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Amo ir no cinema despretensiosamente e me deparar com filmes como este.
O filme faz um debate muito atual sobre feminismo, de uma maneira que não vi nenhum filme da atualidade fazer, sempre vejo debates sobre feminismo que pra mim são datados.
É muito inteligente a forma como foi feita a dualidade da Alma e Maggie. A Alma é uma mulher forte que posa como feminista ativa, mas acaba se mostrando ao longo do filme (com o ápice na cena do hospital) como uma mulher que nunca entendeu o que é feminismo, apesar de ensinar isso todos os dias, e que cedeu a uma sociedade patriarcal para atingir seus objetivos, como é definida pela Maggie. Enquanto a Maggie, que representa sua geração que por diversas vezes no filme é chamada de fraca, fresca, etc, acaba se mostrando mais forte e até mesmo mais madura do que os adultos ao seu redor.
Algo que demonstra isso é o fato de ambas terem sofrido um abuso sexual e a forma com que a Alma lidou com isso foi se entendendo como provocadora do abuso, alem de nutrir uma paixão pelo seu próprio abusador (?), enquanto a Maggie lida de forma madura entendendo que foi vítima.
Isso fica muito evidente também na cena das duas conversando na cozinha. Quando a Maggie fala algo tipo: “Você está falando sobre ser mulher e sobre o que eu devo fazer como se estivesse dando uma aula, mas não está me tratando como uma mulher aqui na sua frente”. Inclusive, é muito interessante nesta cena os takes das mãos das duas gesticulando, o jeito que a Alma gesticula é passivo e até meio que submisso, enquanto a maneira que a Maggie gesticula é agressiva e dominante, que para mim simboliza exatamente como as duas se posicionam como mulheres na sociedade.E sobre o fim, que vi muitas críticas aqui, eu achei um fechamento "cereja do bolo". Eu entendi a cena final como um clássico nas relações femininas: essa falsidade cordial. Ainda mas no meio acadêmico, onde existe muita competição e vaidade. Se prestamos atenção nas gesticulações (e o filme fala MUITO por meio disso) de ambas enxergamos o desconforto e a distância entre elas, mesmo que conversando sobre suas vidas pessoais. O que pra mim evidencia como nada mudou na relação e que, mesmo depois de todos os anos que passaram, todas as conquistas de ambas e os lugares que cada uma conquistou na sociedade, já deveria não ter motivo para existir competição, mas existe.
E fecha de modo muito inteligente porque faz um paralelo sobre como ser mulher na sociedade não mudou mesmo após tantas lutas e conquistas do feminismo, hoje é apenas disfarçado com essa mesma hipocrisia cordial que se mostra no nosso dia-a-dia.
Ainda tem muitos outros pontos interessantes do filme. Como as relações da Alma com os homens, sempre submissa, mesmo que de maneiras diferentes com cada um deles. As diferentes personalidades masculinas que protagonizam, todas sempre dominantes em suas narrativas, nunca vítimas. São muitos pontos, e a Filosofia ter sido escolhida como background da história e dialogando com as questões éticas e morais que o filme aborda, foi bem legal.
*abre boca de sono*
*fecha boca de sono*