Da série: personagens que deveriam abrir um podcast de meditação guiada. Até em um projeto mediano, o Fincher entrega um trabalho intrigante e charmoso. Se tivesse permanecido na toada do primeiro ato, a nota seria outra. Fassbender tá um monstro.
“Você se paralisa. Era isso que eu sentia: paralisia múltipla. Por isso fiz essa viagem - pra me mover, pra voltar a caminhar. Voltar a comer o sanduíche de filé, voltar a andar de moto, voltar a ver o Fortaleza ganhar. Pra voltar a ir à praia num domingo. Pra voltar a viver.”
Num tempo em que a gente delega tudo às máquinas - e elas começam a avançar nos territórios da sensibilidade - Blade Runner ainda serve de espelho, mesmo após 43 anos da sua estreia. Ele reflete um mundo que opera no automático e torna a apatia um modo de existir.
A alma do filme tá em como direção de arte, fotografia e som compõem uma atmosfera tão austera quanto familiar: uma megalópole de construções monolíticas, tragada por escuridão, fumaça e propaganda. Um lugar onde a desigualdade é esmagadora, mas a ilusão da hierarquia é sustentada por aqueles que foram rejeitados no paraíso das colônias espaciais.
Condenado a permanecer na Terra por um defeito congênito, J.F. Sebastian, engenheiro genético da Tyrell, se arrasta. Ganhou o “privilégio” de viver sozinho num prédio abandonado, mas vive cercado por bonecos mecânicos que simulam companhia e afeto.
Em paralelo, os mais abastados ostentam animais sintéticos como símbolos de status, numa tentativa de resgatar a conexão com o natural, o orgânico — tudo aquilo que os terráqueos já não alcançam, sobrevivendo à base de torpor e comida processada.
A ambiguidade também se manifesta na trilha sonora, que com frequência nos alça a um estado de contemplação, como se ainda fosse possível ver beleza nesse universo. E é. Não através do conformismo de Deckard, mas sim da urgência dos rebeldes que ele caça sob luzes neon. É com a fúria, a ternura e a luta desesperada contra o tempo de Roy, Pris, Zhora e Leon que a gente se conecta.
Em uma sequência frágil e brutal, um replicante corre em câmera lenta. O som dos tiros e o estilhaçar dos vidros se mistura aos acordes melancólicos do sintetizador. Um corpo cai e ninguém ao redor liga — é Vangelis fazendo da tragédia uma paisagem de sonho, um delírio poético, em uma das cenas mais potentes do filme.
Os andróides são registrados pela câmera com a mesma gentileza presente nos seus monólogos: suaves <i>contra-plongées</i> e <i>close-ups</i> trazem à tona sua força, dignidade e grandeza.
No fim, eles eram escravos, e ainda assim, enxergaram coisas que a maioria das pessoas jamais verá. Essas memórias são a sua herança — o testemunho da sua existência.
Em Blade Runner, a humanidade não é de nascença. Ela tá no que se sente, no que se guarda e no que se deixa.
1. Quero ser amigo do Russão 2. Grace Passô é um assombro 3. Direção de Fotografia no talo 4. “Tu não tem nada pra fazer E fica nessa agonia Fala de mim, pensa em mim 24 horas por dia. Só sabe o meu primeiro nome E acha que me conhece Olha, se põe no seu lugar Vê se comigo não se mete.” - Carlos
A vida não costuma dar escolha. O dia começa cedo e segue no ritmo que dá. A prioridade é a roupa lavada, a venda feita, o gado ordenhado e o pão quente na mesa. É preciso garantir o sustento e ensinar os filhos a fazer o mesmo. O que não ajuda a sobreviver, fica pra depois. E assim, viramos indivíduos aprisionados pela rotina, tão obstinados pelos deveres que descartamos sem cerimônia tudo o que não parece urgente.
Enquanto o mundo gira no piloto automático, Ahmed desafia a rigidez da funcionalidade. Corre de aldeia em aldeia, enfrentando a noite, o cansaço e a indiferença apenas pra proteger o amigo da intolerância dos adultos. E uma flor repousando nas páginas de um caderno vira um lembrete de que, entre as migalhas do tempo, é possível encontrar espaço pra a ternura.
Na sua delicada crônica da subsistência, Kiarostami nos mostra que viver é mais do que ter disciplina e cumprir tarefas. É sentir, acolher e preservar um pouco da pureza das crianças. Dolorosamente lindo.
O que mais gosto em Emilia Pérez é justamente o que muita gente rechaça: as performances teatrais e o visual experimental, que dão cara ao projeto. O problema é que o filme se leva a sério e tenta dar um passo maior que a perna.
Ele até segura enquanto estamos curiosos para saber como Emilia vai se resolver com Jessi, como em uma boa novela da Netflix. Mas basta olhar de perto pra perceber que a trama tem mais pose do que propósito. As músicas flertam com identidade, redenção, poder, corrupção e violência, sugerindo que esses temas são a espinha dorsal da história, mas só os usa como pano de fundo.
Antes de se tornar Emilia, Manitas era chefe de um poderoso cartel do narcotráfico. Depois, vira uma figura benevolente e distante do passado violento. Ao fazer isso, Audiard trata a transição de gênero não como uma vivência complexa e subjetiva, mas como um mero artifício dramático. A cena da cirurgia de redesignação reforça isso, ao fazer de um momento íntimo um número musical excêntrico e fora de tom.
Nem o idioma escapa ao olhar supérfluo do diretor. A artificialidade do espanhol cria um distanciamento entre quem assiste e a cultura que o filme tenta refletir.
No fim, Audiard parece mais preocupado em deixar sua marca do que em se comprometer com a história que escolheu contar, provando que um punhado de boas intenções não faz um bom filme.
