Últimas opiniões enviadas
por que escrever um roteiro de pornô — pois os personagens planos, cuja vida aparentemente gira inteiramente ao redor do ménage irrealizado, tergiversam variações baratas sobre o tênis metafórico que não sobem muito acima das costumeiras sobre o encanador — mas implementá-lo reprimindo todo e qualquer desenlace visual e narrativo minimamente consequente (👉👌)? em especial a sugestão homoerótica, que, apesar de óbvia e (literalmente) ululante, nunca chega a ser narrativamente concretizada — uma repressão curiosa, pois o enredo, que vem do mesmo que nos presenteou timothée chalamet de twink fka eromenos, segue a todo tempo no conteúdo manifesto apenas com a heterossexualidade, mas tem vestiário masculino, sauna, bunda galore e inclusive dois pintos (ainda que não os mais importantes, para manter a repressão) enquanto não tem um mísero peitinho, e as duas únicas cenas que consigo me lembrar de eles babando em cima da zendaya são extremamente fracas e inconvincentes, acredito, para qualquer homem hétero. são inumeráveis também as cenas cuja estrutura é o coito interrompido, em que eles estão prestes a transar mas acabam brigando. por que esse jogo intencional de incitação e frustração que se prolonga muito mais do que o necessário (das 2h10, pelo menos meia hora resultam de recursos repetitivos e batidos de tensão visual tipo camera lenta, plano-contraplano voyeuristico e que tais) sobre cujo desenlace simbólico tão tênue na última cena já reclamaram mais abaixo? poder-se-ia considerar que o espectador suposto pelo filme seja a mulher que se investe em fanfic de homens gays através dessa identificação voyeurística difusa, não especificamente voltada à visualidade; mas mesmo esse gênero prescreve um desenlace narrativo claro da homossexualidade. a heterossexualidade fake do filme apenas objetifica a personagem da zendaya, adscreve formalmente a ela a função de finalidade da ação dos pseudo-gays, mas sem qualquer investimento sexual real nisso, sem a fetichização visual que constituia a verdadeira fonte de gozo do cinema narrativo clássico, substituindo-a pela tensão homoerótica reprimida entre os que competem por ela. por que essa elevação da lei do desejo a uma forma vazia que paira sobre as nossas cabeças? ora, a graça do edging certamente é destruída para o neurótico se nunca chega o arremate, mas para o sádico esse é justamente o objetivo. será o caso de considerar justamente a obviedade do referente sexual do tênis um ofuscamento? é verdade que muito pouco é desenvolvido sobre o tênis enquanto tal, seus aspectos técnicos, sua história ou coisa que o valha, e de modo geral nem mesmo se pode acompanhar um única partida de tênis propriamente dita, pois a estilização visual a todo tempo borra e confunde o que seria especificamente tenista no jogo; isso certamente mantém o tênis como mero símbolo, uma atividade em geral que se refere a outra coisa. no entanto, de um lado, se para os dois pseudo-gays o tênis é apenas uma sequência de meios para o sexo, é uma sequência que se prolonga infinitamente na frustração do fim, a estrutura clássica da razão subjetiva de horkheimer que os mantém em atividade cada vez mais abstrata e intensa como a cenoura na frente do burro; de outro, para a personagem da zendaya, o sexo e a incitação à competição frustrante e sem sentido entre os dois é que é meio para produzir a tensão necessaria para uma boa partida de tênis — ela o diz explicitamente após frustrar o ménage adolescente —, e é justamente apenas essa boa partida abstrata o que se realiza na última cena, uma conclusão que reconfirma a inversão da metáfora. o sexo está em função do tênis, mas do tênis apenas como atividade competitiva em geral, um bullshit job, à qual se consegue que os tenistas se engajem com zelo por meio mesmo dessa dosagem precisa de frustração e incitação que os faz trabalhar mais e melhor. esse o curioso caminho que levou guadagnino do platonismo homoerótico faux-classicista à erotização do neoliberalismo.
