funcionam, não se concretizam nas telas, os atores cheios de pitis e exigências constantes... Tudo aquilo capaz de enlouquecer o mais normal dos mortais e, no entanto, faz parte da rotina de qualquer realizador da sétima arte, pois não fosse assim não iríamos apreciar sua saga nas salas de cinema. Em suma: uma confusão generalizada que visa um espetáculo posterior.

    E como o próprio Guido/Fellini diz ao final do longa: "essa confusão sou eu". Esse acúmulo de experiências, memórias e derrotas as mais diversas dão, de certa forma, um caráter quase metalinguístico ao filme. E Fellini, de uma maneira ou outra, sempre perseguiu isso em sua carreira.

    E passados 57 anos sem envelhecer uma vírgula sequer e ao final dos mais de 130 minutos de projeção impecável só me resta, orgulhoso, ver meu rosto encher de lágrimas e levantar para aplaudir de pé essa obra-prima do cinema italiano.

    P.S: em 2009 o diretor Rob Marshall dirigiu Nine, que se pretendia uma nova visão sobre essa história. Fui ao cinema na época para assisti-lo e saí meio desapontado. Mais uma vez hollywood moralizou uma história consagrada pela sétima arte de um outro país transformando-a naquilo que ela não era (no caso, um musical). Eles adoram fazer esse tipo de coisa. E eu espero sinceramente que um dia eles parem com isso!

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  • Roberto

    Tabloide Junkie
    (com The Acid House, o diretor Paul McGuigan constrói um retrato paranoico e psicodélico sobre a vida dos excluídos e viciados do mundo)

    Quando devorava alucinadamente os romances do escritor norte-americano James Ellroy (autor de, entre outras façanhas literárias, os notáveis Los Angeles: cidade proibida e A Dália negra) havia, volta e meia, a presença da revista Hush-hush na trama. Tratava-se de uma publicação sensacionalista, que vivia de escândalos em hollywood e da vida das chamadas pseudocelebridades. E já naquela época - eu tinha pouco mais de 20 anos nesse período - alguns segmentos de hollywood reclamavam e muito da abordagem do autor sobre os artistas e famosos.

    O tempo passou, Ellroy envelheceu (e continuou um autor brilhante dentro do gênero policial) e hollywood aprendeu a conviver com suas distorções comportamentais. Mais do que isso: passou a inserir em suas histórias as celebridades fake, os excluídos, renegados e também os junkies - que, a meu ver, rendem em muitos momentos grandes personagens. Quem quiser tirar uma prova dos nove sobre isso, assista ao extraordinário Réquiem para um sonho, de Darren Aronofsky.

    E não é que nesta última sexta-feira encontro numa banqueta de dvds piratas, dessas que vocês vêem rotineiramente nas feiras livres, um exemplar surreal dessa vertente, provavelmente um dos filmes mais loucos que eu assisti nos últimos dez anos? Trata-se de The Acid House, o primeiro longa-metragem do diretor Paul McGuigan.

    The Acid House traz aos espectadores uma grande crônica (melhor dizendo: um tablóide) sobre a vida miserável dos excluídos e viciados da América - e também, por que não dizer, do mundo. E não me refiro exclusivamente aos viciados em entorpecentes e psicotrópicos, não! Quem dera fosse fácil interpretar todos os tipos de vícios existentes na sociedade contemporânea...

    Seguindo uma toada que lembra em alguns momentos o clima de Trainspotting: sem limites, de Danny Boyle, McGuigan constrói sua narrativa em torno de três "protagonistas" (as aspas são intencionais, na medida em que eles não se encontram sozinhos nessa rotina desesperadora que eles chamam de vida!): são eles Boab (Stephen McCole), Johnny (Kevin McKidd) e Coco (Ewen Bremner, que por sinal trabalhou com Boyle em Trainspotting).