Não espere de Conclave uma trama mirabolante ou uma reinvenção dos filmes de thriller psicológico. Ele é o clássico feijão com arroz bem feito, aquele prato que você pede em um restaurante novo sem grandes expectativas, mas que te surpreende e fica na memória.
A história é simples: quando o papa falece, tem início o conclave pra escolher seu sucessor. Entre os candidatos, há mais interesses escusos do que vontade divina. E é no meio desse tabuleiro de fé e ambição que o cardeal Lawrence precisa garantir que a escolha não desmonte o legado da Igreja e os avanços do último papado.
Se há algo que o filme masteriza é a construção de atmosfera. Da fotografia à trilha sonora, da cenografia ao figurino, tudo se encaixa com precisão cirúrgica, dando um realismo quase sufocante a essa eleição a portas trancadas.
O elenco também entrega. Entre os nomes de prestígio que ajudam a manter a tensão no ar, é Ralph Fiennes quem carrega não só o filme, mas o peso do mundo nas costas. Sua postura denuncia o tamanho do seu fardo, e sua presença evidencia a gravidade dos dilema internos e filosóficos que seu personagem vive.
Edward Berger assina um filme provocativo que evita respostas fáceis. Em vez disso, instiga a curiosidade e deixa no ar um rastro de perguntas. No fim, vale a experiência justamente por isso: é uma luz de dúvidas em um mundo obcecado por certezas.
Poucos cineastas sabem brincar com a grandiosidade sem cair no exagero. A Chegada tem óvnis que desafiam a física; Blade Runner 2049 reinventa Los Angeles como uma selva futurista, decadente e melancólica; e Duna transforma o deserto em um palco onde vermes gigantes ditam as regras.
É essa habilidade de tornar monumental e crível o mundo ao redor dos personagens que torna os filmes de Denis Villeneuve tão hipnotizantes. Em Duna: Parte 2 não é diferente. Arrakis é o cenário sísmico da ascensão de Paul Atreides entre os Fremen para reivindicar seu papel como messias.
Villeneuve não se apoia apenas na estética - ele dosa os gêneros com precisão. Entrelaça a intriga política ao romance, a guerra ao humor sutil, sem jamais comprometer o caráter dramático da história.
Muito desse domínio narrativo vem do fato de que ele não tem pressa. Essa cadência torna Duna imersivo, e é justamente por isso que soa estranho quando, em certos momentos, o roteiro simplesmente salta etapas e entrega soluções sem a mesma preparação — como a localização repentina de um recurso estratégico, a revelação de um parentesco inesperado ou a mudança brusca na postura de Paul após um momento de provação. Quando isso acontece, a narrativa perde um pouco do refinamento que o diretor estabelece no resto do filme.
Ainda assim, isso está longe de apagar o brilho da obra. Se a primeira parte mostrou que Duna era possível, a segunda prova que ele já é um evento cultural. Villeneuve não apenas trouxe Arrakis para a tela — ele cravou sua visão no imaginário popular. Ao apostar na força da escala e na fusão de gêneros, reafirma por que ninguém materializa mundos como ele.
O primeiro personagem de Ainda Estou Aqui é o litoral carioca dos anos 70. Nele, a família Paiva toma banho, corre, joga bola e pega um bronze - a vida pulsa em cores saturadas.
O segundo é a casa. Marcelo volta da praia com um cachorro de rua e espalha areia pelo chão. O pai hesita, mas cede. Lá não tem celular tocando, feed infinito nem ansiedade digital. É o refúgio onde os amigos chegam, o vinil dança na vitrola e o tempo desacelera.
Nalu ensaia um dueto, a caçula balança um dente de leite. A jogatina de totó flagra a meninice dos homens e a de gamão sela a cumplicidade do casal. Vera tá sempre com a Super 8 na mão, porque lembrar dá trabalho e há momentos que precisam ser eternizados. Dá pra sentir o calor, a liberdade e a despreocupação, antes de tudo ser surrupiado da gente. Salles torna esse cenário tão verossímil que ativa de forma imediata a nostalgia de uma vida que não é nossa. Mas não é à toa que nos sentimos assim.
Crescemos num país onde o clima tropical aproxima as pessoas. Amadurecemos num caldeirão cultural temperado à base de afeto e otimismo. Um país onde uma receita de suflê familiar nos une em torno da mesa pra ouvir as histórias intermináveis e confusas dos nossos parentes. Quando já estamos envolvidos nesse mundo, o filme aperta o peito com a ausência do que construiu.
Ele usa um tipo de suspense passivo, que se materializa no barulho de helicópteros, notícias urgentes, na patrulha de tanques de guerra e na figura de burocratas truculentos. Agentes que cumprem ordens sem sentido em um Brasil que flexibiliza as hierarquias, chamando o chefe do trabalho de "irmão" e o garçom de "doutor"; que não fica impassível diante de uma família impedida de receber notícias dos seus. "Não dá pra não fazer nada".
É lindo que o filme tenha caído nas graças do mundo, mas só quem é latino sente ele na carne.
Apesar da ternura, às vezes dá uma impaciência com Eunice. Por não explodir, não dar vazão à raiva das filhas e proteger demais seus pequenos. Mas ela é mãe. E mãe aprende a se virar nos 30, sobreviver no improviso e acreditar, sempre, num amanhã melhor - muitas vezes sem levantar a voz. É uma resiliência descomunal que inspira e assombra.
Que momento pra retratar as feridas de tempos sombrios, a força de quem resistiu e a memória do que não pode ser esquecido, apesar dos que querem enterrá-la. Obrigado, Rubens, Eunice, Marcelo, Walter, Fernanda, Selton, a toda a família Paiva e à equipe de Ainda Estou Aqui. Poucas vezes a gente sentiu tanto orgulho de se olhar no espelho.