Últimos recados
te amo muito.
ma babe <3
E não é que, sob certa perspectiva, a diferença entre Edgar Poe e Crepúsculo é mesmo apenas um pouco de gore e pornô de corno? Pois não basta dizer que o pacto com o diabo de Eggers — que agora apenas pede, como Nosferatu, a reconfirmação do que já havia sido firmado quando, em sua última notícia, o diretor recomendou a Shakespeare o neopaganismo de fórum mal diagramado — é pelos dólares a mais. É que a voz crítica do demoníaco foi objetivamente abafada pelos "muarrarrarrarrá" da indústria cultural. O poeta do mal envelheceu tanto quanto aquilo que escreveu a respeito de Poe:
"Tal força primitiva, irresistível, é a Perversidade natural [...]; a impossibilidade de encontrar um motivo razoável para certas ações más e perigosas poderia nos levar a considerá-las como sugestão do Demônio se a experiência e a história não nos ensinassem que Deus costuma desestabilizar a ordem e negligenciar o castigo aos faltosos; após ter se valido dos mesmos faltosos como cúmplices [...]. No entanto, não quero, no presente instante, cuidar de nada a não ser da verdade esquecida, a perversidade primordial do homem, e não é sem satisfação que vejo alguns destroços da antiga sabedoria voltarem de um país de onde não os esperaríamos. É agradável que algumas explosões da boa e velha verdade sejam jogadas dessa maneira na cara de todos os que louvam a raça humana, de todos esses apaziguadores e atenuadores que repetem em todos os tons possíveis 'Nasci bom, você também, todos nós nascemos bons!' esquecendo, não!, fingindo esquecer o outro lado, que nascemos marcados pelo mal!" (https://revistacult.uol.com.br/home/baudelaire-sobre-edgar-allan-poe/)
O que Baudelaire perdeu de vista é que esse país de moralistas de cuja mediocridade Poe, para sua surpresa, se ergueu, o país que percebeu que castraria o macabro da Bíblia se a guardasse ao lado do livro contábil, teria rapidamente a mesma ideia sobre a literatura gótica. A força que nos puxa ao fundo da decadência mais cintilante é a mesma, com o sinal trocado, do imperativo do dever puro e do Progresso humano — a força comum, a essa altura manualizada, a parir as gêmeas Modernização e Destruição e que, depois de cem anos de fascismo, já aprendeu que precisa se apresentar por trás da fachada de “explosões de boa e velha verdade esquecida” com pitadas de “primordial”. Ela só preserva esse efeito batido à medida em que há sempre quem quer se engajar no jogo de peek-a-boo (no caso de Eggers, também tediosamente literal) em que se finge acreditar na ciência moderna e na visão esclarecida do mundo para supreender-se com os segredos do ocultismo e da conspiração que essa visão embota — um jogo que mesmo o mais anti-vax dos alfa adeptos do “retvrn” precisa jogar para ligar o carro e ir às compras. As imagens e sons cliché e os diálogos pífios de tema sexual porcamente elaborado que, no filme, fazem as vezes do segredo revelado que “devemos reconhecer que existe para enfrentar” não deixam dúvida de que se trata de um segredo de polichinelo e que a tal magia é, novamente, embotamento do esclarecimento, sem que jamais se aprenda a necessidade das interversões desse círculo mágico. Revelado de uma vez, o oculto é só esse bicho papão diante do qual já as crianças hoje bocejam e pegam o celular, no qual o encontram cotidianamente. Mas parece que Eggers se cansou definitivamente daquele paciente trabalho de pesquisa histórica e decifração simbólica que encontramos em A Bruxa e O Farol, mesmo que ainda o faça por hobby — trabalho de tecer as medicações que parariam o reviramento do revelado no oculto por mostrar que o verso e o anverso estão na mesma face feito banda de moebius. Era devido a isso que o insondável da sexualidade e da conexão com o outro apareciam com toda a ambiguidade entre decifrante e decifrado — na qual sentíamos ainda brilhar a força baudelaireana de dizer, por exemplo, que a puberdade, ainda que “primordial” ou coisa que o valha, é mesmo demoníaca, e daí? Agora, quanto à armadilha que Eggers armara para a unilateralidade da moral familiar cristã ou para o narcisismo masculino, parece que ele mesmo caiu nela — assim como Baudelaire contra o socialismo — e chora diante da essência demoníaca da mulher, um projeção do diretor que se explica pelas mesmas razões pelas quais “cuck” se tornou o xingamento preferido da extrema-direita americana.