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Uma obra forte e muito intensa sobre o que é a maternidade sem uma rede de apoio adequada. Linda é o exemplo de mãe cansada, que até pode ter algumas pessoas por perto, mas elas nunca serão capazes de entender a metade do que ela sente. A protagonista carrega um vazio enorme, um desespero que a faz querer procurar qualquer coisa para fugir daquela realidade sufocante. Nesse sentido, a direção de Mary Bronstein puxa para o lado mais frio e cru, com cenas que invocam uma claustrofobia assustadora que nos mostra o turbilhão de pensamentos de Linda.
Aqui temos uma produção que foi feliz em todos os aspectos que se propôs: entregou um ótimo drama, boas reviravoltas e uma trama investigativa de qualidade. O elenco está super afiado e a sintonia entre eles é muito boa (curti demais ver a Dakota Fanning e a Sarah Snook juntas). O roteiro é organizado nas informações e sabe passar os segredos daquelas personagens sem fazer uma grande confusão cronológica. E aqui acredito que entra um pouco o aspecto investigativo, porque explicaram o que foi necessário explicar, mas sem se tornar repetitiva ou muito expositiva.
Mas acho que o grande acerto da série foi apresentar essa temática de como as mulheres se veem sozinhas quando são mães, mesmo estando casadas. Nós as sobrecarregamos com tarefas e julgamentos, e isso independente se elas querem ou não ter filhos: se querem, dizem que elas precisam se dedicar 100% ao lar, e se não querem dizem que elas estão erradas. A Jenny entra na vida da Marissa como aquela pessoa que entende o sofrimento da amiga e estende a mão, independente da visão que outras pessoas vão ter disso. É interessante ver como essa rede de apoio é construída. Já escrevi isso em outro comentário, mas é bastante comum ver mulheres relatando que se veem abandonadas por seus "parceiros" quando o filho nasce, até porque a sociedade dá um lugar bastante privilegiado para o homem não arcar com suas responsabilidades. O peter é o melhor exemplo disso: ele fez tudo aquilo sem medo algum porque, na cabeça dele, estava "tudo certo". Além dos claros traços de psicopatia do cara, há aí uma validação externa de que "você pode tudo", "o mundo é seu". Então ele começa a dominar, controlando todos ao seu redor como marionetes. Mais uma vez: há questões internas no indivíduo, mas também há um coletivo dizendo que tudo bem ele fazer o que quiser.
Para a mulher? Nah. Ela não pode. O mundo não dá escolhas para elas. Infelizmente.
Então, sim, eu gostei muito da série. Na verdade, deveria ter dado atenção antes, mas pelo menos essa temporada de premiações dá um alerta pra gente e mostra coisas boas que valem a pena.
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Cara, seus comentários são muito bons!!!
O Agente Secreto é uma celebração das memórias e a forma como elas possuem esse poder de serem passadas por diferentes gerações. Acredito que de todos os filmes que vi do Kleber Mendonça Filho, esse talvez seja a sua obra mais diferente: o diretor opta por uma narrativa não-linear e explora muito bem o suspense investigativo (com toques perfeitos da nossa brasilidade). É um filme com ritmo mais lento, então não esperem algo frenético estilo "Bacurau", mas sim algo próximo de "Som ao Redor". Mas, honestamente, para mim isso não é demérito: é o texto pedindo paciência ao espectador, pois há muitas camadas importantes que ele quer mostrar.
Acho que não seria novidade pontuar que nosso país possui, ainda, um problema com sua História. Muitos setores da sociedade (em especial políticos da extrema-direita) se negam a lembrar de momentos em que brasileiros foram perseguidos e tiveram seus direitos cessados em sua própria terra. Mas "O Agente Secreto" nos mostra que o ato de esquecer significar dar poder aos algozes e deixa-los perpetuando um mecanismo de violências.
A figura de Armando nada contra essa maré. Ele é uma espécie de símbolo. Sua história se entrelaça com o passado ao procurar algum registro de sua mãe, e vai até o presente quando é resgatada por Flávia ao ouvir aquelas fitas. E nesse ponto temos destaque para a oralidade, que desempenha um papel central em como Flavia e sua amiga passam a entender Armando. Flávia ouve as próprias palavras dele. E embora aquilo fosse somente um trabalho, ela se interessa pelo seu personagem o suficiente para continuar se debruçando no material até chegar ao filho dele.
Por falar em Fernando, é importante mencionar como ele já criança estava começando a esquecer da mãe e, depois de adulto, não tinha mais a imagem nítida do pai. O trabalho de restauração feito por Flávia o possibilita, agora, ter essas imagens em sua mente. As memórias o encontraram.
Com muita paciência, sensibilidade e um toque certeiro de drama e suspense, "O Agente Secreto" nos entrega mais uma imagem do que é o Brasil, o que é "ser brasileiro" e a importância de nunca esquecer nossa História.