A obviedade pode matar um filme. Quando as metáforas estão estampadas, o espectador perde a chance de interpretar o texto por conta própria. A Substância tinha tudo para cair nessa armadilha, mas escapa no meio do caminho.
Sim, o filme não tem medo de jogar suas cartas na mesa. Sua posição é gritante e didática, e isso fica evidente na caricatura que é o personagem de Dennis Quaid. O problema não tá na crítica, mas no jeito como ela é entregue.
Apesar disso, o filme se sustenta bem. Ele não precisa de uma trama complexa pra ser bom, porque é simples no conceito, mas potente na execução. Criar uma experiência visual forte sem cair no simplismo é um desafio, e é isso que acontece aqui. Mesmo sem esconder o jogo, Coralie Fargeat embala tudo com precisão e transforma o óbvio em uma escolha estilística.
Ela faz o caminho inverso de Nicolas Winding Refn em Demônio de Neon, que tece um comentário semelhante à pressão estética que as mulheres sofrem nas mãos da indústria. No papel, o filme de 2017 tem tudo que eu gosto: simbolismo, uma composição visual hipnotizante e algum subtexto para a gente ficar mastigando. Mas se esvazia por sua pretensão de causar choque e confusão mesmo quando não tem mais nada a dizer.
Já A Substância empacota suas ideias com um design de produção impecável e cheia de referências clássicas, uma cinematografia vibrante e um trabalho de som que eleva a nossa imersão. São decisões bem amarradas que conseguem amplificar o conceito sem precisar complicar pra parecer rebuscado.
E então, chegamos ao calcanhar de Aquiles do filme: em vez de encerrar com a tensão suspensa e deixar espaço para a imaginação preencher as lacunas, Fargeat aposta em um desfecho apoteótico, que divide o público e quase compromete a sua distribuição global. Exagerada ou não, é uma decisão intransigente que torna A Substância uma obra honesta e impossível de ignorar.
Sean Baker inicia Anora com sua marca registrada – música pop nos créditos iniciais, ambientação do espaço, apresentação da protagonista e um corte abrupto pra a realidade caótica que estamos prestes a acompanhar.
Seus filmes mantêm um frescor próprio porque as cenas dinâmicas, os diálogos verborrágicos e a trilha sonora urbana embalam a marginalização norte-americana como um reality show. Seus personagens atropelam frases, improvisam e encontram humor e leveza onde parece improvável florescer. E é isso que torna seu olhar tão ambíguo e fascinante.
Gosto, também, de como o diretor tece suas críticas: uma das strippers conta que um cliente comprou mais danças depois de notar que ela parecia sua filha de 18 anos; Ani é bilíngue, tá no padrão de beleza e tem ascendência russa, mas nada disso a aproxima da família que quer pertencer. Ela será sempre definida pelo que faz. Baker não enfatiza nada disso, apenas retrata essas situações como parte do cotidiano das personagens, porque, na vida real, realmente seriam.
Mas, diferente de Projeto Flórida, em que essa riqueza do que está sendo dito nas entrelinhas cobre o filme inteiro, Anora vai se perdendo no caminho. Quando os três capangas tomam a frente da história, a trama escorrega pra um tom de comédia pastelão e se demora tanto no desespero de Toros e na canastrice de Garnik que Ani é empurrada pra escanteio, passando boa parte do tempo sendo arrastada pelos acontecimentos. Por mais que isso escancare sua impotência dentro daquele universo, é uma decisão que desloca a protagonista do centro emocional da narrativa e deixa o filme órfão do que ele tem de melhor.
Na sua jornada até a belíssima cena final, Baker entrega um filme frenético e divertido, que, por vezes, remete ao alvoroço de Joias Brutas. Mas, diferente do filme dos irmãos Safdie, Anora perde fôlego, e o que poderia ter sido um estudo íntimo de personagem se dissolve entre querer dizer algo profundo e querer fazer o público rir – sem encontrar o ponto de equilíbrio entre os dois.
A tragédia do Holocausto foi marcada pelo medo do outro. Um medo que justificou perseguições, confinamentos e extermínios em massa. O Brutalista nos mostra que esse medo não acabou com o fim da guerra – ele apenas mudou de forma.
Agora, ele não se manifesta em câmaras de gás, mas em processos de apagamento cultural. Laszlo também é um sobrevivente desse novo tipo de violência: o sistema que antes o via como uma ameaça agora exige que ele prove sua utilidade e sua disposição pra se encaixar. Seu primo já aceitou esse destino, adotando um novo sobrenome, uma nova religião, uma postura alinhada às expectativas de seu novo país.
E de onde vem esse medo do outro? Jean-Claude Carrière diz que a gente ergue fachadas brilhantes para esconder lá atrás a falta de solidez. Nesse sentido, a sociedade teme aquilo que não pode domesticar porque isso ameaça sua aparência de perfeição – que, no fundo, é uma farsa.
Essa aparência se sustenta sobre um modelo de masculinidade frágil, que só sobrevive na base da repressão e da hipocrisia, pois qualquer rachadura pode fazê-la desmoronar. Os homens do filme vivem em uma constante performance de virilidade, ao mesmo tempo em que nutrem uma tensão sexual entre si. Passam o tempo inteiro tentando provar que são invencíveis e, para isso, precisam subjugar o próximo, silenciando tudo o que possa expor a sua própria fragilidade, e, por extensão, a do sistema que fazem parte. Mas quando essa fachada se quebra, a queda é irreversível.
A cena em que é sugerido que Harrison se suicida é um dos momentos mais simbólicos disso.
E essa lógica não se restringe aos EUA. Ela tá presente na forma como as sociedades modernas são organizadas, em como a política internacional é conduzida, em como guerras são justificadas.