    Boab vê sua vida virar um caos após ser expulso do time de futebol no qual jogava e ser abandonado pelos pais e pela namorada. E quando se depara com a figura de Deus, dizendo que vai lhe transformar numa reles mosca, pois ele precisava aprender com seus próprios erros da pior maneira possível, ele entende que o inferno de fato ainda não começou. Já Kevin precisa lidar com um casamento frustrado com uma mulher de vida fácil, a última pessoa na face da terra indicada para iniciar um relacionamento desses. Pior: eles tiveram um filho. Enquanto isso, Coco, um viciado em ácido, se depara com um revés terrível em sua jornada quando um raio cai sobre sua cabeça ao mesmo tempo que atinge um bebê recém-nascido e seus cérebros mudam de lugar. Agora, vê seu intelecto preso a uma criança pequena enquanto seu corpo vaga pelas ruas, conduzido pelo cérebro da criança (esta é, certamente, a mais louca do trio de histórias).

    Para aqueles que não são afeitos a filmes em episódios, talvez o clima proposto pelo longa incomode em alguns momentos, pelo seu teor pessimista (embora o filme tenha um senso de humor bastante ácido). Até as músicas que acompanham a vida de cada protagonista dialogam no sentido de mostrarem que são pessoas que convivem com o niilismo e a falta de expectativas para um futuro melhor. Mas enfatizo: não se trata de uma trama autodestrutiva. Longe disso. Há, inclusive, quem consiga enxergar a película como uma grande comédia de humor negro.

    No final das contas, o que sobra para os espectadores mais interessados no gênero paranóia, é uma interessante reflexão sobre o mundo caótico no qual estamos vivendo atualmente. Mais do que outros filmes mais famosos sobre o tema vício, como por exemplo Drugstore Cowboy, de Gus Van Sant e New Jack City - a gangue brutal, de Mario Van Peebles, o que percebo aqui é o resultado final de anos e anos de carências humanas substituídas por "curas milagrosas" (no caso, o ácido, o casamento e a procura de muletas existenciais - família, namoro, amigos, etc - para suprir uma falta de interesse em tomar as rédeas da própria vida.

    Boab, Johnny e Coco, têm em sua gênese, um mesmo princípio ativo: o de empurrar suas vidas com a barriga, pois não tem coragem ou mesmo forças para buscar algo melhor. E o resultado disso é a eterna procura por paliativos e mecanismos de defesa que justifiquem suas inércias.

    Nada mais século XXI do que isso, não é mesmo? (e olha que o filme é do século passado!).

    P.S: após terminar este artigo, me lembro de que o cantor Michael Jackson no álbum History - past, present and future gravou uma canção com o mesmo título. Não há relação alguma entre ambos (embora Michael ao longo da sua carreira tivesse que conviver com muitos sanguessugas e "viciados" pelo poder).

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  • Roberto

    O time dos sonhos
    (Memórias de um tempo em que basquete era espetáculo)

    Era 1992 e em Barcelona, na Espanha, acontecia a XXV edição dos jogos olímpicos da era moderna. A pira fora acendida durante a cerimônia de abertura por um atleta que atirou uma flecha em chamas e, aqui no Brasil, houve uma polêmica discussão, pois muitos acreditavam que a flecha havia ultrapassado a pira (e que ela havia sido acendida eletronicamente). Porém, nada que afetasse o brilho do espetáculo.

    E entre os muitos atletas que se destacaram nessa edição - e eu, por conseguinte, esperava por grandes novidades já que adorara a edição anterior, realizada quatro anos antes em Seul, na Coréia do Sul - houve um grupo de homens extraordinários que conseguiram, por um momento, me provar até mesmo que seriam capazes de voar (se quisessem de fato).

    Refiro-me à seleção norte-americana masculina de basquete, que ficou eternizada como dream team (ou, em português, o "time dos sonhos"). Detalhe importante: era a primeira vez na história das olimpíadas que atletas profissionais, oriundos da NBA, podiam disputar a competição. Até então, somente jogadores amadores ou da liga universitária poderiam representar suas seleções. E teve quem visse essa articulação promovida pela FIBA (a federação que rege o esporte) como puro oportunismo, pois poderia levar o basquete made in USA a um patamar jamais igualado por qualquer outro país.