No meio desse caos, a única forma de sobreviver é garantir que sua história seja contada. É por isso que Laszlo se agarra à sua arquitetura: se ele não pode ser aceito, pode ao menos construir algo que resista ao tempo. E talvez essa seja a verdadeira vitória sobre o medo do outro: não desaparecer, mas encontrar maneiras de continuar existindo.
Um filme precisa se sustentar por conta própria, sem depender do nosso conhecimento prévio pra fazer a narrativa funcionar. É aí que Um Completo Desconhecido falha.
Pra comprar a grandiosidade da trajetória de Bob Dylan, parece que já é necessário conhecer sua personalidade e seu trabalho. Quem não tem esse repertório tende a sair da sessão achando que ele era apenas um sujeito talentoso, arrogante e que teve a sorte de se conectar com as pessoas certas.
O contexto histórico fica no rascunho, e as origens e motivações do artista permanecem um mistério. Assim, o filme não consegue articular com profundidade o impacto de Dylan na cena musical da época.
A interpretação de Timothée Chalamet reforça esse distanciamento. Ele enfatiza tanto os cacoetes do biografado que, em vários momentos, é difícil enxergar algo além deles. O resultado é que, mesmo vivendo um autocrata em Duna, o ator inspira mais simpatia lá do que aqui.
Mas se a narrativa deixa a desejar, a música, em partes, compensa. As canções que alçaram Dylan a um ícone da contracultura estão entre os pontos altos da sessão, porque lhe emprestam ritmo.
Por isso, a presença de Monica Barbaro como Joan Baez brilha. Sua voz é sublime e sua personagem enriquece a história, assim como o Edward Norton no papel de Pete Seeger.
No fim, o filme retrata Dylan como um compositor obstinado e convencido de que o público deve ouvir o que ele quer tocar porque, bem... ele quer. Ao menos, nesse meio tempo, o folk encontra um jeito de nos abraçar.
Esconde um grande acontecimento em uma coleção caótica de relatos e referências históricas. A falta de um fio condutor claro compromete a contextualização dos fatos e torna a maior parte da experiência um fardo.
Quanto mais penso nesse filme, mais gosto dele. Direção afiada, controle absoluto da narrativa. Cada frame é um quadro... Uma das maiores surpresas do Oscar pra mim até então.
Filmado em primeira pessoa, Nickel Boys nos arrasta pra dentro da trama. Na pele de Elwood, a gente sente o afeto da avó, absorve os discursos de Martin Luther King Jr. e vivencia as tensões raciais da época sob as leis de Jim Crow - uma escolha acertada, já que nos permite acompanhar o crescimento do protagonista e ver como ele molda sua visão de mundo.
A chegada ao reformatório cria um paradoxo: o lugar tem um visual idílico, mas provoca um mau pressentimento constante, intensificado pela câmera em ponto de vista e pela claustrofobia do formato 4:3.
A mistura com imagens de arquivo dá um aspecto documental, como se estivéssemos assistindo a uma exposição sobre um pedaço macabro da história americana. Tudo funciona bem, até certo ponto.
Na tentativa de traduzir a imprecisão da memória humana e emular a desorientação dos personagens, a montagem aposta em saltos temporais que transformam a experiência em um jogo de quebra-cabeças. E o que começa como um frescor criativo, pouco a pouco nos afasta emocionalmente dos protagonistas.
No esforço de ser fiel à sua estética, o filme se dispersa com os próprios cortes e perde de vista a essência da história.
Em tempos de CGI a toque de caixa, Wicked impressiona ao apostar nos efeitos práticos para dar vida ao seu universo. E sincronizar os movimentos de um elenco numeroso em cenários cheios de detalhes não deve ter sido fácil. Mas, se o filme brilha na parte técnica, tropeça no roteiro.
Uma das reclamações mais comuns é que o público se sentiu traído porque esta primeira parte mostra só o começo da transformação de Elphaba. Confesso que, durante a sessão, isso não me incomodou. Estava ocupado demais digerindo cores, texturas e melodias pra me perguntar se o arco da protagonista iria ou não se resolver. Mas, pensando melhor, entendi por que essa escolha joga contra o filme.
Ao segurar as grandes implicações da narrativa pra a sequência, Wicked demora demais para estabelecer os dilemas morais da protagonista, sufocados pelo excesso de números musicais e subtramas que inflam a história, como o príncipe encantado, o triângulo amoroso com Glinda, o romance da irmã e toda a mitologia em torno da cidade das Esmeraldas.
Com isso, o que poderia ser uma história de origem fascinante de uma vilã se torna um grande comercial de margarina, e sua interação com personagens quase sempre maniqueístas acaba deixando tudo pasteurizado.
O que realmente sustenta a obra são as atrizes e a química entre elas. Ariana Grande consegue dar a uma personagem intragável um traço de charme e inocência, e Cynthia Erivo, com voz e entrega impressionantes, mostra por que é o coração disso tudo.
No fim, Wicked é cheio de energia, mas deixa o prato principal pra depois. Pra quem já sabe o que esperar, é um banquete. Pra quem quer algo a mais, é um petisco.
Medusa
3.4 64 Assista Agora~~crítica social foda~~
O Assassino
3.3 546 Assista AgoraDa série: personagens que deveriam abrir um podcast de meditação guiada. Até em um projeto mediano, o Fincher entrega um trabalho intrigante e charmoso. Se tivesse permanecido na toada do primeiro ato, a nota seria outra. Fassbender tá um monstro.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
3.9 507 Assista Agora“Você se paralisa. Era isso que eu sentia: paralisia múltipla. Por isso fiz essa viagem - pra me mover, pra voltar a caminhar. Voltar a comer o sanduíche de filé, voltar a andar de moto, voltar a ver o Fortaleza ganhar. Pra voltar a ir à praia num domingo. Pra voltar a viver.”
Camocim
3.5 19Onde consigo assistir? Não tá mais disponível pra aluguel no YT.
Blade Runner: O Caçador de Andróides
4.1 1,7K Assista AgoraNum tempo em que a gente delega tudo às máquinas - e elas começam a avançar nos territórios da sensibilidade - Blade Runner ainda serve de espelho, mesmo após 43 anos da sua estreia. Ele reflete um mundo que opera no automático e torna a apatia um modo de existir.
A alma do filme tá em como direção de arte, fotografia e som compõem uma atmosfera tão austera quanto familiar: uma megalópole de construções monolíticas, tragada por escuridão, fumaça e propaganda. Um lugar onde a desigualdade é esmagadora, mas a ilusão da hierarquia é sustentada por aqueles que foram rejeitados no paraíso das colônias espaciais.
Condenado a permanecer na Terra por um defeito congênito, J.F. Sebastian, engenheiro genético da Tyrell, se arrasta. Ganhou o “privilégio” de viver sozinho num prédio abandonado, mas vive cercado por bonecos mecânicos que simulam companhia e afeto.
Em paralelo, os mais abastados ostentam animais sintéticos como símbolos de status, numa tentativa de resgatar a conexão com o natural, o orgânico — tudo aquilo que os terráqueos já não alcançam, sobrevivendo à base de torpor e comida processada.
A ambiguidade também se manifesta na trilha sonora, que com frequência nos alça a um estado de contemplação, como se ainda fosse possível ver beleza nesse universo. E é. Não através do conformismo de Deckard, mas sim da urgência dos rebeldes que ele caça sob luzes neon. É com a fúria, a ternura e a luta desesperada contra o tempo de Roy, Pris, Zhora e Leon que a gente se conecta.
Em uma sequência frágil e brutal, um replicante corre em câmera lenta. O som dos tiros e o estilhaçar dos vidros se mistura aos acordes melancólicos do sintetizador. Um corpo cai e ninguém ao redor liga — é Vangelis fazendo da tragédia uma paisagem de sonho, um delírio poético, em uma das cenas mais potentes do filme.
Os andróides são registrados pela câmera com a mesma gentileza presente nos seus monólogos: suaves <i>contra-plongées</i> e <i>close-ups</i> trazem à tona sua força, dignidade e grandeza.
No fim, eles eram escravos, e ainda assim, enxergaram coisas que a maioria das pessoas jamais verá. Essas memórias são a sua herança — o testemunho da sua existência.
Em Blade Runner, a humanidade não é de nascença. Ela tá no que se sente, no que se guarda e no que se deixa.
Temporada
3.9 148 Assista Agora1. Quero ser amigo do Russão
2. Grace Passô é um assombro
3. Direção de Fotografia no talo
4. “Tu não tem nada pra fazer
E fica nessa agonia
Fala de mim, pensa em mim
24 horas por dia.
Só sabe o meu primeiro nome
E acha que me conhece
Olha, se põe no seu lugar
Vê se comigo não se mete.”
- Carlos
Lição de Casa
4.1 7Como é que segue em frente depois desse filme?
Onde Fica a Casa do Meu Amigo?
4.2 159 Assista AgoraA vida não costuma dar escolha. O dia começa cedo e segue no ritmo que dá. A prioridade é a roupa lavada, a venda feita, o gado ordenhado e o pão quente na mesa. É preciso garantir o sustento e ensinar os filhos a fazer o mesmo. O que não ajuda a sobreviver, fica pra depois. E assim, viramos indivíduos aprisionados pela rotina, tão obstinados pelos deveres que descartamos sem cerimônia tudo o que não parece urgente.
Enquanto o mundo gira no piloto automático, Ahmed desafia a rigidez da funcionalidade. Corre de aldeia em aldeia, enfrentando a noite, o cansaço e a indiferença apenas pra proteger o amigo da intolerância dos adultos. E uma flor repousando nas páginas de um caderno vira um lembrete de que, entre as migalhas do tempo, é possível encontrar espaço pra a ternura.
Na sua delicada crônica da subsistência, Kiarostami nos mostra que viver é mais do que ter disciplina e cumprir tarefas. É sentir, acolher e preservar um pouco da pureza das crianças. Dolorosamente lindo.
Emilia Pérez
2.4 483 Assista AgoraO que mais gosto em Emilia Pérez é justamente o que muita gente rechaça: as performances teatrais e o visual experimental, que dão cara ao projeto. O problema é que o filme se leva a sério e tenta dar um passo maior que a perna.
Ele até segura enquanto estamos curiosos para saber como Emilia vai se resolver com Jessi, como em uma boa novela da Netflix. Mas basta olhar de perto pra perceber que a trama tem mais pose do que propósito. As músicas flertam com identidade, redenção, poder, corrupção e violência, sugerindo que esses temas são a espinha dorsal da história, mas só os usa como pano de fundo.
Antes de se tornar Emilia, Manitas era chefe de um poderoso cartel do narcotráfico. Depois, vira uma figura benevolente e distante do passado violento. Ao fazer isso, Audiard trata a transição de gênero não como uma vivência complexa e subjetiva, mas como um mero artifício dramático. A cena da cirurgia de redesignação reforça isso, ao fazer de um momento íntimo um número musical excêntrico e fora de tom.
Nem o idioma escapa ao olhar supérfluo do diretor. A artificialidade do espanhol cria um distanciamento entre quem assiste e a cultura que o filme tenta refletir.
No fim, Audiard parece mais preocupado em deixar sua marca do que em se comprometer com a história que escolheu contar, provando que um punhado de boas intenções não faz um bom filme.
Conclave
3.9 825 Assista AgoraNão espere de Conclave uma trama mirabolante ou uma reinvenção dos filmes de thriller psicológico. Ele é o clássico feijão com arroz bem feito, aquele prato que você pede em um restaurante novo sem grandes expectativas, mas que te surpreende e fica na memória.