    Polêmicas e dissensões à parte, eles chegaram e promoveram a maior revolução da história do basquete olímpico até hoje. E quem eram eles? Christian Laettner, David Robinson, Patrick Ewing, Larry Bird, Scottie Pippen, Michael Jordan, Karl Malone, Clyde Drexler, John Stockton, Chris Mullin, Charles Barkley e Magic Johnson. Só a estrutura criada para fazer a segurança da equipe já renderia um blockbuster de cinema na linha action movie. Eles não ficaram hospedados na vila olímpica, mas em quartos de hotel exclusivos e caríssimos. A desculpa dada na época pela delegação é que eles queriam evitar tragédias como a ocorrida nas olimpíadas de Munique em 1972, quando 11 atletas foram mortos num dos atentados terroristas mais famosos da história mundial (e para quem ficou curioso, procurem pelo filme Munique, do diretor Steven Spielberg, e sabiam mais detalhes).

    Os EUA começam sua campanha rumo ao título e logo de cara deixam claro sua discrepância e talento em relação aos demais times. Abrem os trabalhos metendo um humilhante 116 x 48 em Angola, seguidos de um 103 x 70 na seleção da Croácia (que, pasmem, faria a final com os americanos!).

    Completando a primeira fase, seguiram-se um 111 x 68 na Alemanha, 127 x 83 na seleção brasileira (e cabe aqui um breve aparte: eu me lembro até hoje do final desse jogo, quando as lendas americanas fizeram questão de cumprimentar nosso ídolo maior, Oscar Schmidt. Não é à toa que ele faz parte do Hall da fama do basquetebol!) e, finalmente, 122 x 81 na Espanha (que, naqueles tempos, ainda não tinha a força esportiva que tem atualmente).

    Obs: nunca me esqueço de uma jogada específica - não me recordo exatamente em que partida ocorreu - em que Magic Johnson finge que vai enterrar a bola na cesta, joga-a para trás e eis que surge Michael Jordan "quase voando" e a enterra de forma devastadora, levando a plateia ao delírio. É uma das minhas lembranças eternas de todas as olimpíadas que assisti.

    Na segunda fase da competição, os EUA mantém o ritmo avassalador e provam por a mais b que não havia outra seleção que se igualasse a eles. Na quartas, enfiam 115 x 77 em Porto Rico; na semifinal, emplacam um 127 x 76 na Lituânia (que contava com o gênio Sabonis em seu time) e repetem o massacre na Croácia (117 x 85 na finalíssima). Resultado: medalha de ouro mais do que garantida e merecida. E eu, claro, preso ao sofá da sala boquiaberto em todas as partidas.

    Mais do que o resultado em si, assistir a esses homens jogando foi um espetáculo à parte, com direito a assistências eletrizantes, enterradas inesquecíveis, voos antológicos e um senso de organização e marcação descomunal. O técnico do time, Chuck Daly, chegou a afirmar no período que treinar aquela seleção era como "ter Elvis e Beatles juntos no palco". E ele realmente não estava exagerando!

    Em poucas palavras (se é possível explicar algo assim): se você não viu a seleção de 1992 jogar porque não era nascido ou não curte basquete, não faz a menor ideia do que perdeu. Foi um momento único, que não se repetiu, embora a delegação americana tenha tentado, mandando grandes equipes nas olimpíadas de Atlanta, em 1996 e Sydney, em 2000. Porém, quando uma das equipes posteriores levou 100 pontos de um adversário na mesma partida, viu-se claramente que o encanto, a magia, havia se perdido de vez.

    Ou seja: quem viu, viu; já quem não viu, só pode se contentar mesmo com vídeos antigos no you tube e no vimeo (o que, claro, nunca será a mesma coisa).

    Até hoje, confesso, aguardo por uma nova geração tão brilhante quanto aquela de Barcelona. E me parece muito longe ainda o dia em que aquilo tudo se repetirá. Contudo, mesmo os jogos olímpicos, com o passar dos anos, ganharam uma outra conotação para mim (mais política, vamos dizer assim) e confesso que não vejo mais a competição com o mesmo prazer. O que é uma pena.

    Mas mesmo assim, como é bom saber que eu fui testemunha ocular de tudo aquilo. Dá até vontade de gritar, berrar, pedindo para que aqueles dias nunca acabassem... Volta, Dream team! Volta! Pelo amor de Deus!!! O basquete nunca mais foi a mesma coisa.

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