A história é simples: quando o papa falece, tem início o conclave pra escolher seu sucessor. Entre os candidatos, há mais interesses escusos do que vontade divina. E é no meio desse tabuleiro de fé e ambição que o cardeal Lawrence precisa garantir que a escolha não desmonte o legado da Igreja e os avanços do último papado.
Se há algo que o filme masteriza é a construção de atmosfera. Da fotografia à trilha sonora, da cenografia ao figurino, tudo se encaixa com precisão cirúrgica, dando um realismo quase sufocante a essa eleição a portas trancadas.
O elenco também entrega. Entre os nomes de prestígio que ajudam a manter a tensão no ar, é Ralph Fiennes quem carrega não só o filme, mas o peso do mundo nas costas. Sua postura denuncia o tamanho do seu fardo, e sua presença evidencia a gravidade dos dilema internos e filosóficos que seu personagem vive.
Edward Berger assina um filme provocativo que evita respostas fáceis. Em vez disso, instiga a curiosidade e deixa no ar um rastro de perguntas. No fim, vale a experiência justamente por isso: é uma luz de dúvidas em um mundo obcecado por certezas.
Duna: Parte Dois
4.2 859 Assista AgoraPoucos cineastas sabem brincar com a grandiosidade sem cair no exagero. A Chegada tem óvnis que desafiam a física; Blade Runner 2049 reinventa Los Angeles como uma selva futurista, decadente e melancólica; e Duna transforma o deserto em um palco onde vermes gigantes ditam as regras.
É essa habilidade de tornar monumental e crível o mundo ao redor dos personagens que torna os filmes de Denis Villeneuve tão hipnotizantes. Em Duna: Parte 2 não é diferente. Arrakis é o cenário sísmico da ascensão de Paul Atreides entre os Fremen para reivindicar seu papel como messias.
Villeneuve não se apoia apenas na estética - ele dosa os gêneros com precisão. Entrelaça a intriga política ao romance, a guerra ao humor sutil, sem jamais comprometer o caráter dramático da história.
Muito desse domínio narrativo vem do fato de que ele não tem pressa. Essa cadência torna Duna imersivo, e é justamente por isso que soa estranho quando, em certos momentos, o roteiro simplesmente salta etapas e entrega soluções sem a mesma preparação — como a localização repentina de um recurso estratégico, a revelação de um parentesco inesperado ou a mudança brusca na postura de Paul após um momento de provação. Quando isso acontece, a narrativa perde um pouco do refinamento que o diretor estabelece no resto do filme.
Ainda assim, isso está longe de apagar o brilho da obra. Se a primeira parte mostrou que Duna era possível, a segunda prova que ele já é um evento cultural. Villeneuve não apenas trouxe Arrakis para a tela — ele cravou sua visão no imaginário popular. Ao apostar na força da escala e na fusão de gêneros, reafirma por que ninguém materializa mundos como ele.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraO primeiro personagem de Ainda Estou Aqui é o litoral carioca dos anos 70. Nele, a família Paiva toma banho, corre, joga bola e pega um bronze - a vida pulsa em cores saturadas.
O segundo é a casa. Marcelo volta da praia com um cachorro de rua e espalha areia pelo chão. O pai hesita, mas cede. Lá não tem celular tocando, feed infinito nem ansiedade digital. É o refúgio onde os amigos chegam, o vinil dança na vitrola e o tempo desacelera.
Nalu ensaia um dueto, a caçula balança um dente de leite. A jogatina de totó flagra a meninice dos homens e a de gamão sela a cumplicidade do casal. Vera tá sempre com a Super 8 na mão, porque lembrar dá trabalho e há momentos que precisam ser eternizados. Dá pra sentir o calor, a liberdade e a despreocupação, antes de tudo ser surrupiado da gente. Salles torna esse cenário tão verossímil que ativa de forma imediata a nostalgia de uma vida que não é nossa. Mas não é à toa que nos sentimos assim.
Crescemos num país onde o clima tropical aproxima as pessoas. Amadurecemos num caldeirão cultural temperado à base de afeto e otimismo. Um país onde uma receita de suflê familiar nos une em torno da mesa pra ouvir as histórias intermináveis e confusas dos nossos parentes. Quando já estamos envolvidos nesse mundo, o filme aperta o peito com a ausência do que construiu.
Ele usa um tipo de suspense passivo, que se materializa no barulho de helicópteros, notícias urgentes, na patrulha de tanques de guerra e na figura de burocratas truculentos. Agentes que cumprem ordens sem sentido em um Brasil que flexibiliza as hierarquias, chamando o chefe do trabalho de "irmão" e o garçom de "doutor"; que não fica impassível diante de uma família impedida de receber notícias dos seus. "Não dá pra não fazer nada".
É lindo que o filme tenha caído nas graças do mundo, mas só quem é latino sente ele na carne.
Apesar da ternura, às vezes dá uma impaciência com Eunice. Por não explodir, não dar vazão à raiva das filhas e proteger demais seus pequenos. Mas ela é mãe. E mãe aprende a se virar nos 30, sobreviver no improviso e acreditar, sempre, num amanhã melhor - muitas vezes sem levantar a voz. É uma resiliência descomunal que inspira e assombra.
Que momento pra retratar as feridas de tempos sombrios, a força de quem resistiu e a memória do que não pode ser esquecido, apesar dos que querem enterrá-la. Obrigado, Rubens, Eunice, Marcelo, Walter, Fernanda, Selton, a toda a família Paiva e à equipe de Ainda Estou Aqui. Poucas vezes a gente sentiu tanto orgulho de se olhar no espelho.
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraA obviedade pode matar um filme. Quando as metáforas estão estampadas, o espectador perde a chance de interpretar o texto por conta própria. A Substância tinha tudo para cair nessa armadilha, mas escapa no meio do caminho.
Sim, o filme não tem medo de jogar suas cartas na mesa. Sua posição é gritante e didática, e isso fica evidente na caricatura que é o personagem de Dennis Quaid. O problema não tá na crítica, mas no jeito como ela é entregue.
Apesar disso, o filme se sustenta bem. Ele não precisa de uma trama complexa pra ser bom, porque é simples no conceito, mas potente na execução. Criar uma experiência visual forte sem cair no simplismo é um desafio, e é isso que acontece aqui. Mesmo sem esconder o jogo, Coralie Fargeat embala tudo com precisão e transforma o óbvio em uma escolha estilística.
Ela faz o caminho inverso de Nicolas Winding Refn em Demônio de Neon, que tece um comentário semelhante à pressão estética que as mulheres sofrem nas mãos da indústria. No papel, o filme de 2017 tem tudo que eu gosto: simbolismo, uma composição visual hipnotizante e algum subtexto para a gente ficar mastigando. Mas se esvazia por sua pretensão de causar choque e confusão mesmo quando não tem mais nada a dizer.
Já A Substância empacota suas ideias com um design de produção impecável e cheia de referências clássicas, uma cinematografia vibrante e um trabalho de som que eleva a nossa imersão. São decisões bem amarradas que conseguem amplificar o conceito sem precisar complicar pra parecer rebuscado.
E então, chegamos ao calcanhar de Aquiles do filme: em vez de encerrar com a tensão suspensa e deixar espaço para a imaginação preencher as lacunas, Fargeat aposta em um desfecho apoteótico, que divide o público e quase compromete a sua distribuição global. Exagerada ou não, é uma decisão intransigente que torna A Substância uma obra honesta e impossível de ignorar.
Anora
3.4 1,1K Assista AgoraSean Baker inicia Anora com sua marca registrada – música pop nos créditos iniciais, ambientação do espaço, apresentação da protagonista e um corte abrupto pra a realidade caótica que estamos prestes a acompanhar.
Seus filmes mantêm um frescor próprio porque as cenas dinâmicas, os diálogos verborrágicos e a trilha sonora urbana embalam a marginalização norte-americana como um reality show. Seus personagens atropelam frases, improvisam e encontram humor e leveza onde parece improvável florescer. E é isso que torna seu olhar tão ambíguo e fascinante.
Gosto, também, de como o diretor tece suas críticas: uma das strippers conta que um cliente comprou mais danças depois de notar que ela parecia sua filha de 18 anos; Ani é bilíngue, tá no padrão de beleza e tem ascendência russa, mas nada disso a aproxima da família que quer pertencer. Ela será sempre definida pelo que faz. Baker não enfatiza nada disso, apenas retrata essas situações como parte do cotidiano das personagens, porque, na vida real, realmente seriam.
Mas, diferente de Projeto Flórida, em que essa riqueza do que está sendo dito nas entrelinhas cobre o filme inteiro, Anora vai se perdendo no caminho. Quando os três capangas tomam a frente da história, a trama escorrega pra um tom de comédia pastelão e se demora tanto no desespero de Toros e na canastrice de Garnik que Ani é empurrada pra escanteio, passando boa parte do tempo sendo arrastada pelos acontecimentos. Por mais que isso escancare sua impotência dentro daquele universo, é uma decisão que desloca a protagonista do centro emocional da narrativa e deixa o filme órfão do que ele tem de melhor.
Na sua jornada até a belíssima cena final, Baker entrega um filme frenético e divertido, que, por vezes, remete ao alvoroço de Joias Brutas. Mas, diferente do filme dos irmãos Safdie, Anora perde fôlego, e o que poderia ter sido um estudo íntimo de personagem se dissolve entre querer dizer algo profundo e querer fazer o público rir – sem encontrar o ponto de equilíbrio entre os dois.
O Brutalista
3.6 307 Assista AgoraA tragédia do Holocausto foi marcada pelo medo do outro. Um medo que justificou perseguições, confinamentos e extermínios em massa. O Brutalista nos mostra que esse medo não acabou com o fim da guerra – ele apenas mudou de forma.
Agora, ele não se manifesta em câmaras de gás, mas em processos de apagamento cultural. Laszlo também é um sobrevivente desse novo tipo de violência: o sistema que antes o via como uma ameaça agora exige que ele prove sua utilidade e sua disposição pra se encaixar. Seu primo já aceitou esse destino, adotando um novo sobrenome, uma nova religião, uma postura alinhada às expectativas de seu novo país.
E de onde vem esse medo do outro? Jean-Claude Carrière diz que a gente ergue fachadas brilhantes para esconder lá atrás a falta de solidez. Nesse sentido, a sociedade teme aquilo que não pode domesticar porque isso ameaça sua aparência de perfeição – que, no fundo, é uma farsa.
Essa aparência se sustenta sobre um modelo de masculinidade frágil, que só sobrevive na base da repressão e da hipocrisia, pois qualquer rachadura pode fazê-la desmoronar. Os homens do filme vivem em uma constante performance de virilidade, ao mesmo tempo em que nutrem uma tensão sexual entre si. Passam o tempo inteiro tentando provar que são invencíveis e, para isso, precisam subjugar o próximo, silenciando tudo o que possa expor a sua própria fragilidade, e, por extensão, a do sistema que fazem parte. Mas quando essa fachada se quebra, a queda é irreversível.
A cena em que é sugerido que Harrison se suicida é um dos momentos mais simbólicos disso.
E essa lógica não se restringe aos EUA. Ela tá presente na forma como as sociedades modernas são organizadas, em como a política internacional é conduzida, em como guerras são justificadas.
No meio desse caos, a única forma de sobreviver é garantir que sua história seja contada. É por isso que Laszlo se agarra à sua arquitetura: se ele não pode ser aceito, pode ao menos construir algo que resista ao tempo. E talvez essa seja a verdadeira vitória sobre o medo do outro: não desaparecer, mas encontrar maneiras de continuar existindo.
Um Completo Desconhecido
3.5 234 Assista AgoraUm filme precisa se sustentar por conta própria, sem depender do nosso conhecimento prévio pra fazer a narrativa funcionar. É aí que Um Completo Desconhecido falha.
Pra comprar a grandiosidade da trajetória de Bob Dylan, parece que já é necessário conhecer sua personalidade e seu trabalho. Quem não tem esse repertório tende a sair da sessão achando que ele era apenas um sujeito talentoso, arrogante e que teve a sorte de se conectar com as pessoas certas.
O contexto histórico fica no rascunho, e as origens e motivações do artista permanecem um mistério. Assim, o filme não consegue articular com profundidade o impacto de Dylan na cena musical da época.
A interpretação de Timothée Chalamet reforça esse distanciamento. Ele enfatiza tanto os cacoetes do biografado que, em vários momentos, é difícil enxergar algo além deles. O resultado é que, mesmo vivendo um autocrata em Duna, o ator inspira mais simpatia lá do que aqui.
Mas se a narrativa deixa a desejar, a música, em partes, compensa. As canções que alçaram Dylan a um ícone da contracultura estão entre os pontos altos da sessão, porque lhe emprestam ritmo.
Por isso, a presença de Monica Barbaro como Joan Baez brilha. Sua voz é sublime e sua personagem enriquece a história, assim como o Edward Norton no papel de Pete Seeger.
No fim, o filme retrata Dylan como um compositor obstinado e convencido de que o público deve ouvir o que ele quer tocar porque, bem... ele quer. Ao menos, nesse meio tempo, o folk encontra um jeito de nos abraçar.
Um Homem Diferente
3.5 171 Assista AgoraGargalhei na cena do
assassinato.
Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado
3.9 51 Assista AgoraEsconde um grande acontecimento em uma coleção caótica de relatos e referências históricas. A falta de um fio condutor claro compromete a contextualização dos fatos e torna a maior parte da experiência um fardo.
A Garota da Agulha
4.0 297 Assista AgoraQuanto mais penso nesse filme, mais gosto dele. Direção afiada, controle absoluto da narrativa. Cada frame é um quadro... Uma das maiores surpresas do Oscar pra mim até então.
Sing Sing
3.8 147 Assista AgoraA arte cura.
O Reformatório Nickel
3.3 158Filmado em primeira pessoa, Nickel Boys nos arrasta pra dentro da trama. Na pele de Elwood, a gente sente o afeto da avó, absorve os discursos de Martin Luther King Jr. e vivencia as tensões raciais da época sob as leis de Jim Crow - uma escolha acertada, já que nos permite acompanhar o crescimento do protagonista e ver como ele molda sua visão de mundo.
A chegada ao reformatório cria um paradoxo: o lugar tem um visual idílico, mas provoca um mau pressentimento constante, intensificado pela câmera em ponto de vista e pela claustrofobia do formato 4:3.
A mistura com imagens de arquivo dá um aspecto documental, como se estivéssemos assistindo a uma exposição sobre um pedaço macabro da história americana. Tudo funciona bem, até certo ponto.
Na tentativa de traduzir a imprecisão da memória humana e emular a desorientação dos personagens, a montagem aposta em saltos temporais que transformam a experiência em um jogo de quebra-cabeças. E o que começa como um frescor criativo, pouco a pouco nos afasta emocionalmente dos protagonistas.
No esforço de ser fiel à sua estética, o filme se dispersa com os próprios cortes e perde de vista a essência da história.
Wicked
3.9 524 Assista AgoraEm tempos de CGI a toque de caixa, Wicked impressiona ao apostar nos efeitos práticos para dar vida ao seu universo. E sincronizar os movimentos de um elenco numeroso em cenários cheios de detalhes não deve ter sido fácil. Mas, se o filme brilha na parte técnica, tropeça no roteiro.
Uma das reclamações mais comuns é que o público se sentiu traído porque esta primeira parte mostra só o começo da transformação de Elphaba. Confesso que, durante a sessão, isso não me incomodou. Estava ocupado demais digerindo cores, texturas e melodias pra me perguntar se o arco da protagonista iria ou não se resolver. Mas, pensando melhor, entendi por que essa escolha joga contra o filme.
Ao segurar as grandes implicações da narrativa pra a sequência, Wicked demora demais para estabelecer os dilemas morais da protagonista, sufocados pelo excesso de números musicais e subtramas que inflam a história, como o príncipe encantado, o triângulo amoroso com Glinda, o romance da irmã e toda a mitologia em torno da cidade das Esmeraldas.
Com isso, o que poderia ser uma história de origem fascinante de uma vilã se torna um grande comercial de margarina, e sua interação com personagens quase sempre maniqueístas acaba deixando tudo pasteurizado.
O que realmente sustenta a obra são as atrizes e a química entre elas. Ariana Grande consegue dar a uma personagem intragável um traço de charme e inocência, e Cynthia Erivo, com voz e entrega impressionantes, mostra por que é o coração disso tudo.
No fim, Wicked é cheio de energia, mas deixa o prato principal pra depois. Pra quem já sabe o que esperar, é um banquete. Pra quem quer algo a mais, é um petisco.
Robô Selvagem
4.3 561- O acidente
que matou sua família
- Eu nunca tinha pensado desse jeito.
- Engraçado... Como a vida funciona.
Jurado Nº 2
3.6 460 Assista AgoraBicho… Crise existencial das brabas.